quinta-feira, 29 de maio de 2014

Morte

Sei o pulso dos versos -

                                          os versos de minha poesia.

                       não os versos que canto,
                                                                                   em amor,
           
                               em atros bueiros,
                                                                         
                                                                           que põem meu caminhar em alta agonia,

mas os que me arrancam do pulsar da treva.


às vezes inéditas, inauditas...
às vezes breves e quietas...
às vezes palavras, simples palavras...

sei o pulso das palavras que se esvaem,

                                                                      caindo como pétalas de outono,

                                 sobre meu tortuoso e delicado caixão.

Loureiros

És, como teus olhos, de províncias verdes,
de mares abertos, livres, calmos e apressados,
tristes e tormentosos, contentes e silenciosos,
perdidos em meio a uma cidade de medos.

És, como o que te ama, atormentada
por temerosas e infaustas memórias
de um passado que já se foi,
mas que segue presente em nós.

Teus olhos correm lágrimas,
que se juntam com os raios de sol
que surgem do marulhar de teus cabelos,

mas ninguém recolherá nossos corações perdidos,
um a um, um pelo outro, 
enquanto multiplicarmos a fúria de nosso amor.

Atro

nos atros buracos de meu coração,
se escondem noturnos e funestos,
e lúgubres gatunos desonestos,
que só perpetuam a dor e solidão.

estou só, apesar de acompanhado,
estou só, e jamais serei amado...
um morto-vivo, perdido em imensidão,
um pobre coitado, morto em sua vastidão.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Em lágrimas, devaneio

Em lágrimas, devaneio a respeito
de todos os meus fracassos.
E não posso continuar, a despeito
de todos meus meros sonhos escassos.

A morte, a mim tão presente,
relutante, implora que eu não a leve comigo,
mas não há o que fazer, se estou doente,
pois, sozinho, só tenho este amigo:

este poema. E meus mais dolorosos tormentos,
que jazem em mim, petrificado em pensamentos,
como um morto decadente e ambulante.

E, se insisto em viver, é para que sofra mais um pouco...
para que, assim, confirmem minha cegueira e digam que sou louco...
em minha própria mente redundante.

Amar não é suficiente

Amar não é o suficiente
aos que jamais amarão.
Sou o poeta de versos doentes,
sem amor, sem palavras, sem coração.

Insensibilidade minha e tua
correm em nossas mãos
em noites frias e nuas,
sozinhas, em vielas de solidão.

amar é pouco, já não há esperança.
somente existe a mera lembrança
de tormentos e abandono.

amar é louco, já não há semelhança
com o que existiu outrora, antes da mudança,
que faz com que eu queira o Eterno sono.

Foi da luz que saíste

foi da luz que saíste
e nasceste extravagante,
cerúlea, pétrea, 
esmeráldica e sigilosa.

da quietude te moldaram,
de ventos alegres
e traços tristes 
te fizeram,

daqui, admiro-te em silêncio
enquanto olhas para outrem,
que, por sua vez, não olha nada.

mas ainda amo-te...
ainda amo-te...
com um coração irrevogável.

Outro

Que seja a lembrança, o aroma,
as fragrâncias e perfumes de um amor
jogado em beijos, em abraços,
em quietude e segredos.

Que seja a lembrança, que reconheçam
o olhar que aqui desfalece de tanto amar,
que seja eterno este amor amiúde,
que amem mais do que podem e mais do que pude.

Talvez tenha te suposto, tenha te amado,
tenha reposto este amor flamejado
em corações alheios ao meu.

E, em meio ao fogo (que arde a chama de teu coração),
em meio a memórias (de um passado pautado na solidão),
talvez tenha te mostrado que sou teu.


segunda-feira, 26 de maio de 2014

Linguística

o silêncio ecoa nas gavetas de minha mente,
nenhum operário apareceu para o trabalho,
o café esfria com a brisa matinal
os papéis suicidam, aos poucos, a mente que os guia.

a grande prova se aproxima:
variações diafásicas, mésicas, estráticas e tópicas,
língua e fala, sincronia e diacronia, sintagma e paradigma,
signos, significado e significante, língua e cultura.

mas aqui dentro tudo é silêncio.
calaram-se os vozerios, que vasculhavam os becos,
as praças, as ruas pisadas por pessoas caladas.

calaram-se as próprias pessoas que falavam, em cafés,
lanchonetes, livrarias e bibliotecas...
tudo que me resta é dizer: f....

Plenitude

atirei-me nas brisas do incerto,
o que me faz tão bem...
mas, se sou cidadão deserto,
minha mente o fará também.

deixei livros, amante e mulher
para conseguir a plena espiritualidade,
não a atingi, não cheguei perto, sequer,
da mais pura forma de espontaneidade.

atirei-me, então, às brisas do incerto,
o que me faz um bem danado...
mas, se sou cidadão aberto,
por todos já me sinto amado.

algo específico não deixei,
não sofri com perdas e lutos,
mas, por enganos e seus frutos, 
por essa paixão e ego morrerei.


-

eu,
       à poesia,
                      só permito
       uma forma:
                       a simplicidade.
               
estou acostumado
                             com aforismos,
                  signos
                                                    e insignificados escritos,
porém,
               não dito "A",
                                              não sigo "B",
    sou escravo da liberdade.


Mote

quando, do amor, surge o desatino,
resta a mim o vozerio de um coração
entregue, pouco a pouco, com o tempo,
à garota que torna meus dias mais felizes.

domingo, 25 de maio de 2014

Manhã

as grades magras que dedilho 
permanecem estáticas
na manhã de chuva lúgubre
sem versos ou estribilho.

a fiação parece cessar
em fios, e parece acalmar
a chuva que garoa em minha 
face atenta à dispersão.

no ar, canteiros de rosas
amarelas repletas. De espinhos
e vazios é feito o homem,

de medos e segredos, 
feita sua mente, de amor, 
suas ilusões. E aqui, tudo igual.

