domingo, 29 de junho de 2014

O narcisismo é um polo adverso à razão e ao amor.

I

Num estado primário, existe a satisfação dos prazeres e necessidades
através do próprio corpo, mas sem a identificação
do ego, da individualidade, ou uma distinção real do mundo,
que só existe para satisfazer os prazeres e necessidades
do indivíduo - não como algo ou alguém realista ou reconhecido.

Isso é um processo natural, entretanto, e é ultrapassado
pela diferenciação entre "eu" e "tu" através do plano sensorial,
primeiramente, e, logo depois, no plano da linguagem,
já que as coisas passam a ser percebidas
como seres diferentes e independentes.

Porém, emocionalmente, é ultrapassado somente anos mais tarde.
Até certa idade as outras coisas e seres ainda são tidas como objetos
de satisfação de suas próprias necessidades.
Logo começamos a amar, ao perceber que tais necessidades
nem sempre são mais importantes para nós do que as dos outros.

II

Se não desenvolvemos satisfatoriamente, ou se perdemos a capacidade de amar,
nos tornamos narcisistas secundários, imersos em nosso próprio universo
de pensamento, sentimentos e necessidades.
O mundo exterior passa a não ser sentido ou percebido objetivamente.
E, então, nasce a loucura - a partir da qual o indivíduo perde o contato com o mundo;
retira-se para dentro de si mesmo, e não percebe a realidade como ela é,
mas como seus processos interiores e mentais a identificam.

O narcisismo é um polo adverso à razão e ao amor.
Acostuma-te com meu carinho,
mas não o sinta distante ou retraído
quando quiser ficar esquecido,
quando quiser estar sozinho.

Lembro-me do dia
em que te escrevi
poemas desatinados
e palavras sem nexo
para reafirmar meu
próprio sentimento
desiludido e solitário.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Minhas mentiras

Com muita pressa
perdi a vida
e a alma querida
já se cessa.
Ah! O choro
de anjos caídos
em meus ombros
de dor remoídos
e o coro
e o amor que escrevo
nos céus, desassossego,
meu coração tão doído.
Ah! Tamanha paciência!
Vá em frente,
em sua mente
haverá muito a se ver.
A minha se condensa,
em mim mesmo
em vão, a esmo,
minh'alma imensa
se esvai
e se vai
intensa-

mente
eu.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

C.

Em meio às colinas tortas e avenidas de teu corpo,
perco-me inundado de sorrisos resvalados.
Breve, solto e apaixonado em meus lábios,
encontro os teus, paralelos e distantes;
desencontrados e perdidos; apáticos e solitários.

Quero teu triste riso contente. 
As maçãs do rosto já não me satisfazem.
Mentem e calam-te sem deixar rastro de quem és,
e tuas angústias se tornam meu maior pesadelo.

Quero teu doce amor por querer-te.
E, se quero-te, é por amar-te.
E, se amo-te, é por saber que um dia
me amarás também.

Mas, enquanto isso, em meio às colinas tortas e avenidas de teu corpo,
perderei-me inundado por tanta beleza e esplendor.
Breve, passarás meu coração do frio ao fogo,
resolverás os enigmas de minha mente,
e, se falhares: ainda te chamarei de amor.


