domingo, 25 de maio de 2014

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I

Sobe a cortina num bar vazio, repleto de cadeiras espalhadas por todo o salão, próximas ao balcão, mas distantes o suficiente para ocupar mesas esparsas. Dois homens entram em cena, Bertolt e Woody. O primeiro, sempre contido e franzino; o segundo, irônico e fracassado. Discutem acontecimentos recentes em suas vidas enquanto bebem dois copos de uísque:

Woody - Como foi sua primeira vez?

Bertolt - Estávamos acompanhados de um amigo. 

Woody - E ele viu tudo?! (pergunta assustado)

Bertolt - Viu.

Woody - Participou? (interessado)

Bertolt - Sim. Mas por pouco tempo. Logo desistiu e foi para casa.

Woody - Lembro-me de minha primeira vez. Foi um mar de cravos. Estranho. Nada convencional. Tampouco bom. Somente me trouxe pesadelos... e foi por isso que demorei a tentar novamente.

Bertolt - Com quem você fez? (desinteressado)

Woody - Sozinho... oras, com quem mais?!

Bertolt - Não sei... poderia ser com qualquer uma.

Woody - Não sou do tipo que faz com qualquer uma.

Bertolt - Hum... não foi você que fez até com a garçonete do Silver's? (alfinetando-o)

Woody - Não, não me acuse!

Bertolt - Mas você fez!

Woody - Não me acuse de nada. Ela é boa moça. Estudada e inteligentíssima. Só está lá para ganhar uma grana durante as férias. E eu, eu não tenho culpa de nada.

Bertolt - Nessas horas a criatividade é que é levada em conta. Inteligência e estudos são apenas acessórios, um extra, algo a mais.

Woody - (evasivo e melancólico) Nos meus tempos de poeta, tudo era uma maravilha. Ninguém me acusava de nada, ninguém duvidava de minha palavra! Lembro-me quando escrevi Digressão: "talvez seja apenas alguém sonhando/ em abster-se de sua própria solidão". E ainda sonho... mas assim não dá. Não posso sair de minha condição de sozinho dessa forma. Não posso ser acusado sem ter feito algo.

Bertolt - Você fez! (irritado com a melodramática do amigo)

Woody - Não fiz! (grita)

Bertolt - Fez sim! Todos estão comentando pela cidade. 

Woody - Estão?!

Bertolt - Sim, oras...

Woody -  Err... ok, foi só uma vez. Bem rápida. Fiz com a garçonete uma vez. Uma mistura de poucas palavras e muitos beijos!

Bertolt - Eu sabia!

Woody - Mas não saia comentando por aí, por favor. Odeio boatos e fofocas.

Bertolt - Como odeia? Não era você quem falava da vida de Edgar? Só porque ele vive bêbado e jogado pelos cantos você não tem direito de falar de sua forma de agir.

Woody - Edgar é um ébrio, boêmio e perdido. Já desisti de falar de sua vida, pois desisti do próprio!

Bertolt - Ele era poeta também, não? 

Woody - Sim. Morreu afogado nas palavras que nunca disse.

Bertolt - Como assim? Não era ele o maior da cidade?

Woody - Maior era eu. Mas perdi o foco, os temas me vinham muito comuns e as palavras a mim se tornaram repetidas, apesar de toda a leitura e dedicação que atribuí a minha obra.

Bertolt - Sei... mas e Edgar?

Woody - Queria dizer o que sua mente pensava, não o que suas palavras lhe permitiam. Aí enlouqueceu.

Bertolt - Entendo... uma pena. Gostava do cidadão.

Woody - Do cidadão, é?

Bertolt - Deixe-me em paz. Falemos de suas aventuras com a garçonete do Silver's. Ela é muito bonita, não? 

Woody - Sim. E daí?

Bertolt - Bom, a maioria das pessoas vai ao Silver's por causa dela. É a maior atração do bairro. Se você quer ver um espetáculo de garota, vá àquela lanchonete. 

Woody - Sou um cara de sorte, então, embora só tenhamos feito uma vez e nunca mais termos nos falado.

Bertolt - E por que não?

Woody - Não sei... 

Bertolt - Entendo.

Woody - "Meus olhos, devorados pela cólera,/ caminham pela sombra de tua alma/ e desejam que um dia possam chamar-te/ de minha, de nossa, de mulher, de amor". 

Bertolt - O que?

