segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Percepção II

Percebo tudo - desde o pequeno orvalho que escorre dos olhos, maduros,
até os carros que mugem e encalham-se em solidão e agonia.
Percebo a fauna em detrimento aos cansados homens
e aos homens que já não somos.

Percebo tudo sem ser percebido por conta da timidez
que eu mesmo atribuí a mim sem intenção e por, somente, medo.
Percebo tudo em mim, mas não compreendo
e sofro, corro e tento fugir deste corpo impaciente, mas não consigo.

Percebo tudo - das noites pintadas com graxa fosca e alaranjada
à sofreguidão das estrelas impassíveis e deveras solitárias.
Percebo a noite, mas não a sinto e, se sentisse, talvez
não soubesse diferenciar nossos cantos, separados.

Percebo o mundo sem ser visto e percebo a gente
sem ser homem. Percebo tudo aos olhos de uma criança
e sofro como um velho homem entrando na putrefata
zona de agonização.

Meus olhos são tudo, mas nem tudo são meus olhos.



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