domingo, 6 de outubro de 2013

Mote

I

não pertenço ao corpo que aqui desfalece
e se enterra - como fazem poetas
mórbidos e desesperançosos.

nem mesmo tenho versos.
e o que são? apenas linhas após linhas, soltas?
linhas de palavras com variadas figuras de linguagem
e de variada linguagem e assuntos?

versos são a prosa poética e a prosa da poesia.

não pertenço a isso.

II

olhe as casas através de sua janela.
podem ser pequenas ou grandes;
próximas ou distantes...
de pessoas ou não.

sempre há alguma casa.
sempre destruímo-nas
com nosso olhar
- humano demais
para apenas contemplar.

III

não sou poeta das palavras,
sou poeta da visão.

escrevo por acaso
ou por escrever...

por isso produzo.

sou a terceira revolução industrial...
numa jovem cabeça voltada à Arte.

IV

o que fazem as pessoas?
quem são elas?

V

não preciso ser reverente,
apenas educado.
ser reverente é ter olhos inferiores.
ser educado é tratar dignamente
o indigno - homem.

VI

não respeitam a Arte.
não é apenas exorcizar demônios;
não é fazer dinheiro;
não é embelezar a vida;
não é arte, apenas.

é a alma de alguém em uma ação.

VII

olhe através da janela.
o que você vê agora?

VIII

existia um garoto
chamado Sem Nome
e só se chamava assim
porque não se chamou
antes e depois
de ter sido chamado
por quem não merecia nome...

existia um garoto
que não sabia sentir
e só sabia o que era real.
ele não amava, não sorria,
não se entristecia ou enraivecia-se.
somente era.
somente estava ali.

existia um garoto
chamado Sem Nome
e só se chamava assim
por ter sede e fome
de chamar-se assim:
nominalmente Sem Nome.

mas, se se chamasse,
seria ele nomeado?
e o que mudaria?
continuaria sendo
sem nome, apesar do nome.

IX

não me considero um bom escritor
por escrever o que as mentes ainda não compreendem.

ainda não sei se meu ego influi em minha escrita
ou se a incompreensão dita o que a si confunde.

foda-se a sociedade atrasada.

X

não pertenço a este corpo de poeta
que só vê a destruição, com estes olhos
poéticos e verdadeiros.

o que vejo ainda não sei...
não sei o que produzo
e o que quero produzir.

torno-me irreverentemente
sociável e desassocio
da poesia que transcrevo
mentalmente em versos.

o garoto sou eu...
a poesia sou eu.

jamais serei Estado,
por ser profundo e válido...

jamais serei lembrado por ser homem.

jamais serei por tentar ser alguém...

apenas deixo a Arte me guiar
e aguardo ansiosamente
o futuro incerto
que um dia haverá de se apagar.

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