-

I

Sobe a cortina num bar vazio, repleto de cadeiras espalhadas por todo o salão, próximas ao balcão, mas distantes o suficiente para ocupar mesas esparsas. Dois homens entram em cena, Bertolt e Woody. O primeiro, sempre contido e franzino; o segundo, irônico e fracassado. Discutem acontecimentos recentes em suas vidas enquanto bebem dois copos de uísque:

Woody - Como foi sua primeira vez?

Bertolt - Estávamos acompanhados de um amigo. 

Woody - E ele viu tudo?! (pergunta assustado)

Bertolt - Viu.

Woody - Participou? (interessado)

Bertolt - Sim. Mas por pouco tempo. Logo desistiu e foi para casa.

Woody - Lembro-me de minha primeira vez. Foi um mar de cravos. Estranho. Nada convencional. Tampouco bom. Somente me trouxe pesadelos... e foi por isso que demorei a tentar novamente.

Bertolt - Com quem você fez? (desinteressado)

Woody - Sozinho... oras, com quem mais?!

Bertolt - Não sei... poderia ser com qualquer uma.

Woody - Não sou do tipo que faz com qualquer uma.

Bertolt - Hum... não foi você que fez até com a garçonete do Silver's? (alfinetando-o)

Woody - Não, não me acuse!

Bertolt - Mas você fez!

Woody - Não me acuse de nada. Ela é boa moça. Estudada e inteligentíssima. Só está lá para ganhar uma grana durante as férias. E eu, eu não tenho culpa de nada.

Bertolt - Nessas horas a criatividade é que é levada em conta. Inteligência e estudos são apenas acessórios, um extra, algo a mais.

Woody - (evasivo e melancólico) Nos meus tempos de poeta, tudo era uma maravilha. Ninguém me acusava de nada, ninguém duvidava de minha palavra! Lembro-me quando escrevi Digressão: "talvez seja apenas alguém sonhando/ em abster-se de sua própria solidão". E ainda sonho... mas assim não dá. Não posso sair de minha condição de sozinho dessa forma. Não posso ser acusado sem ter feito algo.

Bertolt - Você fez! (irritado com a melodramática do amigo)

Woody - Não fiz! (grita)

Bertolt - Fez sim! Todos estão comentando pela cidade. 

Woody - Estão?!

Bertolt - Sim, oras...

Woody -  Err... ok, foi só uma vez. Bem rápida. Fiz com a garçonete uma vez. Uma mistura de poucas palavras e muitos beijos!

Bertolt - Eu sabia!

Woody - Mas não saia comentando por aí, por favor. Odeio boatos e fofocas.

Bertolt - Como odeia? Não era você quem falava da vida de Edgar? Só porque ele vive bêbado e jogado pelos cantos você não tem direito de falar de sua forma de agir.

Woody - Edgar é um ébrio, boêmio e perdido. Já desisti de falar de sua vida, pois desisti do próprio!

Bertolt - Ele era poeta também, não? 

Woody - Sim. Morreu afogado nas palavras que nunca disse.

Bertolt - Como assim? Não era ele o maior da cidade?

Woody - Maior era eu. Mas perdi o foco, os temas me vinham muito comuns e as palavras a mim se tornaram repetidas, apesar de toda a leitura e dedicação que atribuí a minha obra.

Bertolt - Sei... mas e Edgar?

Woody - Queria dizer o que sua mente pensava, não o que suas palavras lhe permitiam. Aí enlouqueceu.

Bertolt - Entendo... uma pena. Gostava do cidadão.

Woody - Do cidadão, é?

Bertolt - Deixe-me em paz. Falemos de suas aventuras com a garçonete do Silver's. Ela é muito bonita, não? 

Woody - Sim. E daí?

Bertolt - Bom, a maioria das pessoas vai ao Silver's por causa dela. É a maior atração do bairro. Se você quer ver um espetáculo de garota, vá àquela lanchonete. 

Woody - Sou um cara de sorte, então, embora só tenhamos feito uma vez e nunca mais termos nos falado.

Bertolt - E por que não?

Woody - Não sei... 

Bertolt - Entendo.

Woody - "Meus olhos, devorados pela cólera,/ caminham pela sombra de tua alma/ e desejam que um dia possam chamar-te/ de minha, de nossa, de mulher, de amor". 

Bertolt - O que?

Woody - Foi o que eu disse a ela depois de nossa primeira vez. 

Bertolt - Mas... foi só um poema.

Woody - Foi O poema. E eu demorei muito tempo para fazê-lo.

Bertolt - Não... quis dizer que vocês só fizeram um poema juntos. Um simples poema. Talvez um Haicai  -ou algo do tipo...

Woody - Eu sei, mas não desmereça minha primeira vez escrevendo com alguém.

Bertolt - (debochando) Primeira vez... como vocês se conheceram? O que se sucedeu daí?

Woody - Nos conhecemos no campus da faculdade. Ela estudava Letras e eu ia palestrar naquele pequeno auditório (que tenta copiar O Ateneu). Eu estava entrando e ela saindo. Acho que organizava alguma coisa lá dentro. Enfim, fato é que ela se interessava por mim e por minha tão famosa e renomada obra, até então. E queria saber mais sobre o poeta das coisas mortas e tristes. Eu disse a ela que poderíamos nos encontrar depois da palestra para conversarmos e produzirmos algo juntos, se ela quisesse. Como romântico poeta, logo me interessei pela bonita garota, e disse a ela que escrevesse alguns versos esparsos. Ela escreveu: "meu amor, o céu de sua alma/ permite que vá sem ir sangrento,/ após ferido pelo ódio e dúvidas em minha mente". E, então, me apaixonei por ela. Escrevemos DOIS poemas juntos... sim, dois Haicais... e demos alguns beijos. Depois disso, nunca mais a vi.

