segunda-feira, 31 de março de 2014

Composição

tanto acontece nas palavras de um poeta,
tamanha cólera serena de vozerios silenciados,
que, quando se achavam (em demasia) delimitados,
se descobriram e afloraram os caminhos da criação.

tanto acontece, mas sempre no monólogo entre si e si mesmo,
tamanhos anos se passaram sem versos de eloquência,
e não se desdobraram novos poemas em sutil sequência,
pois não se encontra alegria na realidade da inspiração.

somente se fugisse das multidões que me habitam
seria correspondido com o amor das letras de meu universo,
que, reunidas compõem meu fantástico mundo, sutil, inverso.

e somente se a solidão me abandonasse e cantasse estações taciturnas,
teria amado muito mais do que eu mesmo pude
- para escrever um poemas branco, dedicado, e perfeito, amiúde.

Inquietos

Inquietos, desconhecem a realidade
que vige em sua amplitude e em seu universalismo individualista.
Regem-se à maneira de ninguém e, ao mesmo tempo, com ouvidos absortos e absorventes
a tudo que presenciam por conta de outrem.

domingo, 30 de março de 2014

Mensagem

se dissesse que te amava, esta não seria uma canção.
seria um poema perdido em versos imersos em uma triste imperfeição
- como todos os outros que vivi eloquentemente e escrevi amargamente,
- como todos os outros que li e reli, enquanto sofria em minha mente.

se dissesse que te amava, tu não serias minha predileção.
e nós dois, ambos sofreríamos, e ambos morreríamos de intoxicação.
- veneno das palavras não ditas e escritas por um poeta triste,
- veneno das palavras não vividas e não relidas por uma língua em riste.

e as noites seguiriam em desatino enquanto me perderia em meio tom
ou na bebedeira que alicia a maldade diversa e amplificada em mim, com
a ansiedade e impulsos destoantes de um amor de uma noite qualquer.

e nem mesmo lembraria de teu nome ou tua face
enquanto o sexo e apetite dançariam o desenlace
de medidas alternativas à realidade que compõe o que malquer.


sexta-feira, 28 de março de 2014

Perfeição

Não precisamos alcançar ou buscar a perfeição.
Ela está ali. Porém, nossos olhos não enxergam
além da superfície. Veem distantemente as margens
do solilóquio internalizado que remete à fala eloquente
de nosso próprio eu para conosco, e considera erros
fragmentos de uma inconsciência visível no não ser.

Mas erramos. 

E isso não quer dizer que somos piores que nós
mesmos ou que outrem. Somos apenas diferentes e humanos.
E somos humanos - apesar de pensarmos o contrário
com nosso ego latente e transcendente ao nosso corpo.
Buscamos nos tornarmos algo além de nossa condição
humanística e mediana. Buscamos justamente a perfeição.

domingo, 23 de março de 2014

Samobójców

disformes, ocultas e tenazes são minhas memórias
entre a sucessividade de segundos de que minha mente
desfruta, e a falta de tempo que segue sendo inerente
aos prazeres e ilusões que neguei em minha história.

já não há horas para suportar minha agonia
enquanto escrevo meus últimos versos
de angústia e sofrimento imersos!
em meu eu ignorante perdido, só, na poesia.

sábado, 22 de março de 2014

Bariolagens

caminhava.

de um lado a rua de paralelepípedos, os sobradões abandonados
e as placas de vende-se por toda parte.
do outro:
grades.

enquanto caminhava,
pensava.

dedilhava as grades em bariolagens perfeitas.
uma barra vibrava, batia na outra
e o mundo ecoava em um agudo estridente.



Solilóquio

Somente a ânsia e angústia compartilho em meu solilóquio interno
e em sôfregas palavras me disperso, sozinho, num subconsciente
inconsciente e inadequado para estrofes de tamanha confusão
e ineloquência escrita - como estas, como as que me descrevem.

Em meio à torrente de meias palavras,
cóleras, descrença e melancolia se misturam
como o grito surdo do peito de um suicida
em um poeta perdido às margens de seus versos.

sexta-feira, 21 de março de 2014

A C.D.

Sinto falta de ser o que não fui,
de ver o que não vi
e de dizer o que não disse.

Sinto falta de ter sido pouco, mas tudo o que podia ser ali.

Sinto saudade
                         e somente saudade
da realidade que construímos juntos,

das risadas, dos olhares e abraços que demos...

de você. Sinto saudade de você e de tudo o que pudemos
ser juntos.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Reclusão

Na agonia dos pesadelos que tanto me consomem
percebo que o Nada é o próprio vazio do homem,
e sua solidão errante, disforme e ilusória é somente
fruto de sua cabeça mórbida, e insensata, e doente.

Desperto. E longe de tudo me concentro, desconexo,
enquanto vozes de um passado absorto e convexo
insistem em acalorar minha mente transformada
em memórias pessoais de cunho virtuoso e virtual; em nada.

E, por meu coração estar deveras irritado,
sinto que meu tempo aqui já está esgotado,
agora que fizeram de mim apenas objeto.

