quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Clímax

Um garoto sem nome (pois não se chamava) passeava em suas livrarias preferidas com seus fones de ouvido. Assim, não era incomodado pelos ruídos que faziam outras pessoas e coisas a sua volta. Divertia-se nas seções romântica e simbolista com seus grandes mestres: Byron e Rimbaud, e cuidadosamente sentava-se no carpete colorido para ler alguma poesia que o atraísse. De Bocage a Poe; de Goethe a Neruda ; de Stravinsky a Tchaikovsky; de Led Zeppelin a Nirvana, sua mente vagava em si mesma à espera da inspiração que se escondia em suas diversas portas e corredores vazios, pois o garoto era sozinho, afinal... seus amigos escassos e dispersos, bem como ele próprio.

Certa vez, num encontro de sua classe, na casa de um de seus colegas, ficou fazendo uma resenha para um livro qualquer de Nietzsche, deitado no sofá da sala, enquanto todos se divertiam comendo churrasco e jogando futebol, no quintal. Era um rapaz raro, sem dúvida - como seus ídolos e influências, porém, não se preocupava quando o repreendiam, ou quando o zombavam por ser quem e como era. Apenas era e isso já bastava para ele, porque não precisava se preocupar com o que pensavam a respeito de sua identidade, pois já era abstratamente concreta a imagem que criou de si para si mesmo.

Ainda assim, as portas que acenavam em sua mente, para o garoto, estavam, em sua maioria, trancadas e jamais seriam encontradas, pois nenhum "eu" é capaz de conhecer-se inteiramente. Apesar disso, é improvável que venha a desistir de tentar encontrar-se em alguma de suas esquinas mentais. Por isso há sofrimento. Se não fosse por isso, conheceríamos a nós mesmos e saberíamos como lidar com nossos problemas e soluções; com nosso ego e nosso pesar.

Isso tudo se passava na livraria, enquanto o menino refletia sobre si mesmo, ouvindo algum concerto melancólico de algum compositor contemporâneo ou pós-romântico, remoendo pensamentos distantes que, conectados, o levariam a uma possível descoberta inovadora sobre a filosofia do "eu" - ou então, ao mero nada que o consumia internamente havia algum tempo.

E sempre andava com um caderno para fazer anotações. Era um poeta, apesar de não fazer poemas. Observava tudo com olhos atentos e perceptivos... abraçando todos os detalhes através do cristalino - o que poucos sabem ou querem fazer. E depois, refletia acerca dos assuntos que mais o interessavam.

Mas, conforme pensava, maior sua angústia se tornava... e, cada vez mais hesitante, desfalecia superficialmente, sem se dar conta.

Como um poema específico, o garoto-verso também acabava em si mesmo no clímax de sua existência.

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