Woody - Foi o que eu disse a ela depois de nossa primeira vez. 

Bertolt - Mas... foi só um poema.

Woody - Foi O poema. E eu demorei muito tempo para fazê-lo.

Bertolt - Não... quis dizer que vocês só fizeram um poema juntos. Um simples poema. Talvez um Haicai  -ou algo do tipo...

Woody - Eu sei, mas não desmereça minha primeira vez escrevendo com alguém.

Bertolt - (debochando) Primeira vez... como vocês se conheceram? O que se sucedeu daí?

Woody - Nos conhecemos no campus da faculdade. Ela estudava Letras e eu ia palestrar naquele pequeno auditório (que tenta copiar O Ateneu). Eu estava entrando e ela saindo. Acho que organizava alguma coisa lá dentro. Enfim, fato é que ela se interessava por mim e por minha tão famosa e renomada obra, até então. E queria saber mais sobre o poeta das coisas mortas e tristes. Eu disse a ela que poderíamos nos encontrar depois da palestra para conversarmos e produzirmos algo juntos, se ela quisesse. Como romântico poeta, logo me interessei pela bonita garota, e disse a ela que escrevesse alguns versos esparsos. Ela escreveu: "meu amor, o céu de sua alma/ permite que vá sem ir sangrento,/ após ferido pelo ódio e dúvidas em minha mente". E, então, me apaixonei por ela. Escrevemos DOIS poemas juntos... sim, dois Haicais... e demos alguns beijos. Depois disso, nunca mais a vi.

Bertolt - Interessante. 

Woody - Daria para escrever um romance, se eu não fosse um enrolado que se faz de escritor.

Bertolt - Enrolado... você é só um poetinha de segunda. Um best-seller, pois fala de amor com qualidade acima da média.

Woody - Pensei que você fosse meu amigo!

Bertolt - Críticas nem sempre são malignas.

Woody - Isso não foi uma crítica, mas uma constatação. Beba seu uísque, pois o gelo já está derretendo.

Bertolt - Não quero mais beber. Preciso ir embora. Uma garota me espera.

Woody - Uma garota?! Quem é?

Bertolt - Não posso dizer. Mas digo que vamos escrever juntos.

Woody - Agora você é escritor?

Bertolt - Qualquer um pode escrever desde que tenha cabeça.

Woody - Isso não está me cheirando bem... Quem é a garota?

Bertolt - A tal do Silver's, obviamente... disse que era seu amigo e ela logo se interessou. Talvez consiga um beijo, ou um soneto. Ou algo a mais. (sorrindo)

Woody - Cretino! (avança sobre Bertolt)

Bertolt - (defendendo-se) Ei, ei! Ela não é sua. Vocês só se beijaram e escreveram poemas juntos. Nada mais além disso. Eu a conquistei enquanto tomava um refrigerante na lanchonete... romântico, não? (sorrindo)

Woody - Mais fácil que ler Hans Andersen...

Bertolt - Sim, mas e daí? Tenho um encontro. Não perpetue suas mágoas e lamentações... A vida é muito curta para poetas da tristeza.

Woody - É verdade. Devo ir embora agora também. (cabisbaixo)

Bertolt - Não fique triste. Sempre haverá outras garotas. 

Woody - E sempre haverá um "amigo" para roubá-las.

Bertolt -Err... sim... quero dizer. Não!

Woody - Boa noite, meu caro. 

Bertolt - Boa noite.

Bertolt sai de cena

Woody - (desolado, canta seus poemas de solidão) 
Sou o poeta variante, o poeta que oscila...
sou como uma ave que plana em sua imaginação,
sou o poeta acompanhado, perdido na solidão,
sou como um repleto trem que descarrila.

a solidão que me cerca acerca de todos os mistérios em minha mente
é o poço que preencho com minhas boas memórias de um passado distante
que nem mesmo veio... nem mesmo o vivi... nem mesmo o explorei, mas
ainda assim, sinto saudade!

II

No dia seguinte, os amigos se encontram num ponto de ônibus. Sentam-se e somem. A trama agora se passa sem personagens, devido à falta de orçamento para a peça. 

Primeira Voz - Olá. Ontem fiquei curioso... Como foi sua primeira vez?

Segunda Voz - Foi normal. Como a primeira vez de qualquer um.

Primeira Voz - Como você pode saber como é a primeira vez de todo mundo?

Segunda Voz - Li num livro de Gunnar.