E, por estar farto de tudo isso - num sentimento improfundo,
sugiro a morte, ou a reclusão de mim para o mundo
antes que eu mesmo me considere dejeto.

segunda-feira, 17 de março de 2014

A A.A.D.

Busco exteriorizar o nobre pensamento,
amargo, descontente e oriundo
dos sussurros da mente, que, em um segundo,
passam da alegria a um denso descontentamento.

Tarda-me a ideia! Já não há violento
pensar das palavras na poesia de meu mundo
fantástico, e fatídico, e desesperado, e profundo,
que escrevia a todo instante, pródigo e desatento.

Então, me recordo daqueles olhos de oceano 
que eram minha inspiração - um desejo sem tino e não humano -
meu ardor e meus mais tênues sonhos palpitantes.

e me desespero, e me entrego, e caio nos abismos
do sepulcro, da necrose cerebral e de falsos silogismos
por amar um amor impossível e sufocante.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Uma torre de ébano em meio aos martírios de marfim

certa vez acreditei ter lido tal frase, mas, na verdade,
era apenas mais uma mentira inventada pela mentirosa
mente que escreve aqui neste papel amassado
e cuidadosa, e vagarosa, e morbidamente devastado
pelas sombras de minha melancolia expressa
na solidão que deveras sinto, e na sofreguidão que tanto minto.

espreitando por livros guardados em caixas
guardadas em meu quarto escuro e anuviado,
li que somos a interpretação do que somos
- mesmo que não interpretemos a interpretação.

diria que sentimos o que somos, por apenas sentir,
e não interpretar, pois isto requer muita reflexão
- e mirabolantes ideias que somente um poeta compreendido 
poderia sonhar atingir.

mas não sou um sonhador.

sou o poeta lúgubre, o poeta da tristeza.

sou uma torre de ébano em meio aos martírios de marfim
que ressoam em minha cabeça dizendo que morro lentamente.
- "e morrerás também!" diz outro, e outro, e outro...
sem que consiga proferir palavra explícita ou eloquente
em meio a tantas vozes que aqui ecoam.

e na quietude das palavras melancólicas que lia,
atribuindo psicologia e um pouco da psicanálise 
que li na escola quando era mais novo,
jazia uma mensagem enigmática e estrondosa:

somos a interpretação do que somos.
somos a sensação do que somos.
somos o que sentimos ser.
somos o que interpretamos.

é...
somos nada.

terça-feira, 11 de março de 2014

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so many words inside my eyes
and storms, and passion, and lightnings in the skies
we look above with tender love,
which Heaven (on Earth) in gaudy gestures denies.

no one knows where I'll go,
not even me, not even the people I used to walk with.
now - only loneliness, only lies;
then - past memories of my suicide life.

so many words inside my eyes:
I don't need to talk to
those people who pass me by.

so many words inside my eyes:
the Old Man makes me happy,
this is for him to know he helps me being alive.

A Cortesã

aparte de todos os desvios dissolutos, dissimulados e dúbios
que tinha a cortesã, 
seus olhos diziam o mundo,
seu corpo era uma gama de prazeres
e seu intelecto, um antro de desnecessidades.

caminhava como quem não queria nada,
manipulava, sem manipular,
e julgava-se, sem julgar,
como toda mulher da vida, como toda mulher de vaidade.

aparte de seus olhos ferinos, cheios de palavras,
seu dócil coração enganava os homens que achavam-se espertos em demasia
para uma sirigaita qualquer, exposta a olhos machistas,
e singelos, e sutis, e repletos de poesia.

caminhava sozinha por vielas e becos escuros
com uma mochila e mãos vazias,
estudava seus passos
e calculava seus bolsos - enquanto observavam-na passar, sem dizer uma palavra.

e era um prazer inenarrável encontrá-la nua,
em meus braços, por um ou dois trocados;
e era uma escuridão inimaginável...
os dias tornavam-se noites de prazeres.

e lá se ia a cortesã... 
aparte de todos os desvios dissolutos, dissimulados e dúbios
que tinha,
seus olhos diziam o mundo,
seu imaginário era dono de tantos sonhos,
e seu intelecto... um antro de desnecessidades.


sábado, 8 de março de 2014

Eidolon

É um vulto necromântico que paira no ar
a contemplar os que passam, cabisbaixos,
pelo portal que é guardado por suas sombras
e por seus próprios demônios ocultos.

Eidolon... é um eidolon - sem densidade, altura,
mesura, massa ou reflexo. é, apenas, e é apenas
a face humana num corpo vão e opaco,
num corpo gasoso e sem ruídos.

Além de seu trono, ereto, guardado por anjos caídos,
sobre as cabeças dos que se foram há muito,
em agonia, angústia, medo e aflição,

sua forma, forma-se e disforma-se em rostos conhecidos da desilusão,
sem que seja vista, sem que seja escrita ou descrita...
sendo somente mais uma assombração.