Bertolt - Interessante. 

Woody - Daria para escrever um romance, se eu não fosse um enrolado que se faz de escritor.

Bertolt - Enrolado... você é só um poetinha de segunda. Um best-seller, pois fala de amor com qualidade acima da média.

Woody - Pensei que você fosse meu amigo!

Bertolt - Críticas nem sempre são malignas.

Woody - Isso não foi uma crítica, mas uma constatação. Beba seu uísque, pois o gelo já está derretendo.

Bertolt - Não quero mais beber. Preciso ir embora. Uma garota me espera.

Woody - Uma garota?! Quem é?

Bertolt - Não posso dizer. Mas digo que vamos escrever juntos.

Woody - Agora você é escritor?

Bertolt - Qualquer um pode escrever desde que tenha cabeça.

Woody - Isso não está me cheirando bem... Quem é a garota?

Bertolt - A tal do Silver's, obviamente... disse que era seu amigo e ela logo se interessou. Talvez consiga um beijo, ou um soneto. Ou algo a mais. (sorrindo)

Woody - Cretino! (avança sobre Bertolt)

Bertolt - (defendendo-se) Ei, ei! Ela não é sua. Vocês só se beijaram e escreveram poemas juntos. Nada mais além disso. Eu a conquistei enquanto tomava um refrigerante na lanchonete... romântico, não? (sorrindo)

Woody - Mais fácil que ler Hans Andersen...

Bertolt - Sim, mas e daí? Tenho um encontro. Não perpetue suas mágoas e lamentações... A vida é muito curta para poetas da tristeza.

Woody - É verdade. Devo ir embora agora também. (cabisbaixo)

Bertolt - Não fique triste. Sempre haverá outras garotas. 

Woody - E sempre haverá um "amigo" para roubá-las.

Bertolt -Err... sim... quero dizer. Não!

Woody - Boa noite, meu caro. 

Bertolt - Boa noite.

Bertolt sai de cena

Woody - (desolado, canta seus poemas de solidão) 
Sou o poeta variante, o poeta que oscila...
sou como uma ave que plana em sua imaginação,
sou o poeta acompanhado, perdido na solidão,
sou como um repleto trem que descarrila.

a solidão que me cerca acerca de todos os mistérios em minha mente
é o poço que preencho com minhas boas memórias de um passado distante
que nem mesmo veio... nem mesmo o vivi... nem mesmo o explorei, mas
ainda assim, sinto saudade!

II

No dia seguinte, os amigos se encontram num ponto de ônibus. Sentam-se e somem. A trama agora se passa sem personagens, devido à falta de orçamento para a peça. 

Primeira Voz - Olá. Ontem fiquei curioso... Como foi sua primeira vez?

Segunda Voz - Foi normal. Como a primeira vez de qualquer um.

Primeira Voz - Como você pode saber como é a primeira vez de todo mundo?

Segunda Voz - Li num livro de Gunnar.

Primeira Voz - Quem é Gunnar? E o que dizia?

Segunda Voz - Não o conheço... também não sei o que dizia. Era algo sobre guerras e batalhas amorosas em meio às escritas de poetas baldios e ociosos.

Primeira Voz - Como assim?

Segunda Voz - Posso emprestar-lhe o livro, se lhe interessa tanto.

Primeira Voz - Não quero, obrigado. Sabe de uma coisa? Estou com saudades da garota do Silver's.

Segunda Voz - Coitado... agora ela é minha, esqueceu?

Primeira Voz - Não é isso... estou com dificuldades para escrever sozinho. Preciso de tempo para ler e refletir. Há muito não consigo escrever algo decente. Minha autoestima está no buraco, e todos os rascunhos que escrevo nunca estão de acordo com a expectativa.

Segunda Voz - Você precisa de um terapeuta urgentemente!

Primeira Voz - Só preciso de tempo... as coisas não se acertaram desde que ela foi embora. E agora está com você... e eu aqui, sozinho.

Segunda Voz - Oras, se é de tempo que precisa, talvez a meditação ajude. Leia Bhagavad Gita. A Canção de Deus pode auxiliá-lo nesse período difícil.

Primeira Voz - Sou ateu, esqueceu?

Segunda Voz - Você poderia aprender muito sobre a vida se fosse menos arrogante.

Primeira Voz - Não é arrogância, é morte. Estou morto, esqueceu? Um morto-vivo!


III

As duas vozes se dispersam e a primeira continua sozinha - a caminho do bar.

Primeira Voz - (no caminho para o bar) Acho que me comportei em vida. Quisera eu que Deus me acolhesse e viesse me encontrar, e que Ele existisse em meus sonhos, ou neste pós-vida agora presente, para que, mesmo depois de morto, tivesse histórias para contar...  Este caminho tortuoso é muito solitário. Gostava de quando éramos dois, pois um fazia companhia ao outro. Solilóquios são tediosos e tristes... lembro-me de meus tempos de poeta, quando cantei canções, acompanhado... lembro-me de minha primeira vez, com a garota do Silver's, que agora foge com outros escritores. Lembro-me dos tempos em que tudo era bom e funcionava perfeitamente, como se nada um dia viesse a dar errado. Lembro-me de mim mesmo e de como meus eus foram companheiros aparte de suas diferenças. Agora sou um caos ensimesmado! Repleto de enigmas que não compreendo e vazio por dentro. Sou vazio. Vivo de memórias do passado. Vivo pensando em reviver aquilo de novo. E nada me resta, senão três coisas: encontrar meu amigo no bar, beber até não poder mais, e entregar-me ao Sono Eterno!

