domingo, 28 de dezembro de 2014

Minha miséria

Minha miséria, a própria poesia, é a forma que encontrei para expor o que vejo. Meus olhos de poeta
já se encontram gastos, porém novos, ainda mal usados. Contorcida, a poesia das coisas
caminha para alcançar a luz. Mas minha luz já se encontra entrevada.

O armário semiaberto, as gavetas destrancadas, os umbrais... todos corroídos por traças. 
A tristeza, o silêncio, o ócio e o tédio, todos unidos na maior festança. E o dia lindo lá fora, com poucas nuvens, um véu anilado, os prédios, ainda estáticos, e o gorjear dos pássaros e garotos cantando músicas de Natal.

Aqui, sou docemente infeliz. As lutuosas flores de sonho, que também pensavam ao sol, que também viviam contorcidas, distorcidas e desbotadas... todas se foram. Só me restam restos e a solidão.

Como trazer as palavras de volta?

                                                                     Como trazer vida para esta casa de Usher?

Meus olhos, embaçados e sem perspectiva, só vêem a desgraça da vida. Somente escrevem, descrevem e codificam meu desejo de não existir. Quase extasiado, só quero existir no meio de minhas flores mortas. Só quero ouvir músicas tristes e quedar sozinho em meio a elas... 

Acho que é o que me preenche de vida: 

minhas flores, 
minha poesia, 
minha tristeza, 
                        meus amores.

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