terça-feira, 16 de setembro de 2014

Imperfeições

Envolto em lutuosas flores, seu corpo permanecia ali, ao lado do meu, jazendo com todas as minhas características. Não tinha nome, não tinha alma. Era apenas uma espectadora; apenas observava - em minúcias - a realidade que a cercava. Enquanto seus olhos moviam-se lentamente acerca de todos os detalhes, os meus, negros como a penumbra da noite em que nos encontrávamos, desfaleciam ao contemplá-la. E escorriam. E mentiam, pensando serem o centro, o alvo de todos os seus olhares.
Não. Não era bem assim. Ela estava sempre olhando os pormenores, contudo eu queria ser gigante. Ela estava sempre atenta às perfeições, todavia eu era imperfeito. Portanto, enquanto seus braços, cruzados, pareciam distantes, enquanto suas palavras deixavam de tocar meus ouvidos, calados, enquanto sua face empalidecia pela dor da distância... eu a matei. E matei para que ninguém pudesse absorver o amor que ela tinha para dar, para que meu próprio orgulho não fosse ferido, para que ninguém pudesse ter aqueles olhos para si. E, a partir de sua morte, minha loucura ascendeu. Já não respirava como antes; já não enxergava o mundo com meus próprio olhos: eram os dela. Aquelas duas orbes resplendiam a beleza, a nostalgia e a melancolia em meu próprio corpo. Recitavam versos, calavam a cidade... e eu ali, apenas observava - com a mesma atenção que ela costumava enxergar. Num dia, meses depois, sob chuva forte, fui visitar o sepulcro de minha amada. Sem nome, sem alma, ali refletia o que sempre a acompanhou: uma morte interna que se externava e levava sua carcaça à terra fria e molhada. Ali, cavei com mãos suadas, cautelosamente, - para que não fosse visto -, até alcançar seu caixão. A terra molhada facilitava o trabalho árduo, portanto eu consegui alcançá-lo. E atingi seus olhos com meus próprios punhos. Arranquei os glóbulos esmeráldicos, ainda conservados, apesar do tempo, e me alimentei deles. Assim, talvez incorporasse suas características, reavivando as minhas próprias. Então, pela última vez, fiz amor com minha amada... até que nossa morte nos separou.

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