sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Autoretrato

que será que és, alma querida,
sem o tino, o vinho, a uva e o amor?
és amarela, desbota-te em ti mesma
e és o canto mais doce do pobre sabiá,
que nada tem a ver com este poema.

que será que és, alma minha,
sem a melancolia, a miséria e a dúvida?
descendes da negritude das noites pintadas
em sonhos: como um Rimbaud potencializado;
um Neruda descaracterizado... uma Cecília pobre e nua.

que será que és, alma aflita,
sem as nuvens de pensamento que sobrevoam
tuas máscaras e personagens desalinhadas?
és, sem a poesia, como o rio que não toca o mar;
como o amor que não é amado...

que será que és, meu amor,
sem versos que a descrevam, sem a aparência e ilusão
criadas pelo poeta, sem, talvez, encontrar em teus desencontros
o que chamo de pulsão de vida?

fico aqui pensando...

e penso ainda...

e ainda...

e, ainda,

que será que és?

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