domingo, 8 de setembro de 2013

Digressão II

Sempre considerei parte de mim a solidão e tristeza. E, aos poucos, passei a viver mais daquela, me apegando ao isolamento como se apegam ao dinheiro: com paixão extrema e inconsciente. E tudo que criei, criei sozinho, a meu contagiante e, por vezes, mentiroso ver. Dias lendo livros diversos, escrevendo poemas dispersos e alimentando a independência enganosa que sonhava ter passavam com lentidão admirável - coisa impossível hoje em dia, pelo fato do homem ter alterado e acabado até mesmo com o próprio tempo. Mas não me importa, porque, sendo de hoje, quero mais que o tempo passe - para que viva depressa e me arrependa no futuro. Mas tudo bem, realmente, porque esse futuro é distante e possivelmente não haverá tempo para ser vivido.

Se alguém me convidasse para alguma atividade ou quisesse apenas ter minha presença e companhia, frequentemente diria que estava ocupado ou que queria estar sozinho. Jamais quis. Só achava que precisava de um pouco de tempo para mim, comigo. E é por isso que hoje sou quem sou: um desconhecido para todos, até mesmo minha família. E é por isso que me desapeguei de tudo e quase todos, levando uma vida de monge tibetano num corpo e alma de brasileiro, ansiando contato social. Mas nem sempre sou assim. Como sempre digo, sou dúbio. Se a solidão é um problema, insisto em me isolar... e isso não é algo controlável ou impulsivo. Apenas é.

E dos poemas que surgiram aos contos que fiz surgir, tudo foi vago ou desinteressante, e só gostaram por serem assim (assim como só escrevi por ser assim também). Tudo é desinteressante quando se é realista. Sou romântico, mas tudo me enche. Tudo me incomoda. Outro dia, por exemplo, um garoto começou a gritar na sala de cinema... no meio do filme! Obviamente, meu senso de monge ficou como monge: na dele, mas o brasileiro ignorante foi despertado. Digamos que falei muito, ouvi um monte e um outro tanto de pipoca voou no moleque gritalhão. Perdi a paciência, mas, como disse, tudo bem.

E, falando em balançar a cabeça e concordar com tudo - ou com tudo que está em voga (como, neste momento, este texto - a quem lê), ser brasileiro não é uma coisa tão ruim. A maior preocupação é malhar, ou comprar um eletrodoméstico em cinco vezes sem juros, ou assistir futebol, ou pagar uma ou outra conta. Em geral, não é muita coisa. Mas o que seria, afinal? Vida mansa, apesar de difícil.

Mas difícil mesmo é não ser quem se é. Não pro dissimulado, claro, mas pra quem convive. Em contrapartida, também não me importo. Não mais, pois a falsidade já tomou conta de meus olhos e os obrigaram a se acostumar com sua presença corriqueira. De qualquer forma, um poema não pode ser falso. Fernando Pessoa disse que o poeta era um fingidor. Mentiu ao dizer isso, ou se autorretratou numa generalização descabida. Falacioso... prestígio não é estar certo. Entre outros poetas que esbanjam talento, mas odeiam seus dotes literários - apesar de não ser grandioso - me encaixo no quesito "criatividade", já que digredi até agora sem que perdessem o fio da meada. E se perderam o fio, em algum momento o recuperaram.

Voltando à solidão, sou como um poema

                                                         c o n c r e t o

                                                                     deixando espaços solitários em mim mesmo para que seja algo no todo.

                               

                                 E não são mais necessárias palavras para prolongar este escrito.

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