IV


De volta ao bar, as duas vozes se dissolvem em Bertolt e Woody. Pelo visto, um empréstimo bancário foi feito... 

Woody - (sozinho) Onde estará Bertolt? Já era para ele ter chegado...

Bertolt - (colocando a cabeça para dentro do bar) Antes que eu me esqueça, saiba que você é um querido, e que minha vida seria completamente diferente sem você...

Woody - Obrigado pelas palavras, meu caro. Saiba que você também é querido por mim. 

Bertolt - Eu sei disso.

Woody - Como pode saber? E por que isso de repente?

Bertolt - Andei lendo a biografia de Neruda.

Woody - E o que eu tenho a ver com ele?!

Bertolt - Não sei. Só sei que é assim.

Woody - Você e seus enigmas...

Bertolt - Vindo para cá realizei um sonho! Conheci um musicista famoso!

Woody - Hoje me dei conta de que tenho um sonho. Quero atuar! Quem é o musicista famoso?

Bertolt - Byron, o trompetista! Ele me deu dicas de como conquistar uma garota. Disse que vive num beco ao lado do Silver's, e que, apesar de ser mendigo, nos tempos de glória saía com a famosa garota que trabalha lá. Você quer ser ator, é? Talvez coadjuvante em uma peça de pequena expressão?

Woody - Essa garota é mais rodada que catraca de metrô! Sim! Adoraria interpretar. Como é difícil entender a mim mesmo... e como falar comigo mesmo já se tornou um hábito detestável... acho que poderia tentar me compreender sendo outra pessoa, olhando por fora. O que acha?

Bertolt - Não acho.

Woody - Você tem que ter uma opinião.

Bertolt - Não tenho.

Woody - Então vá embora... já está ficando tarde e sua companhia está começando a me dar nos nervos.

Bertolt - Você vai continuar aí?

Woody - Vou.

Bertolt - O.K., depois nos falamos. Até a próxima. Vou me encontrar com a garota do Silver's.

Woody - Hasta! (irritado)

Bertolt sai de cena.

Woody - Como é triste a vida de um poeta maldito e ocioso! Sem amores, sem poesia... sem trabalhos concluídos, e aqui, só, com a miséria da vida! A morte, a mim tão presente/ relutante, implora que eu não a leve comigo/ mas não há o que fazer, se estou doente,/ pois, sozinho, só tenho esse amigo!

Woody dá alguns goles em seu copo de uísque, ainda repleto, e escuta um grande estrondo. Ao sair do bar, assustado, percebe que seu amigo, Bertolt, foi atropelado por um caminhão. Neste encontra-se a placa: "foi Deus que me deu".

V

No Silver's.

Garota - Quero um homem que me faça feliz... Procurei por toda parte e não encontro. Bertolt é bom moço, mas é tão chato! Sem contar que seus ares intelectuais me fazem sentir pena de mim mesma - uma coitada garçonete, inteligente, é verdade, mas não culta o suficiente para compreender uma frase sequer que ele diz. Ainda não achei um homem ideal...

Chefe - Entendo seu sentimento, mas você poderia esperar ociosamente. Não era necessário fazer uso do seu corpo... er... se é que me entende.

Garota - Não entendo. O que você quer dizer?

Chefe - Quero dizer que ter um corpo bonito não significa ter que usá-lo a todo momento.

Garota - Mas o corpo é meu!

Chefe - Eu sei, mas a imagem que você passa para as pessoas também... e, apesar de ganharmos mais clientes por sua causa, não quero saber de você se esgueirando com alguns canalhas por aí.

Garota - Eu ganho um bom dinheiro com isso.

Chefe - (chocado) Como assim?!

Garota - Por exemplo: Bertolt me pagou uma boa quantia para parar de sair com Woody. Este sim era um grande homem, mas suas mágoas e lamentações nos afastaram. Nos encontramos no campus da faculdade. Já lhe contei nossa história?

Chefe - (ainda chocado) Não...

Garota - Ele era um famoso poeta, até se meter na vida de Edgar. Edgar era poeta também, mas mais renomado e influente. Woody se enfezou e atacou Edgar, que, por sua vez, prometeu acabar com a carreira do primeiro. Desde então não escreveu um poema de sucesso - não se sabe o porquê. Enfim, nos encontramos na faculdade, ele estava lá palestrando sobre a obra de Byron Hyde, o trompetista. Depois de seu discurso, nos encontramos e eu sugeri que escrevêssemos juntos. Ele topou. Foi aí que começou nosso romance. Por outro lado, agora me dei conta... Bertolt paga melhor.

Chefe - Você está se prostituindo?!

Garota - De que adianta ter bunda se não for para usá-la?

Chefe - Você está demitida!

  VI

Voltando à cena do atropelamento, Woody, ainda estupefato, chora a morte de Bertolt. A garota do Silver's, aflita pela perda do emprego, os encontra na viela onde o bar é localizado e desata a chorar também. Woody recita seu poema:

Woody - Sei o pulso dos versos -/ os versos de minha poesia./ não os que canto/ em amor,/ em atros bueiros,/ que põem meu caminhar em alta agonia,/ mas os que um dia me arrancaram do pulsar da treva./ sei o pulso das palavras que se esvaem,/ caindo como pétalas de outono/ sobre seu tortuoso e delicado corpo.

