quinta-feira, 16 de maio de 2013

Observação #2

Uma e quinze da manhã e até o relógio cansou de bater.
Bater como expressão, é claro, pois hoje isso é passado.

O visor indica que é hora de dormir, hora de sonhar
E procurar a lua oculta, envolta na névoa poluída
De nossas mentes sociais.

A cidade se calou, mas a noite permanece clara.
Seria isso uma confronta aos estudos que mostram
Que a luz determina o sono e, por isso, continuamos cansados
Mesmo após o mais doce sabor onírico?

Ou será que de tão acostumados com tal modo de vida
Nossos olhos revirados já nem fazem questão de dormir
Ou repousar seu intransigível e inerente estresse fatídico?

Ou um, ou outro, ou ambos, ou nada.

Uma e vinte da manhã e o visor mudou em silêncio.
Divaguei, divaguei e cocei minha cabeça, na altura do maxilar;
O vento oriundo do ventilador me incomodou
E a escuridão lá fora contrastou com a claridade do meu quarto fechado.

Estou num dia em meio à noite
- num Império da Luz, de Magritte, invertido.

Rimbaud repousa em minha bancada e a TV desligada nos reflete, sem sono.
A cortina embolada, os cobertores dobrados e o travesseiro em plena forma...
Formando em mim o desejo de violá-lo, de acariciá-lo
E sonhar um sonho aleatório
Sem mim mesmo, sem pessoas, sem o caos ou norma.

A noite só se faz lá fora...
Uma e vinte e nove agora...
Amanhã às seis será dia de novo
Mas nenhum poema terá coragem de sair de sua cama.

Acho até que as pessoas são mais do que poesia por isso:
Enquanto esta faz-se nada de manhã,
Aquelas fazem nada o dia todo.

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