Primeira Voz - Quem é Gunnar? E o que dizia?

Segunda Voz - Não o conheço... também não sei o que dizia. Era algo sobre guerras e batalhas amorosas em meio às escritas de poetas baldios e ociosos.

Primeira Voz - Como assim?

Segunda Voz - Posso emprestar-lhe o livro, se lhe interessa tanto.

Primeira Voz - Não quero, obrigado. Sabe de uma coisa? Estou com saudades da garota do Silver's.

Segunda Voz - Coitado... agora ela é minha, esqueceu?

Primeira Voz - Não é isso... estou com dificuldades para escrever sozinho. Preciso de tempo para ler e refletir. Há muito não consigo escrever algo decente. Minha autoestima está no buraco, e todos os rascunhos que escrevo nunca estão de acordo com a expectativa.

Segunda Voz - Você precisa de um terapeuta urgentemente!

Primeira Voz - Só preciso de tempo... as coisas não se acertaram desde que ela foi embora. E agora está com você... e eu aqui, sozinho.

Segunda Voz - Oras, se é de tempo que precisa, talvez a meditação ajude. Leia Bhagavad Gita. A Canção de Deus pode auxiliá-lo nesse período difícil.

Primeira Voz - Sou ateu, esqueceu?

Segunda Voz - Você poderia aprender muito sobre a vida se fosse menos arrogante.

Primeira Voz - Não é arrogância, é morte. Estou morto, esqueceu? Um morto-vivo!


III

As duas vozes se dispersam e a primeira continua sozinha - a caminho do bar.

Primeira Voz - (no caminho para o bar) Acho que me comportei em vida. Quisera eu que Deus me acolhesse e viesse me encontrar, e que Ele existisse em meus sonhos, ou neste pós-vida agora presente, para que, mesmo depois de morto, tivesse histórias para contar...  Este caminho tortuoso é muito solitário. Gostava de quando éramos dois, pois um fazia companhia ao outro. Solilóquios são tediosos e tristes... lembro-me de meus tempos de poeta, quando cantei canções, acompanhado... lembro-me de minha primeira vez, com a garota do Silver's, que agora foge com outros escritores. Lembro-me dos tempos em que tudo era bom e funcionava perfeitamente, como se nada um dia viesse a dar errado. Lembro-me de mim mesmo e de como meus eus foram companheiros aparte de suas diferenças. Agora sou um caos ensimesmado! Repleto de enigmas que não compreendo e vazio por dentro. Sou vazio. Vivo de memórias do passado. Vivo pensando em reviver aquilo de novo. E nada me resta, senão três coisas: encontrar meu amigo no bar, beber até não poder mais, e entregar-me ao Sono Eterno!

IV


De volta ao bar, as duas vozes se dissolvem em Bertolt e Woody. Pelo visto, um empréstimo bancário foi feito... 

Woody - (sozinho) Onde estará Bertolt? Já era para ele ter chegado...

Bertolt - (colocando a cabeça para dentro do bar) Antes que eu me esqueça, saiba que você é um querido, e que minha vida seria completamente diferente sem você...

Woody - Obrigado pelas palavras, meu caro. Saiba que você também é querido por mim. 

Bertolt - Eu sei disso.

Woody - Como pode saber? E por que isso de repente?

Bertolt - Andei lendo a biografia de Neruda.

Woody - E o que eu tenho a ver com ele?!

Bertolt - Não sei. Só sei que é assim.

Woody - Você e seus enigmas...

Bertolt - Vindo para cá realizei um sonho! Conheci um musicista famoso!

Woody - Hoje me dei conta de que tenho um sonho. Quero atuar! Quem é o musicista famoso?

Bertolt - Byron, o trompetista! Ele me deu dicas de como conquistar uma garota. Disse que vive num beco ao lado do Silver's, e que, apesar de ser mendigo, nos tempos de glória saía com a famosa garota que trabalha lá. Você quer ser ator, é? Talvez coadjuvante em uma peça de pequena expressão?

Woody - Essa garota é mais rodada que catraca de metrô! Sim! Adoraria interpretar. Como é difícil entender a mim mesmo... e como falar comigo mesmo já se tornou um hábito detestável... acho que poderia tentar me compreender sendo outra pessoa, olhando por fora. O que acha?

Bertolt - Não acho.

Woody - Você tem que ter uma opinião.

Bertolt - Não tenho.