VII

De volta ao bar, após o recolhimento do corpo de Bertolt, Woody ainda chora a morte de seu amigo, num outro solilóquio revelador:

Woody - Nunca demonstrei profundidade. Tampouco disse que era raso ou breve, que era atraso ou leve. Nunca demonstrei minha lealdade. Nunca, de fato, morrerei. Serei eterno, jamais recluso. Nunca, de verdade, obtuso... nunca, de fato, a amei. Nunca proferi palavras benignas, nunca fiz o bem. Nunca medi as consequências de minha mente maligna, ocultada por máscaras e gestos, também. Nunca esvai meus sonhos e medos, mas os ocultei em enigmas e segredos que só eu poderia entender. E, se sou eu mesmo, sou quem sou: difícil, mas não impossível de se compreender. Nunca demonstrei profundidade, nunca me livrei de minha nefasta imaginação. Nunca concretizei minhas vaidades, nunca parti do princípio de Criação. Nunca senti falta de mim mesmo, mas caminhei sozinho, a esmo, buscando fundamentos e orientação. Nunca fui quem aparento ser... e muitos dirão que sou o que desejo, mas que não poderia - eu - não ser. Nunca me conheci. Muito menos os outros. Poucos os que sabem algo sobre mim. Poucos sabem o que me divertiu e porque sofri. Muitos deduzem que seja um mar de rosas... um tremendo jardim. Mas nunca disse quem era. Sempre preferi o silêncio. Se sou quem sou, não sou por mim. E, se sou quem sou, não sou porque quis. E agora?! O que farei sem meu amigo? Mais uma vez fui traído pela unidade. Um sem outro é apenas um, já diria o filósofo que ninguém conhece. Preciso agir... sempre fui apaixonado por Bertolt! Usei aquela garota para despistá-lo, mas, agora que se foi, preciso revelar ao mundo meu amor! Preciso honrar sua morte e meu sentimento por ele! Mas como? Já não escrevo há muito tempo, e as palavras soam repetidas em mim. Talvez se... não... e se... não... já sei! Vou falar com a tal garota! Mas preciso de tempo. A coitada ainda está em choque. 

VIII

Entra a garota.

Garota - O que você está fazendo aí? Estão todos lhe procurando!

Woody - Estou lamentando minhas mágoas.

Garota - (Chorando) Todos estamos. Mas não devemos mais lamentar... Bertolt não gostaria de nos ver nesse estado. 

Woody - De fato, Bertolt pouco se importava. Estava sempre ligado em outras coisas, desinteressado em nossas agonias.

Garota - Você precisa de um terapeuta!

Woody - Já ouvi isso!

Garota - Bom, talvez precise mesmo, não acha?

Woody - Eu não acho nada! Mas me diga uma coisa: quem é melhor eu ou ele?

Garota - Em que?

Woody - Oras... em tudo!

Garota - Bertolt, é claro.

Woody - Ele te pagava melhor, não é?

Garota - É claro, meu querido (solta uma risada ensoluçada).

Woody - Logo vi...

Garota - Mas você também foi muito bom. Quero dizer, você sempre escreveu bem e sempre fez amor como nenhum outro - depois de nosso amigo, é claro.

Woody - Isso me consola. Sabe de uma coisa? Eu tenho algo a lhe contar.

Garota - Diga.

Woody - (Hesita) Andei pensando e conclui que não faz diferença se você gostou de mim ou não.

Garota - Ah, é?

Woody - Sim.

Garota - Por qual motivo?

Woody - Sempre fui apaixonado por Bertolt! Escrevi longos poemas para ele. E, apesar desse amor limitado, só eu sei quanto amei suas imperfeições e problemas enquanto entendia seus poemas não poetizados. Só eu sei que amei o quanto pude e muito mais, sem que perdesse a esperança e o amor mais verdadeiro, que ninguém amou... jamais!

Garota - (Estupefata)  Como assim você é apaixonado por ele?!

Woody - É isso mesmo. Sempre guardei isso para mim. Apesar de ter gostado de você, não posso negar o amor que tive por meu amigo.

A garota desmaia. 

IX

Woody pediu mais um copo de uísque, bebeu de uma só vez e saiu. Era noite, quase onze horas. As ruas estavam desertas, mas o Silver's continuava funcionando. Como seria muito cômodo dizer que Woody foi para lá, a trama agora se passa sem personagens e só com a linda voz do narrador: O poeta vagou por vielas escuras e vazias até chegar em sua casa. Lá, resolveu beber mais um pouco e arrumar sua cama. Sentou-se nela. Leu um poema de Maiakóvski e deitou-se. Inquieto, levantou-se e caminhou por seu quarto pouco mobiliado. Estava aflito, suando frio e com a ansiedade à flor da pele. Abriu a gaveta de seu móvel de cabeceira e retirou um revólver. Sabia que aquela era sua hora. Sabia que aquele era o momento de acabar com todo o sofrimento. Sabia que, assim, fugiria de todos os seus problemas e lamentações e que encontraria o amor de sua vida num pós-vida agora próximo. Apertou o gatilho. E dormiu o Sono Eterno.

Desce a cortina.

sábado, 24 de maio de 2014

Meus olhos

meus olhos, devorados pela cólera,
caminham pela sombra de tua alma
e voam aos do dia, aos do amor,
aos dos que um dia desejaram a cegueira.

tuas mãos tocam sílabas e versos,
estrofes e poemas completos, imersos,
em plenitude e vastidão,

enquanto os meus, esvoaçantes
e um tanto refratantes, diurnos
e tilintantes dançam à luz da confusão.

meus olhos, devorados pela cólera,
caminham pela sombra de tua alma
e desejam que um dia possa chamar-te
de minha, de nossa, de mulher, de amor.

desejam solitários, ainda, 
por não conhecer-te ao certo
ou até certo ponto.

e desejam ao homem em que habitam:
um pouco de tua cápsula celeste,
da esmeralda de teus próprios olhos,

dos fios de ouro que marulham e movimentam
as embarcações de minhas mãos, 
da imersão na profundeza de tua mente,
quieta e vasta, sigilosa e enigmática.

meus olhos, devorados pela cólera,
caminham pela sombra de tua alma,
e, ao fim, voam detendo-se,
esperando a hora certa de te chamar de amor.

