quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Reflexão #Y

o céu de anil no chão,
as nuvens dispersas evolando por aí
nas cabeças desunidas das pessoas desesperadas.
a senhora de ombreiras, o saco de pão
e as migalhas que voam sem ser vistas.
as caixas onde vivemos e guardamos nossas tralhas.
o sentimento desmotivado e ignorante.

somos humanos.

as grades dedilhadas pelo menino só.
a caminhada sem fronteiras do atleta manco.
o Bardo em todas as prateleiras sem ser lido.
a saudade da saudade da saudade.

a música das entranhas do poeta mal-amado.
as vozes caladas na escuridão branca.
os sonhos quebrados e o nada nas esquinas.

o amor jaz entre nós.

o céu de anil no chão,
o dia sendo noite e a noite sendo o fim.
poemas jogados pela cozinha em perfeita simetria.
ABAB ABAB CDC DCD

os guardanapos rasgados com palavras ocultas.
os talheres sujos nos pratos límpidos.
a mulher das ombreiras, o saco de frutas
e os cachos de seus cabelos esvoaçantes.

somos humanos.

o velho mestre do reino asteca envia-me poemas,
mas não há como responder à altura.
não sou tão humano e não sinto tanto...
somente a tristeza das vielas negras,
o som do mar e a luz do sol noturno,
a perfeição da mulher amada,
a voz que se fecha e a boca que se cala.

um dia tirarei um dia para escrever
e apenas escrever em vão
como se todas as palavras sumissem
conforme fosse proliferando sua tinta incolor.

um dia escreverei sobre a garota das ombreiras
e o saco de bonecas na outra mão de sua mãe.
estas de mãos dadas, caminhando ao além e ao nada
sem deixar rastro e apenas saudade.

saudade de tempos remotos.
saudade de minhas fantasias de garoto.
dedilhava paredes e as descascava com unhas roídas.
imaginava um paraíso só meu e sonhava amar o amor que já não há.

um dia terminarei um poema sem fim.
e escreverei sobre o que nunca pensei.
somos humanos, mas nem tanto.

o garoto que furta brinquedos.
o jovem que abate carteiras.
o homem que estupra garotas
o senhor que morre sem caixão.

as calçadas imundas de ruas de paralelepípedo.
os tênis e cadarços amarrados na fiação.
um poema chato, sem sentimento.
um poeta nato e livre da depressão.

a leitura desatenta em novos parágrafos.
a má interpretação e confusão escrita.
o desinteresse e pressa.
a falta de tino e futuro arrependimento.

poderíamos ter vivido melhor.
somos humanos. somos errados.
somos secretários do ódio
e repudiamos o amor que já desfalece.

a falta de tempo e relógios quebradiços.
a correria destoante e desbotante.
palavras despalavradas.

a garota do fim do mundo chama meu nome.
não sei o que dizer, a timidez me consome.
talvez seja um novo começo.

ainda não sabemos viver.

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