quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Poema de Natal

Contemporâneos anacrônicos, desumanos,
massacrados em arrastadas gargalhadas,
nus, sombrios, lúgubres e dopados de liturgia cristã.

O último dínamo acelerado pela melancolia e ansiedade da noite contrastam com o amor,
que morreu tentando alertá-los de que o poço ainda se aproxima,
ainda flutua sobre suas cabeças enquanto uma mente pensa em se opor e impor a outra.

Sozinhos. Estamos sozinhos, de fato. Porém, à tarde, que se encerra pelos trabalhos do tempo,
atraímos uns aos outros... esperando, somente, sós, o fatídico despertar da noite em nós.

Contemporâneos, anacrônicos, escutam o grito abafado em travesseiros, o choro quieto e soluçado
das crianças na guerra. Elas se escondiam aqui.
E ainda penso, ainda, em suas vozes esganiçadas, distorcidas, degoladas...
e essas lembranças corroem meu próprio dínamo acelerado, que, pela primeira vez, agora,
desacelera acerca de todos os mistérios lenitivos da psicologia humana.

Enquanto poetas resplendem versos de agonia, miseráveis, cercados de adornos e alegorias,
o restante é consumido pela cegueira.
Poetas têm olhos universais, "olhos de anjo". São "malditos mas não são cegos".
E insistem em calá-los, pois a graça da vida vem de Cima - dos Grandes.

                                                                                                   Não pertenço a essa estirpe.

Não sou filho da mesma raiz. Sou entrevado, oculto, contido... mínimo em palavras transmitidas
pela fala, porém perspicaz e astuto no olhar.

E as pessoas, ao invés de se oporem às outras - quando devem -, se negam a levantar um músculo, a acelerar seus dínamos, a erguer palavras agressivas aos que merecem.
Preferem o ócio, preferem adorar a si mesmas,
como fossem de Cima, como fossem parte de suas crenças;
- esquecem-se, todavia, que suas crenças não têm crenças, e que, se querem se libertar, precisam parar de crer no vazio, no nulo, no infinito.
Enquanto adoram a Deus (por desejo ou imposição da "Verdade"?),
enquanto veneram antigas esculturas talhadas à mão, enquanto deixam de questionar a existência de tudo a nossa volta, esquecem-se de que tudo é humano.

E o próprio homem é descrente em si!
Não ama, não cria laços afetivos e carinhosos...
deixa o interesse consumi-lo, deixa as supostas provas do que acredita guiar o que acredita.

                                                                                                    Mas deixemos crenças de lado.

A educação desfalece em ensinos impositivos. Não se ensina um ser a pensar sem que haja questionamentos, perguntas, dúvidas.
Meus melhores professores foram os piores, pois podíamos conversar à vontade com eles sobre assuntos variados e receber, em troca, uma parcela de culpa por não estarmos nos esforçando na matéria dos camaradas.

Agora, com gritos dos mendigos à porta, não percebemos o sol, que brilha uma vez a cada dia. Não percebemos que nossa realidade é, muitas vezes, mais confortável do que as outras, - a não ser que se trate de um dos Grandes -, não estamos preparados para o tempo.

Morrer ainda é difícil para os contemporâneos anacrônicos.
Não para nós, epicuristas.
Não para nós, poetas malditos.
Não para nós,
                           pérfidos em nossas mãos,

                                                            com as quais escrevemos as palavras
que dizem ser miseráveis.

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