terça-feira, 24 de junho de 2014

Frenesi

Era noite. O relógio batia dez horas. O lúgubre sentimento de agonia e excitação consumia os rostos presentes, perfilados por um comandante de meia-idade, enquanto eu, solitário e cabisbaixo, desenhava e escrevia palavras pessoais de dor e sofrimento. Cada um demonstrava o ardor que sentia em seu coração: uns urravam, outros gemiam... cada um era vítima... ou melhor, seria... da contradição que existe entre "amar o próximo" e "amor seleto". Estes pobres coitados passariam o resto de suas vidas agonizando na brasa, na chama, no fogo ardente e reluzente do grande e imponente e tortuoso e eloquente cárcere privado do comandante. E eu apenas os observava: perplexo, ambíguo, sem reação. 
Era noite. O relógio batia após uma hora de descanso. Eu já deitava em meu quarto com a mente pensando naqueles pobres coitados, que, àquela hora, já deviam ter morrido. Também estava atento às cartas e poemas que escrevia para minha amada, no sul de São Paulo. Eram textos de amor, é verdade, mas, como não poderia deixar de ser - espelhando-me em meu próprio estado mental - continham aqueles toques melancólico, pálido, putrefato e saudosista, que eram a mim característicos. Escrevia para dá-la satisfação do que estava fazendo (convenhamos, não fazia muito), e para exorcizar os demônios que tentavam me amedrontar, me torturar, me consumir. Entretanto, sabia que não os enviaria e receberia resposta tão cedo, pois me foi enviada uma carta dizendo que ela estaria ausente por alguns dias. O comandante estava de olho em meus atos. Sabia que eu escrevia freneticamente e que minhas energias já se apagavam em prol de meu trabalho epistolar. Se não tomasse cuidado, acabaria me tornando mais uma vítima de sua loucura.
Ainda à noite, o relógio batia secamente as doze horas. Mais um dia nascia em meio às frustrações, medos e angústias da vida. E eu aqui, solitário e cabisbaixo, desenhava e escrevia palavras pessoais de dor e sofrimento. O comandante me convidou para tomar chá em seu quarto, e fui ter com ele:
- Queria me ver, senhor?
- Sim, sente-se - disse o comandante -. É um assunto delicado. Excedemos o número de passageiros a bordo deste navio. Preciso de um serviço seu.
- Certo. E qual seria?
- Quero que você se desfaça da carga carcerária. 
Houve um longo período de silêncio até que assenti.
- Tem alguma carta para mim? – perguntei nervoso.
- Não. Pode ir agora.
         O cárcere, putrefato, continha pilhas de cadáveres amontoados num canto. Era um grande aposento, mas não tinha janelas. Repousava em quietude e mofo, sangue esparramado e corpos em opulência. A luz escassa não me permitia ver detalhes, todavia um caixão semiaberto era visível atrás de uma das pilhas de mortos. Aproximei-me calmamente, com passos que rangiam o assoalho. Ergui os olhos a uma altura em que pudesse enxergar o que havia lá dentro, e me deparei com a cabeça decepada de minha amada, enquanto ouvia gargalhadas do comandante atrás de mim.

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