-

meu amor, o inverno regressa
a seu anterior estado,
e inventa, e estabelece e orienta
o que a si é amarelo e amado.

antes era frio! Já não se sabe
por quem crescem as dores,
mas o vazio e ilusões que deixaram os rastros
de meus antigos amores.

meu amor, o céu de sua alma
permite que vá sem ir sangrento,
após ferido pelo ódio e dúvidas, em minha mente.

e, se é a única que me acalma,
posso dizer que a amo
após ter compreendido suas palavras ocultas e dormentes.

-

O que significa seu silêncio?
será uma forma de organizar o pensamento,
de exprimir palavras para si mesma,
de reservar-lhe o contentamento?

Tão poucas palavras para tantos poemas,
e, é claro, alguns e muitos e próprios e pessoais
acasos e, outrora, problemas.

Tão pouco tempo em tal qual momento
e, por suposto amor, qual será seu sentimento?

O que significa seu silêncio?

Voz

O silêncio das coisas inefáveis.
                                                 coisas mudas,
                                                                         surdas
                                                     
                                                 e imutáveis.


                                                                             O silêncio das coisas findas,
                             
                                                         simples

                                                                                        e invejáveis.

                                           O silêncio das coisas amadas,


                    triviais,

    ilimitáveis.




                                                          O silêncio das pessoas sem serem notadas

                                 
                                                  vistas,

                                                                                  detalhadas


              O silêncio das pessoas mistas,

                                                                   artistas,

                                 conquistas,

                                                                  caladas.



                                                                                                  O silêncio das coisas inefáveis,

                                                                         tristes,


                                                       poéticas,
                                               
                                                                                                inegáveis.


               O silêncio das coisas...


                                                                     silencia os superáveis.

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Inefável

Quando, do tormento, se atinge invioláveis
sentimentos que somente um homem só
poderia sonhar sentir, afogam-se, inefáveis
poemas em teu sangue, sem palavras para o exprimir.

Quando, do amor, se erguem o homem e suas variáveis,
quando os brilhos estranhos e incandescentes
se tornam insuportáveis, as mentes onde resido
se tornam, entre si, disléxicas e dissidentes.

Já não são perceptíveis o marulhar de teus cabelos,
a profundeza de teus olhos, teu carinho e teus zelos
em minha tão presente presença e monotonia.

E, se sou quem sou, posso dizer que não sou
ou até mesmo que nenhum homem nunca amou
já que estou aqui, perdido na treva da poesia.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Esmeráldicos

amo por amar-te, amor.
nem sempre sabendo-te
ou aproximando-me,
mas sempre por sê-lo
intensa e copiosamente,
por ti, teu mais singelo
e verdadeiro amor.

amo por amar-te,
nem sempre semeando
e disseminando palavras não ditas,
palavras e versos para ti,
versos e poemas para
os eclipses e crepúsculos
de nosso amor.

nem sempre saberemos
nossas angústias e medos,
nossas glórias e segredos,
nossos passados e futurações.

nem sempre conheceremos
nossas mazelas e desassossegos,
nossas vitórias e desenganos,
nossas alegrias e depressões.

amo por amar-te e por não amar-te, amor.
nem sempre refletidos um no outro,
nem sempre reconhecendo-nos ao som do sol
e a luz do mar esmeráldico de teus olhos.

amo por amar-te e por não amar-te, amor.
nem sempre refratados em espelhos transversais,
nem sempre curando a dor de nossos corações
com um toque no peito, um beijo no rosto, um abraço apertado.

amo por amar-te, amor.
amo a imagem que criei de ti, amo a ilusão que é amar
e amo... solitário... amo... amo com um coração acamado
a ilusão e aventura que é contigo sonhar, meu amor.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

de minhas angústias e medos regressei, amor

de minhas angústias e medos regressei, amor,
guiado por tua voz e teu contentamento
minha própria felicidade se estendeu,
interrompendo, em beijos, o inverno que a mim era inerente.

e, se deposito em ti minhas alegrias e esperanças,
saiba que em mim também estou trabalhando...
que em mim também há amor,
que não posso renunciar-te por amar-te como o faço.

e soam a serena valsa para a lua,
as cordas de teu violão,
os violinos que toco para ti,

enquanto eu sigo as águas que te levam para longe de mim,
que te distanciam de teu próprio amor,
que silenciam tua doce voz, enfim.

terça-feira, 20 de maio de 2014

O mensageiro

encontrei um mensageiro que a mim dizia:
"acorda-te, deixa-te ser quem és",
e caminhou ao perigo, sozinho, ao viés
enquanto eu, silencioso, solitário dormia.

e num dia qualquer, do mês de janeiro,
encontrei novamente o homem,
o mesmo das palavras que agora a mim somem,
o famoso e vagabundo, o solitário mensageiro.

e disse a mim, novamente, que acordasse
e deixasse que fosse quem sou...
sem que minh'alma desfalecesse ou deixasse

que caminhasse solitariamente por onde vou
ou que esquecesse de onde vim, caso sonhasse
com a amada, cuja morte a mim matou.

Vento

passam os meninos em suas bicicletas.
seus bonés esvoaçam-lhes os cabelos presos,
marulham-se os fios de cobre
e a noite sorri em um largo manto alaranjado.

carros passam sem notá-los.
seus pneus freiam o galope apressado,
não sou o mesmo, não és como era antes,
e o futuro abre-se em incógnitas simultâneas.

passam os meninos em suas bicicletas.
e o tempo parece não notá-los.
carregam consigo a memória de um amor comum,
a dor da perda e das palavras não ditas...

o sofrimento de ser invisível.

