sábado, 10 de agosto de 2013

Digressão

Dos poucos que restavam a seu lado, o único que realmente parecia estar ali era seu melhor amigo, ele mesmo. Tardes passaram juntos até que este se foi, levando consigo toda a esperança, tino e felicidade que o tirariam daquele estado entre a melancolia e morte, o que, devo ressaltar, sempre foi frequente, até mesmo quando seus sorrisos pareciam eternos; até mesmo quando a eternidade o consumiu e o destruiu, restando-lhe um aborto de emoções. E você, caro leitor, enquanto gozava de seu ócio, lendo um poema ou conto, ele caminhava, sozinho, por trilhos vazios, abandonados, esquecidos, assim como ele. Isso me faz lembrar de Alone, o poema de Edgar Allan Poe. Nele, o eu lírico se via diferente, demonstrava exclusão, ainda que pessoal - ou não - e isso é explicitado ao dizer que tudo que amou, amou sozinho, bem como meu eu lírico. O eu eu.

Desde a reclusão que atribuí a nosso garoto deixado de lado, percebi que o que lhe faltava era uma personalidade, um passado, uma história, de fato. Sem isso, seria apenas um projeto de contista projetando um texto enrolado. Ao fazê-lo, entretanto, serei um contista, cheio de apelidos e prestígio - não sei quais nem quem me considerará - e talvez seja melhor não saber - além de ter um verdadeiro escrito enrolado. A questão é: não estão prontos para coisas diferentes, porque não têm capacidade para interpretar ou enxergar além do que se vê à primeira vista. Vejam... o garoto era raro, era diferente. Parecia estar sempre atento a tudo, como um verdadeiro poeta sem versos, com seus olhos bem abertos para todos os pequenos e vastos detalhes. Perdido em suas digressões, era imaginativo, não fantasioso; era vivo, apesar de morto em sua mente, mas não existia. Era fruto da imaginação de um escritor egocêntrico e incoerente. E, tendo esse rapaz como exemplo, posso dizer que o que escrevo será sempre confuso e jamais entenderão muito bem minhas palavras - até que seja revelada minha genialidade ou extrema falta de eloquência escrita.

O jovem, perdido, foi criando mundos a sua volta para cada situação que lhe era apresentada. Se um estranho aparecia pedindo informações, rapidamente o imaginava como um mapa em branco, com rotas sem nomes e lugares disformes; se alguma conversa alheia o chamava atenção, rapidamente fitava os participantes a fim de descobrir se algum blefava, se algum sorria ou se deprimia por dentro. Não sei ao certo, apesar de, se quisesse, poder ter feito uma explicação, mas tenho a impressão de que só conseguia imaginar todos os sentimentos de alguém e com tamanha profundidade, porque os seus se extinguiram aos poucos, carregando seu orgulho, seus amigos, sociabilidade, talento e caráter ao longo da torrente de conflitos contra si próprio.

Outro fato a se destacar é sua introspecção e timidez. Quem nunca sonhou em ter voz? Quem nunca sonhou em falar o que pensa, e refutar, ou argumentar, o que se ouve? O garoto era dúbio. Conseguia falar sem abrir a boca e ouvir em total silêncio, esperando o momento certo para lançar uma simples frase que acabaria com o complexo discurso adversário. Mas tinha problemas, era oco... parecia pensar demais... até se cansar e jogar tudo aquilo fora, partindo para o ócio e angústia, a qual somente o trazia cicatrizes aos braços e necroses ao cérebro. Mas não quero falar sobre isso, estou farto.

Havia, em sua escola, um ou outro com quem falava, mas, em suma, era o "garoto do fundo", do canto. Passava horas lendo livros variados, de autores diversos, sem que emitisse som qualquer. Um se aproximava, todos se afastavam... e essa era sua rotina. Ao chegar em casa, fazia o mesmo, mas trocava alguns momentos por um pouco de diversão: música e computador, o que, para ele, era o meio mais sincero de exorcizar seus demônios, em atividade, de seu corpo. Contudo, nada disso é relevante, visto que não tenho o menor interesse em prosseguir - e você também não, já que é humano (eu imagino). Quero dizer... ninguém quer saber da vida do outro, em geral... só fazem isso por cortesia ou para se socializar. A falsidade é predominante em nossa sociedade e, se isso acontece, há de se esperar que não se interessem, na verdade, por qualquer coisa que saia de sua via oral. Deve haver interesses ou falta de personalidade para que isso ocorra, mas não posso dizer, não sou filósofo, apenas divago e digrido.


Talvez não tenha nascido para fazer contos
já que não me acostumo com o hábito
de escrever em linhas e excesso de pontos;
talvez seja apenas um enrolado contando
o que os outros chama de confusão;
talvez seja apenas alguém sonhando
em abster-se de sua própria solidão.


E assim ficou, durante anos: depressivo, sozinho, sem muita profundidade aparente, apesar de sua vastidão enigmática e labiríntica ser equivalente ao mundo real (não criado por ele). Excluiu as pessoas de sua vida, procurou o isolamento e matou os deuses, considerados placebo, para ele... porém, nada adiantou, pois estava se adulterando mentalmente. Aqui interrompo para fazer o seguinte comentário: mesmo que quisesse uma cura, não seria ouvido, porque problemas mentais são comumente ligados a insanidade o que, não necessariamente é a mesma coisa. Loucura não é sinônimo de depressão. É que, como disse antes, ninguém liga. Só ligam quando passam a viver determinado fato ou fator. Além disso, esse assunto já está ficando chato. Seria muito melhor interromper atividades quaisquer e sentar, tomar um Guaraná e assistir a um jogo de futebol enquanto um belo sanduíche sorriria para mim. Entretanto, devo terminar a vida do garoto - sem nome. Mas antes, já perceberam que um conto bem narrado faz com que tudo pareça reflexão? O resto é descrição. E não estou enaltecendo meu logro ao escrever tamanho texto, mas sim meu sucesso ao escrever um texto explicando o porquê do mesmo e ainda contando uma história por trás. Nem Nietzsche seria tão egocêntrico. Ecce Homo!

Um belo dia, o jovem acordou com desejo de escrever... e passou a poetizar a poesia que já era viva em seu âmago. Desde então, criou muitas coisas, desejou ser Rimbaud e ficou satisfeito ao se dar conta que tudo era uma pilha de lixo confuso para seus leitores esparsos. Significava que agora era poeta de verdade. Num outro momento, sua namorada pediu que escrevesse um conto (para que ela tomasse conhecimento de como seria, para um poeta, fazê-lo). Ele o escreveu, mas ainda não terminou. Pense bem: num texto como este, quanto mais escrever, mais distante estarei do fim; quanto menos escrever, menos concreto será o final - apesar de quase nada ser concreto daqui para cima. Disse que seria um contista privilegiado se criasse uma história, personalidade e caráter para o rapaz. O fiz. Basta saber que é recluso para saber que não me revelaria nada. Ou melhor, eu não revelaria nada de meu fiel amigo, por ora, eu mesmo a você. E não vou. O final do conto só virá quando o final do poeta chegar, logo, a incerteza chamada futuro continuará verossímil... como este, o conto do eu eu.

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