Woody - Então vá embora... já está ficando tarde e sua companhia está começando a me dar nos nervos.

Bertolt - Você vai continuar aí?

Woody - Vou.

Bertolt - O.K., depois nos falamos. Até a próxima. Vou me encontrar com a garota do Silver's.

Woody - Hasta! (irritado)

Bertolt sai de cena.

Woody - Como é triste a vida de um poeta maldito e ocioso! Sem amores, sem poesia... sem trabalhos concluídos, e aqui, só, com a miséria da vida! A morte, a mim tão presente/ relutante, implora que eu não a leve comigo/ mas não há o que fazer, se estou doente,/ pois, sozinho, só tenho esse amigo!

Woody dá alguns goles em seu copo de uísque, ainda repleto, e escuta um grande estrondo. Ao sair do bar, assustado, percebe que seu amigo, Bertolt, foi atropelado por um caminhão. Neste encontra-se a placa: "foi Deus que me deu".

V

No Silver's.

Garota - Quero um homem que me faça feliz... Procurei por toda parte e não encontro. Bertolt é bom moço, mas é tão chato! Sem contar que seus ares intelectuais me fazem sentir pena de mim mesma - uma coitada garçonete, inteligente, é verdade, mas não culta o suficiente para compreender uma frase sequer que ele diz. Ainda não achei um homem ideal...

Chefe - Entendo seu sentimento, mas você poderia esperar ociosamente. Não era necessário fazer uso do seu corpo... er... se é que me entende.

Garota - Não entendo. O que você quer dizer?

Chefe - Quero dizer que ter um corpo bonito não significa ter que usá-lo a todo momento.

Garota - Mas o corpo é meu!

Chefe - Eu sei, mas a imagem que você passa para as pessoas também... e, apesar de ganharmos mais clientes por sua causa, não quero saber de você se esgueirando com alguns canalhas por aí.

Garota - Eu ganho um bom dinheiro com isso.

Chefe - (chocado) Como assim?!

Garota - Por exemplo: Bertolt me pagou uma boa quantia para parar de sair com Woody. Este sim era um grande homem, mas suas mágoas e lamentações nos afastaram. Nos encontramos no campus da faculdade. Já lhe contei nossa história?

Chefe - (ainda chocado) Não...

Garota - Ele era um famoso poeta, até se meter na vida de Edgar. Edgar era poeta também, mas mais renomado e influente. Woody se enfezou e atacou Edgar, que, por sua vez, prometeu acabar com a carreira do primeiro. Desde então não escreveu um poema de sucesso - não se sabe o porquê. Enfim, nos encontramos na faculdade, ele estava lá palestrando sobre a obra de Byron Hyde, o trompetista. Depois de seu discurso, nos encontramos e eu sugeri que escrevêssemos juntos. Ele topou. Foi aí que começou nosso romance. Por outro lado, agora me dei conta... Bertolt paga melhor.

Chefe - Você está se prostituindo?!

Garota - De que adianta ter bunda se não for para usá-la?

Chefe - Você está demitida!

  VI

Voltando à cena do atropelamento, Woody, ainda estupefato, chora a morte de Bertolt. A garota do Silver's, aflita pela perda do emprego, os encontra na viela onde o bar é localizado e desata a chorar também. Woody recita seu poema:

Woody - Sei o pulso dos versos -/ os versos de minha poesia./ não os que canto/ em amor,/ em atros bueiros,/ que põem meu caminhar em alta agonia,/ mas os que um dia me arrancaram do pulsar da treva./ sei o pulso das palavras que se esvaem,/ caindo como pétalas de outono/ sobre seu tortuoso e delicado corpo.

VII

De volta ao bar, após o recolhimento do corpo de Bertolt, Woody ainda chora a morte de seu amigo, num outro solilóquio revelador:

Woody - Nunca demonstrei profundidade. Tampouco disse que era raso ou breve, que era atraso ou leve. Nunca demonstrei minha lealdade. Nunca, de fato, morrerei. Serei eterno, jamais recluso. Nunca, de verdade, obtuso... nunca, de fato, a amei. Nunca proferi palavras benignas, nunca fiz o bem. Nunca medi as consequências de minha mente maligna, ocultada por máscaras e gestos, também. Nunca esvai meus sonhos e medos, mas os ocultei em enigmas e segredos que só eu poderia entender. E, se sou eu mesmo, sou quem sou: difícil, mas não impossível de se compreender. Nunca demonstrei profundidade, nunca me livrei de minha nefasta imaginação. Nunca concretizei minhas vaidades, nunca parti do princípio de Criação. Nunca senti falta de mim mesmo, mas caminhei sozinho, a esmo, buscando fundamentos e orientação. Nunca fui quem aparento ser... e muitos dirão que sou o que desejo, mas que não poderia - eu - não ser. Nunca me conheci. Muito menos os outros. Poucos os que sabem algo sobre mim. Poucos sabem o que me divertiu e porque sofri. Muitos deduzem que seja um mar de rosas... um tremendo jardim. Mas nunca disse quem era. Sempre preferi o silêncio. Se sou quem sou, não sou por mim. E, se sou quem sou, não sou porque quis. E agora?! O que farei sem meu amigo? Mais uma vez fui traído pela unidade. Um sem outro é apenas um, já diria o filósofo que ninguém conhece. Preciso agir... sempre fui apaixonado por Bertolt! Usei aquela garota para despistá-lo, mas, agora que se foi, preciso revelar ao mundo meu amor! Preciso honrar sua morte e meu sentimento por ele! Mas como? Já não escrevo há muito tempo, e as palavras soam repetidas em mim. Talvez se... não... e se... não... já sei! Vou falar com a tal garota! Mas preciso de tempo. A coitada ainda está em choque. 

VIII

Entra a garota.

Garota - O que você está fazendo aí? Estão todos lhe procurando!

Woody - Estou lamentando minhas mágoas.

Garota - (Chorando) Todos estamos. Mas não devemos mais lamentar... Bertolt não gostaria de nos ver nesse estado. 

Woody - De fato, Bertolt pouco se importava. Estava sempre ligado em outras coisas, desinteressado em nossas agonias.

Garota - Você precisa de um terapeuta!

Woody - Já ouvi isso!

Garota - Bom, talvez precise mesmo, não acha?

Woody - Eu não acho nada! Mas me diga uma coisa: quem é melhor eu ou ele?

Garota - Em que?

Woody - Oras... em tudo!

Garota - Bertolt, é claro.

Woody - Ele te pagava melhor, não é?

Garota - É claro, meu querido (solta uma risada ensoluçada).

Woody - Logo vi...

Garota - Mas você também foi muito bom. Quero dizer, você sempre escreveu bem e sempre fez amor como nenhum outro - depois de nosso amigo, é claro.

Woody - Isso me consola. Sabe de uma coisa? Eu tenho algo a lhe contar.

Garota - Diga.

Woody - (Hesita) Andei pensando e conclui que não faz diferença se você gostou de mim ou não.

Garota - Ah, é?

Woody - Sim.

Garota - Por qual motivo?

Woody - Sempre fui apaixonado por Bertolt! Escrevi longos poemas para ele. E, apesar desse amor limitado, só eu sei quanto amei suas imperfeições e problemas enquanto entendia seus poemas não poetizados. Só eu sei que amei o quanto pude e muito mais, sem que perdesse a esperança e o amor mais verdadeiro, que ninguém amou... jamais!

Garota - (Estupefata)  Como assim você é apaixonado por ele?!

Woody - É isso mesmo. Sempre guardei isso para mim. Apesar de ter gostado de você, não posso negar o amor que tive por meu amigo.

A garota desmaia. 

IX

Woody pediu mais um copo de uísque, bebeu de uma só vez e saiu. Era noite, quase onze horas. As ruas estavam desertas, mas o Silver's continuava funcionando. Como seria muito cômodo dizer que Woody foi para lá, a trama agora se passa sem personagens e só com a linda voz do narrador: O poeta vagou por vielas escuras e vazias até chegar em sua casa. Lá, resolveu beber mais um pouco e arrumar sua cama. Sentou-se nela. Leu um poema de Maiakóvski e deitou-se. Inquieto, levantou-se e caminhou por seu quarto pouco mobiliado. Estava aflito, suando frio e com a ansiedade à flor da pele. Abriu a gaveta de seu móvel de cabeceira e retirou um revólver. Sabia que aquela era sua hora. Sabia que aquele era o momento de acabar com todo o sofrimento. Sabia que, assim, fugiria de todos os seus problemas e lamentações e que encontraria o amor de sua vida num pós-vida agora próximo. Apertou o gatilho. E dormiu o Sono Eterno.

Desce a cortina.

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