Folhas de Relva

folhas de relva caem sobre meu jardim,
meninos passam mordendo os lábios,
meninas passam olhando para mim,
velhos escolhem seus escritos sábios
e publicam seus trabalhos - enfim.

folhas de relva caem sobre minha cabeça,
não há memória que se vá de mim
não há presença com a qual eu desfaleça,
e, se sou o que sou, assim,
é por ter perdido minha própria cabeça.


domingo, 18 de maio de 2014

Constantemente Inconstante II

lá fora 
a noite purga a escuridão
chove
e o amor escorre entre valas e vielas.

lá fora
a noite esvai em luz
chove
e o amor pede que certas palavras
ditem seu caminho.

iminências:
a garota do sorriso curto
dos cabelos marulhados em ouro
e olhos profundos como um oceano cerúleo.

aqui dentro
um poço de mágoas
uma torrente de sentimentos 
variações incansáveis.

aqui dentro
a dor que vai ao físico
alegria alegria!
e a depressão que invade o mundo.

reminiscências:
a garota do sorriso curto
dos cabelos marulhados em ouro
e olhos profundos como um oceano cerúleo.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Querida

nem tua cor, nem tua simples e mínima
transparência são capazes de afastar
os males do mundo de tua mente, querida.

nem tuas mãos, nem tua ríspida e calada
expressão conseguem ser crepúsculo
para meus amores e fantasias, querida.

antes de amar-te, era vazio.
tudo parecia morto e mudo, caído e abandonado
assim como suspeitava parecer, alheio ao mundo
ausente de minha própria mente.

antes de amar-te, era vazio.
tudo era de outros e nada era meu,
até que, por ser quem és, 
preencheste minha vida.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

= ) =

ainda não conheço tuas angústias,
mas sei que passam da noite branca
à treva rapidamente, em sua inteireza,
a partir das emoções que a ti atingem.

ainda não conheço teus tormentos,
mas sei que honras teus sentimentos
em mãos sutis e acaloradas por um suposto amor,
o qual ainda desconheço.

ainda não conheço teus risos,
teu pranto, tuas memórias e mazelas,
mas sei que aquele atormentado coração
que carregas um dia será poetizado.

ainda não conheço tuas mãos,
teus lábios, tua erudição e fantasias,
mas sei que aqueles sonhos que sonhaste,
serão, um dia, por mim concretizados.

não quero ver, amor, tua fronte enraivecida,
teus olhos gotejados, tua face enrubescida.

não quero ver, amor, tuas luas cruzando
o ódio que tanto me acompanha.

ainda não conheço com quem interajo,
não conheço o caminhar de teus pés,
não conheço o marulhar das ondas de teus cabelos.

ainda não conheço tua luz,
tuas penas, teu silêncio e passos amargos.
não conheço teus olhos noturnos e a treva 
que todos temos dentro de nós.

e, apesar de não ter ideia de quem és,
sei que amarei todo o amor do mundo
à amada dos passos verdes.

terça-feira, 13 de maio de 2014

anti-clímax

janelas fechadas pela escuridão,
noite caindo aos prantos,
ruído gélido que escapa aos ouvidos,
luz acesa do outro lado da rua.

aqui, o devaneio, a esperança,
o amor, a compaixão, o tino
e a essência - apagados.

ali, o ódio, o medo, o sufocamento,
o ardor, a treva e a irreverência
- entrelaçados.

rua deserta, repleta de sombras,
homens despedaçados por entre as vielas escuras,
já não se sabe quem somos ou fomos.

labirintos, enigmas e mistérios escabrosos,
assombrações de mais em uma vida qualquer,
o medo sobe à cabeça e a loucura toma conta do ser.

Depressão

de repente, nada era meu:
crianças brincavam sem a poesia costumeira,
sem os sonhos de outrora,
sem o dinamismo e motivação de sempre.

apenas deitavam-se em suas camas,
olhavam para o teto e perdiam-se
em ilusões e pensamentos,
enquanto a depressão as consumia.

apenas esperavam, sem compromisso
com a vida (superestimada),
sem desejos e ambições,
sem sonhos e somente assombrações.

cortes nos braços, perda de peso,
e a cidade inteira estripada em seus olhos
calados, mudos e mortos.

começava a chover uma torrente de melancolia
enquanto o amor, que já parecia desfalecido,
resolvera descansar.

e tudo isso foi perdendo-se aos poucos
em meio a comprimidos e uma pitada
de uísque...

até que uma sorriu.

Tercetos

não quero que deixes esquecida tua face
em meio ao rancor alheio que floresce da dúvida,
manipulação e repulsa.

não quero que esqueças de ti mesma
em meio a tantas lembranças de um passado
gotejado em desesperanças e sonhos caídos.

não quero que deixes esquecida tua face
em meio a tantas outras, tão especiais, mas
tão comuns a si mesmas.

não quero ver teus olhos noturnos perdidos
em minha depressão e pessimismo,
em meu ódio e amor tristes e impulsivos.

domingo, 11 de maio de 2014

a você VIII

devaneio palavras.
carrego meu amor
em um coração
duro e fechado.

em suas paredes
repousa o silêncio,
a timidez e simpatia.

e em sua simplicidade
descansa a ternura,
vazios e tristezas cinza

- como os sonhos que 
sonhei sonhar sozinho
num dia distante de hoje.

- como tua voz, que elide
sons em minha mente
e apenas canta versos de amor.

devaneio palavras.
carrego meu amor
em um coração 
duro e fechado.

em suas paredes,
ruas tortas de agonia
e sofrimento.

e em sua simplicidade,
simples versos para
a amada, que descansa em paz.

-

sinto...

minto...

não sinto tanto.

sinto muito.

