terça-feira, 28 de outubro de 2014

Imperfeições II

                A alegria que me contagiava às vésperas de todos os meus aniversários se fazia falsa, obtusa e eloquente, e eu aguardava ansiosa e docemente aquele entusiasmo, aquela felicidade momentânea traduzida em um breve momento de atenção individual. Sim, era a minha hora. O filho pródigo ganhava um dia inteiro sob os olhares atentos de todos, todos os anos. Mas isso não era o suficiente. A angústia e agonia que me invadiam em instantes corriqueiros me transformavam num ser mórbido e doente, acalentado por lembranças tristes, pela melancolia extraída de tudo e pelos distúrbios criados por minha mente.
                Naquele ano, na comemoração, naquela data tão especial e esperada, eu, com meus dezessete anos, após longos dias de puros e solitários solilóquios, resolvi que poria fim às mágoas de minha infância: meu pai não mais bateria em mim, não sofreria mais a troça e ofensas de meus colegas de sala, não interpretaria a realidade passada como se fosse presente. Porém, para isso, precisaria por fim, também, a quem mais me maltratava e me imergia em dor e sofrimento: a vida.
                As horas se extinguiam dos relógios... a insanidade soava em meus ouvidos... planejava minha morte e já me encontrava deveras ensimesmado. O fim, enfim, estava próximo. Todavia, ainda cultivava um amor em mim. Um amor que era a forma mais sincera de autodestruição, mas que poderia se tornar uma nova ilusão, um novo pesadelo, ou um novo começo – talvez desfeito por meu breve aniquilamento.
                 Clarice era seu nome. Tinha olhos cerúleos e melenas douradas como o céu refletido num mar cristalino e o lindo olhar que a mim dirigia, respectivamente. Era doce e extrovertida... como minha infelicidade. Era poetisa e, frequentemente, escrevia para mim. Em meio às colinas tortas e avenidas de seu corpo, perdi-me inundado em sorrisos resvalados. Breve, solto e apaixonado em meus lábios, encontrei os dela, paralelos e distantes, desencontrados e perdidos, apáticos e solitários. Era o tipo de garota por quem todos se apaixonavam. Mas aquele sensível coração era meu. Ou melhor, foi meu... até que um outro garoto a conquistou. Nunca mais recebi poemas e versinhos, só a vi mais uma vez, e meu pétreo coração se encontrou desnorteado.
                Em meio à tristeza e paranoia, percebi que ela não tinha nome, não tinha alma, porquanto as sombras de seu coração a escondiam sob a sotaina de seu próprio ser. Era apenas uma espectadora; apenas observava - em minúcias - a realidade que a cercava. Enquanto seus olhos moviam-se lentamente acerca de todos os detalhes, os meus, negros como a penumbra da noite em que nos encontrávamos, desfaleciam ao contemplá-la. E escorriam. E mentiam, pensando estar no centro; o alvo de todos os seus olhares. Não. Não era bem assim. Ela estava sempre olhando os pormenores, contudo eu queria ser gigante. Ela estava sempre atenta às perfeições, todavia eu era imperfeito. Portanto, enquanto seus braços, cruzados, pareciam distantes, enquanto suas palavras deixavam de tocar meus ouvidos, calados, enquanto sua face empalidecia pela dor da distância... eu a matei. E matei para que ninguém pudesse absorver o amor que ela tinha para dar, para que meu próprio orgulho não fosse ferido, para que ninguém pudesse ter aqueles olhos para si. E, a partir de sua morte, minha loucura ascendeu. Já não respirava como antes; já não enxergava o mundo com meus tristes olhos. Eram os dela. Aquelas duas orbes resplendiam a beleza, a nostalgia e a melancolia em meu próprio corpo. Recitavam versos, calavam a cidade... e eu ali, apenas observava - com a mesma atenção que ela costumava enxergar. 
               Um dia, sob chuva forte, fui visitar o local do sepulcro de minha amada, onde enterraria, após meses ocultando aquela carcaça apodrecida na treva de meu quarto, o amor de minha vida. Escolhi meu quintal, para ter sua companhia sempre que quisesse – desenterrando ou apenas me deitando sobre o leito da garota. Sem nome, sem alma, ali refletia o que sempre me acompanhou: uma morte interna que se externava e levava sua carcaça à terra fria e molhada. Ali mesmo cavei, com mãos suadas, cautelosamente, - para que não fosse visto -, até alcançar um lugar ideal para enterrar o cadáver. A terra molhada facilitava o trabalho árduo, portanto eu consegui alcançar o lugar onde despejaria todo meu amor. Antes de repousar o corpo sobre aquele lamaçal dos diabos, atingi seus olhos com meus próprios punhos. Arranquei os glóbulos cerúleos, ainda conservados, apesar do tempo, e me alimentei deles. Assim, talvez incorporasse suas características, reavivando as minhas próprias. Então, pela última vez, fiz amor com minha amada... até que nossa morte nos separou.

                Mais uma vez frustrado, minha cabeça parecia explodir. Precisava de alívio carnal. Precisava exorcizar os demônios que ainda invadiam meu corpo. A solução não foi imediata, mas veio em pequenos cortes, que eu mesmo fiz, em minha pele. O sangue escorria lindamente, numa espécie de amor-rubro, que me satisfazia e dava prazer. 
                Jamais fui descoberto e ainda vivo esperando meus aniversários chegarem. Nenhuma garota se interessa pelo louco, mórbido e doente indivíduo que aqui escreve... nenhum presente se faz suficiente para me curar da depressão que ainda me consome. O fim permanece próximo, mas ainda não degluti os olhos de minúcias... a morte ainda é o propósito da vida.

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