E não é neste mundo que habita,
nem mesmo neste universo ou em sua realidade,
mas nos sonhos mais tenros e verdadeiros,
mais reais e derradeiros, que jaz sua face:

aquela mesma que não está aqui, nem ali,
nem mesmo lá, cá ou em outro lugar, lugar nenhum,
ainda lugar algum, porém presente no agora,
em sua mente doente e eternamente assombrada.

Não corra! Não durma! Eidolon encontrará seus olhos
e fará com que a miséria de sua vida seja somente mais uma perdição
escrita no poema negro do poeta imprevisível.

E, se sua alma esbraveja coragem, saiba que não há como escapar de seus enigmas.
Saiba que todo ego é nosso inimigo, para bem e para o mal.
Mas, se você acha que ainda pode lutar, torço para que não seja tão ruim seu agoniante final.


sexta-feira, 7 de março de 2014

Não cruze

Ninguém pode cruzar as salas de minha mente.
Tudo bloqueado, tudo escuro e repleto de um vazio abstrato,
o qual faz alusão ao nada, ao além, e ao próprio infinito.

E chove, chove lá fora como chove aqui dentro.

E a angústia me dissolve,
e a miséria me alia, 
e minha perdição torna-se inerente a mim mesmo.

Ninguém deve cruzar as salas de minha mente...
nesta perniciosa e maldita ascensão do vão abstracionismo
e da insegurança pessoal.

Sou o poeta da tristeza.

quinta-feira, 6 de março de 2014

ócio

Chovem tristezas de meus olhos desatentos.
E pensamentos desbotam de mim
sem que eu veja suas cores despedaçando-se por aí.

Chove lá fora.
Chove um mundo de ideias e poesia.

Aqui dentro, apenas a melancolia,
apenas a angústia de ser um poeta sem palavras.

Não sei até que ponto durarei, mas perdurarei na alma de algum leitor
que se atreverá a ler meus versos e insistir no não entendimento.


terça-feira, 4 de março de 2014

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Não acontece muita coisa aqui onde estou,
e, quando há prazer na vida em que levamos,
é sempre uma risada ou outra que espanta
os males que existem no sutil e gratuito ócio.

A TV ligada em canal nenhum, a janela aberta
e a chuva chegando - neste dia nublado e saudosista.
O vento sopra, a nuvem vola... e a saudade começa a bater
como se fosse a primeira vez.

Não acontece muita coisa aqui onde estou,
e, quando não há prazer na vida em que levamos,
sempre pensamos demais, por não ter nada a fazer.

Já sou um imaginário consumido pela torrente de pensamentos.

domingo, 2 de março de 2014

Rimbaud

No anoitecer das tardes delirantes,
quando cigarros fumavam-se sozinhos
e eu despia-me em roupas flamejantes,
tracejei por minha vida inúmeros caminhos

que levavam de lugar nenhum a nenhum lugar,
que bastavam-se por em si mesmos bastar...
e eu ali, sozinho, sonhando um mundo inteiro
perdia-me em pensamentos que não me levariam a um destino altaneiro.

E não falei - e nada pensei
senão no amor que me subia à mente como a sensação que teve Rimbaud
ao desfrutar da companhia de sua mulher amada.

Mas não falei - e nada pensei
por estar perdido, por estar devastado...
sangrando sonhos em meu universo reinventado.

nem tudo

Nem todo pensamento torna-se poesia
e nem tudo pode ser versificado.
Desde a felicidade à melancolia,
somente o tangível e abstrato podem ser escritos.

Ainda não sabemos escrever a mente,
e nem todas as palavras servirão para descrever
o que se pensa ou o que se sente...

Nem tudo torna-se poesia...
tudo depende dos olhos com que se enxerga o mundo.
Dizer que tudo é...

não gosto de generalizar.




Carnaval

pessoas ébrias em meio à avenida
colorida e desbotada que permeia
mentiras e ilusões pelo povo inventadas.
pessoas ébrias e perversas, e vulgares, em meio às ruas
de minha cidade perdida, escondem-se em suas máscaras
e roupas semi-nuas, e cores, e fogos, e personalidades ainda cruas.

escondo-me em casa para não ouvir os gritos,
a obscenidade, o pão e circo de cada dia
e a folia, a rebeldia, as beldades e a agonia.
escondo-me aqui, para não fazer parte do que tanto repudio...
festa sem comemoração/ festa de uma completa ilusão.

sábado, 1 de março de 2014

Algo mais que algo

Das fiações mal trabalhadas 
às grades destruídas e por mim dedilhadas,
sozinho observei que a solidão rondava 
a cidade que a mim rodeava.

Ouvia Tchaikovsky... concertos de piano e violinos...
e a melancolia me subia à mente em neurônios finos;
da mente aos braços, dos braços à morte...
que ainda não me golpeou por ser de muita sorte.

Eu ali, solitário, abraçava em braços rasgados
o vasto mundo vazio que via com meus olhos cegos
e de cunho dramático-virtuoso.

Eu ali, abraçava minha amada sem o fazer...
pois havia muito a agonia a transformara em cinzas
e fez da ilusão minha realidade - a sofrer.