Falta

esvai-me o sonho, 
o amor e a melancolia
estão distantes.

esvai-me a nobreza,
o ardor e a simpatia
a mim são refratantes.

esvai-me a mente
estou tonto, perdido
em um pensamento redundante.

ainda sinto sua falta.

e quando você se for realmente,
quando ninguém, somente eu,
se lembrar de sua face,

ainda sentirei sua falta.

mentirei as memórias vividas,
as conversas despalavradas,
os amores que nunca amei.

mentirei as invenções não inventadas,
as palavras não ditas,
os tormentos e dores de cabeça.

e, depois de tantos poemas,
ainda sinto sua falta.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

a você VII

na fonte onde pousam teus olhos,
perco-me afogado, perco-me sufocado,
perco-me de tanto amar a agonia
e a loucura de amar.

dali extraio o que preciso,
o que a mim é necessário,
o que disfarço e minto -
o ópio de minha existência.

ali permaneço, ali existo
e deixo de existir,
pois meus próprios olhos
perdem a cor, o tino, a vida,
ao passo em que os seus se erguem,
os seus me extraem, os seus vivem
às custas minhas.

na fonte onde pousam teus olhos,
jazo em silêncio, jazo acordado,
porém morto... morto de tanto amar.
Morto por amar um amor verdadeiro.

a você VI

Às vezes 
penso em como seria se, 
de vez em quando, pudesse
contemplar sua face sem o véu
que a esconde - sem as lágrimas
que a refletem para longe daqui,
sem os raios de sol que iluminam
seu rosto branco e pacífico.

Às vezes olho, 
olho no olho,
e vejo vazios
vejo o fundo 
do poço,
vejo memórias
de um passado
triste e manipulado
pela mente 
que não descansa.

Às vezes penso em como seria
se nada tivesse acontecido
e se você um dia irá sorrir novamente.
Espero que você chegue a si mesma,
espero que possa fazer você viver mais uma vez.

a você V

não procura por meus lábios sua boca,
esconde-se em palavras que sonha dizer,
e, em dias e noites, somente vive a solidão.

inconstante sua mente divaga,
devagar sua mente me esquece,
divagando sua mente desfalece.

não procura por meus lábios sua boca,
e já sigo seu rastro azul e solitário.

inconstante, mais tarde perde-se
Inconstância, depois, decora suas lágrimas
com o mais tedioso e silencioso amor.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

És

És luz que invade meus olhos, amor,
que vem a mim calmamente, amiúde,
até que, por completo, da quietude,
posso chamá-la, transparente, de amor.

És mínima e obscura, és secreta, enigmática,
a graça de teu amor vive no escuro
e não tem, ainda, um porto seguro;
és pequena e rosada, és, de todo, pragmática.

És a incandescência de meu peito no momento
vasto e puro de um amor amarrado em asas de solidão,
da qual só se extrai uma paixão e seus tormentos.

E não te amo em tão pouco tempo por alguma razão,
mas por ter em ti plena confiança e sentimento,
por teres roubado e preenchido meu perdido coração.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Haiku

nenhuma outra sombra
dormirá com meus sonhos
e em mim sonhará em ser luz.

a você IV

Tens ares cosmopolitas,
apesar da fixação na terra de tua mente.
És simples, como a alcova de tuas mãos,
como o riso de pequenas asas entreabertas
que sussurram o ir e vir enorme e amiúde.

Tens pares e formosura,
apesar de pensar que és o que não é,
de ser o que vê e negar o que a ti é.
És amarela como teus cabelos,
és verde como o céu de teus olhos.

Tens mínimas e transparentes
vozes que se misturam com a gritaria do mundo.
Quase imperceptível, falas e apenas eu te escuto.
Apenas eu te amo, apenas eu te desejo.

E, na reclusão de tua mente,
nos labirintos que te cercam,
somente eu encontro um caminho,
somente eu desejo que saias da escuridão.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Dois amantes

Dois amantes são histórias que se cruzam,
as sombras que se unem, as mãos que se tocam
em um silencioso e gentil gesto, que deixa apenas um sol
só, sozinho, esperando uma gota de lua,
uma alma que o sustente sem que dependa da outra.

Dois amantes são o prazer e desejo,
a vida e morte que se alternam para que sobreviva
o amor que depende dos erros, dos enganos,
dos beijos e abraços sem sentimento,
mas também do mais puro e poético poema de amor.

Dois amantes são natureza e eternidade,
e, eternos um ao outro, fecham-se em asas
trazendo-os um ao outro em sonhos pontuais
e misteriosos, que só quem ama
é capaz de compreender.

Dois amantes são histórias que se cruzam,
as sombra que se unem, as mãos que se tocam
em um silencioso e gentil gesto, que deixa apenas um sol
só, sozinho, esperando uma gota de lua,
uma alma que o sustente sem que dependa da outra.

a você III

Mas teus olhos olham outros
e não são meus.

são gotas de oceano,
são densidade em sua maciez.

Teus olhos são outros
e já não são meus.

são gotas de lágrimas salgadas
são a frustração de um amor perdido.

Teus olhos choram, mas choram no seco
e choram, choram e gritam

por não serem mais teus.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

a você II

teus olhos são reflexo do oceano esverdeado,
que ninguém detém; que a si não compreende
e que a si questiona sem saber o motivo
ou consequência de ser o que não é.

teus cabelos são reflexo da aurora,
em um céu dourado que ilumina a si
em luzes transversais e sóis sombrios.

tua personalidade, tão quieta, tão vasta e secreta,
sobrepõem-se aos sonhos e vontades da garota
dos passos verdes.

e, se pudesse falar contigo, se pudesse tocá-la ou dizê-la,
diria que temos naturezas e eternidades em nós.
e que, em mim, serás eterna enquanto meu amor durar.

a você

ela caminha em pensamentos
e nem sabe o que pensa.
sonha em ser quem não é
e sonha em ser o que condensa
suas alegrias em tormentos.