terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Ébrio

ondas arrastadas em refluxo
carregam consigo rotos navios
encarregados de levar em si
a perdição do mundo.

e por aí fora, da popa à proa,
escondem-se as orgias de reis
em cabarés entreabertos e irrisíveis
por estarem ocultos em sombras de ilusão.

estendem suas pernas em pequenas mesas circulares
e fumam seus cigarros, e bebem seus licores
incolores como seus sangues desbotados,

e chamam suas mulheres por nomes baixos
e debaixo das cadeiras atiram notas de divindade
àquelas que os adoram - e em seus seios enormes
um beijo ou dois para lhes agradar são depositados.

ondas arrastadas em refluxo
carregam consigo rotos navios
e rotas pessoas encarregadas
de fazer o mal ao mundo.

descompromissados estendem suas mãos e cerram as portas
para que o barco ébrio seja envolto por mais e mais alucinações.
não me atrevo a frequentá-lo, apesar de tê-lo muito acessível
quando está em mar aberto, daqui distante, ou aqui perto, ancorado e egoísta

enquanto um ou outro cruza seus mistérios em nuvens de ansiedade e quentura,
submetendo-se a tudo que lhe for apresentado - sem qualquer restrição,
sem tino, sem fidelidade e sem a lembrança dos que ficaram nos portos
chorando e gritando enquanto viam sua agoniante partida.

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