quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Paradoxos: uma mente do inferno

Gosto de falar sobre minhas mágoas, porque ninguém as compreenderá. Tudo começou, no império catastrófico e nebuloso de minha mente sombria, quando resolvi bancar o herói de mim mesmo. Nesse tempo, ainda não havia saído de casa. Não havia fugido – devo ressaltar – de meus familiares e suas respectivas loucuras e manias. Aquilo tudo me deixava doido: não pertencia àquele lugar. Não era parte da mesma estirpe, e minhas raízes se faziam ocultas, a meu ver - coberto pelo véu da depressão. A partir de meu enlouquecimento, passei a tratar os outros mais rispidamente, numa secura infernal, que despertava os desertos mais áridos e desumanizados, em minha língua pérfida e esgotada. Mas, é claro, falei mais do que devia muitas vezes. E isso impediu que ficasse quieto – mesmo sendo fundamento da conversação saber calar-se – nos momentos de maior tensão e caos, em minha cabeça. Nunca fui muito de conversas... passei minha infância isolado, em meio a livros e brinquedos, que adotei como melhores amigos. Os livros, quase sempre considerados muito densos para minha idade, me fizeram envelhecer mais depressa, e isso fez com que minha mente sentisse as dores de uma infância triste e solitária.
Gosto de destacar que fui triste, mas talvez isso seja mera ilusão. O presente nunca foi difícil de lidar. O passado e as dúvidas e incertezas sobre o futuro é que formaram um longo tormento, que, depois de algum tempo, esvaiu-se de meu controle.  Quero dizer, é possível sofrer e arrancar tristeza de memórias e lembranças. Meu caso é diferente, todavia. Minha mente criou armadilhas e sentinelas para deturpar o que vivi, o que interpretei, o que pensei e, por fim, como agi. Por que gosto de destacar, então, que fui triste? Pergunte a um psicanalista.
Por um breve momento, pensei estar em declínio, porque os que, supostamente, enlouquecem são vistos com maus olhos pela sociedade. Porém, algumas pessoas ao meu redor me disseram que aquilo era uma fase, apenas. Uma fase... que merda é uma fase? Aquilo estava me consumindo, tomando controle de mim e eu não precisava de alguém para dizer que aquilo passaria. Na verdade, eu não queria que passasse. Não queria que minha liberdade fosse posta em jogo ou que meus sentimentos fossem castrados por coloridos comprimidos. Quando estava começando a ficar “curado”, eu regredia propositalmente – sempre com um impacto cada vez maior. Na primeira vez em que isso aconteceu, fui encontrado bebendo uísque com o maldito Luvox. Lá se foi uma caixa inteirinha... e eu fui levado ao hospital para fazer uma maldita lavagem estomacal. Na segunda... ah, não quero falar sobre isso. É um tanto quanto chato contar intimidades.
Houve um período em que tive amigos. Todos eles já se foram, infelizmente. Mas, nessa época, lembro-me de andar cercado – coisa que sempre detestei, porque é como estar sozinho numa multidão – e sempre no meio, como se fosse o líder do grupo. Contudo, não havia líderes, porque o grupo se diluía à medida que nos aproximávamos de outras pessoas. Ninguém queria ser visto a meu lado. Ninguém queria me ter como amigo depressivo, pois a carga negativa que eu depositava nos outros era excessiva.  A culpa nunca foi minha, a causa de todo meu sofrimento era a porra da sociedade e seus paradigmas ultrapassados. O povo saudava minhas mágoas com a mesma frequência que a merda saia de sua boca.
As digressões não atraem olhares alheios a mim, e as contradições são frutos de meus poemas mentais. Não consigo falar sem mudar de assunto. Não posso deixar de mudar de assunto... caso contrário, tudo fica muito chato, muito falso e diluído. As conversas mais ricas que tive foram quando o sujeito falava e, de repente, não estava mais falando: estava me contando uma história, uma crônica, uma narrativa qualquer com assuntos variados sobre um tema central. Não entendo o motivo pelo qual as pessoas se fascinam pela objetividade. O subjetivo é muito rico. É através dele que entramos na mente delas, entendemos os caminhos que elas fazem para chegar a uma interpretação e, a partir daí, entendemos o modo como elas agem.
Gosto de ficar sozinho. Por isso, fugi de minha realidade, adentrei os pensamentos e à insanidade imergi como afronta à sociedade concomitante aos meus defeitos. Sim, sou imperfeito. Mas a perfeição se estende sobre mim numa súplica agoniante, pedindo que eu atenda suas preces, suas malícias e impossibilidades. Portanto, cobro de mim mesmo o que não alcançarei. Ou me esforço ao máximo... até que meus limites dizem “basta”. Gosto de ficar sozinho, e, por isso, me encontro nesta casa abandonada (que é minha cabeça). O que atravessa o pântano deste cemitério de sonhos, sombrio, escuro e nebuloso é digno de pena. Para que chegar tão longe? Para que invadir meu espaço? As pessoas são muito espaçosas. Querem se expandir a todo custo. Eu não. Chego a me considerar desumano, porque só preciso de espaço dentro de mim. O resto vem com o tempo, com as conquistas e delírios.
Gosto de pensar melancolicamente. O negativismo é mera consequência. E, se afasto as pessoas por ser assim, acabo percebendo que não eram para mim. Acredito que devemos gostar dos outros pelo que eles são. Não pelo preconceito que a sociedade incute em nossas entranhas, mas pelo caráter, ações e exemplos que o indivíduo dá.  Aprecio quem se entrega aos outros, quem vive humildemente, nos confins e buracos mais escondidos do universo, porque não sei ser assim. Não sei ser caridoso, generoso ou, até mesmo, bondoso, simplesmente. Não está no meu espírito. Por aqui, o ego fala mais alto; a maldade e instabilidade impedem que eu me torne uma pessoa boa.
Gosto de imaginar o final. Não o após, pois quero somente o durante – sempre. Quero aqueles minutos silenciosos e perspicazes entre a vida e a morte... pelo menos sinto alguma coisa, mesmo que seja sofrimento. Gosto disso. Somente com causa, entretanto. Assim como o amor, que me parece deveras interessante, o sofrimento me é agradável. Vejo com bons olhos. Vejo com um sorriso estampado no rosto. Portanto, quando estou bem, estou mal e vice-versa. Como já disse, não sofro pelo presente. Não crio outra dor e não sofro novamente o que já foi sofrido.  Fato é que quase nada me atrai. Por isso, listo o que me agrada. E, neste rol de alegrias, preciso ressaltar que a tristeza faz parte do que chamo de “essencial”. Afinal, como ser alegre sem tristeza? Acho até que os mais tristes são os mais felizes, porque, quando têm um momento de felicidade, sabem mesmo que estão felizes. E eu gosto de gente feliz, mas moderadamente. Acho que só ao lado de gente assim é que completo meu complexo paradoxo. Quanto à gente negativa – é outra história – não tenho opinião, pois ainda não desconstruí isso em mim.
            Em suma, gosto das pessoas. Elas acabam me irritando, todavia. Preciso de espaço para me expandir em mim mesmo – e elas, para os seus arredores. Preciso de espaço para me compreender e para compreender os outros. Minha mente infernal, lúgubre e lôbrega, porém, já não se desenvolve, não pensa como antes. Ainda vejo o véu da depressão, ainda me entrego aos trabalhos da quietude... e ainda me vejo isolado e diferente dos demais. O que fazer? O que fazer? Acho que só me resta sentar para escrever mais um poema destinado a mim mesmo, em minha mente.

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