terça-feira, 24 de junho de 2014

Frenesi

Era noite. O relógio batia dez horas. O lúgubre sentimento de agonia e excitação consumia os rostos presentes, perfilados por um comandante de meia-idade, enquanto eu, solitário e cabisbaixo, desenhava e escrevia palavras pessoais de dor e sofrimento. Cada um demonstrava o ardor que sentia em seu coração: uns urravam, outros gemiam... cada um era vítima... ou melhor, seria... da contradição que existe entre "amar o próximo" e "amor seleto". Estes pobres coitados passariam o resto de suas vidas agonizando na brasa, na chama, no fogo ardente e reluzente do grande e imponente e tortuoso e eloquente cárcere privado do comandante. E eu apenas os observava: perplexo, ambíguo, sem reação. 
Era noite. O relógio batia após uma hora de descanso. Eu já deitava em meu quarto com a mente pensando naqueles pobres coitados, que, àquela hora, já deviam ter morrido. Também estava atento às cartas e poemas que escrevia para minha amada, no sul de São Paulo. Eram textos de amor, é verdade, mas, como não poderia deixar de ser - espelhando-me em meu próprio estado mental - continham aqueles toques melancólico, pálido, putrefato e saudosista, que eram a mim característicos. Escrevia para dá-la satisfação do que estava fazendo (convenhamos, não fazia muito), e para exorcizar os demônios que tentavam me amedrontar, me torturar, me consumir. Entretanto, sabia que não os enviaria e receberia resposta tão cedo, pois me foi enviada uma carta dizendo que ela estaria ausente por alguns dias. O comandante estava de olho em meus atos. Sabia que eu escrevia freneticamente e que minhas energias já se apagavam em prol de meu trabalho epistolar. Se não tomasse cuidado, acabaria me tornando mais uma vítima de sua loucura.
Ainda à noite, o relógio batia secamente as doze horas. Mais um dia nascia em meio às frustrações, medos e angústias da vida. E eu aqui, solitário e cabisbaixo, desenhava e escrevia palavras pessoais de dor e sofrimento. O comandante me convidou para tomar chá em seu quarto, e fui ter com ele:
- Queria me ver, senhor?
- Sim, sente-se - disse o comandante -. É um assunto delicado. Excedemos o número de passageiros a bordo deste navio. Preciso de um serviço seu.
- Certo. E qual seria?
- Quero que você se desfaça da carga carcerária. 
Houve um longo período de silêncio até que assenti.
- Tem alguma carta para mim? – perguntei nervoso.
- Não. Pode ir agora.
         O cárcere, putrefato, continha pilhas de cadáveres amontoados num canto. Era um grande aposento, mas não tinha janelas. Repousava em quietude e mofo, sangue esparramado e corpos em opulência. A luz escassa não me permitia ver detalhes, todavia um caixão semiaberto era visível atrás de uma das pilhas de mortos. Aproximei-me calmamente, com passos que rangiam o assoalho. Ergui os olhos a uma altura em que pudesse enxergar o que havia lá dentro, e me deparei com a cabeça decepada de minha amada, enquanto ouvia gargalhadas do comandante atrás de mim.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Viveria de arrependimentos se dissesse que sei e que sabia ser e viver, sabia? Uma perda de tempo, é claro, pois, de fato, já são vários os adornos que a vida me rejeita por, supostamente, estar apaixonada pela morte. Sim, eu já sei. Parece loucura da parte de um poeta simples, amador e anuviado alegar que a vida morre de amores pela própria morte. Mas veja bem: se uma não existisse, a outra seria banal, e, provavelmente, também não existiria. Ou existiria sendo outra coisa; ou existiria sem existir. Por isso, talvez, e, é claro, eu deva ser um tanto suicida, melancólico e saudosista. Sinto falta dos tempos em que não precisava escrever sobre as paixões alheias; sinto falta de ser eu mesmo. Mas, voltando à vida morta e morte viva: viva à morte! Viva a vida! Porque, sem uma, você não teria a outra. Uma perda de tempo, bem sei, e, é claro, pois, de fato, já são vários os amores que narrei, enquanto lamentava a perda dos meus,
ou a própria inexistência do amor.

Não sei, na verdade sobre o que estou falando, mas, se você leu ou me ouviu até aqui, vou continuar.

Viveria de arrependimentos se dissesse que sei e que sabia ser e viver, sabia? Seria falta de tino, uma decepção tremenda desistir agora. Mas seria para quem? E por quem? Só posso dizer que existe apenas uma pessoa que me traz felicidade verdadeira, todavia, não é preciso nomeá-la. Ela sabe que é a única... ela mesma, a dos olhos esmeráldicos. E, eu também, morro de amores por ela, mas ninguém sabe... ou sabia, até então. Viveria de arrependimentos se não lhe dissesse.

Já não posso chorar ou sorrir, jamais gargalhei... e minhas risadas são surdas. Quem sou eu? Já não posso existir, cantar desafinadas e tristes melodias de Rachmaninoff ou Chopin, expor meu ego egocêntrico (tão egocêntrico, que optou por não fazer parte deste corpo - e agora jaz aparte em algum lugar em meio à sociedade materialista e corpulenta que vejo com estes olhos secos).

Cerúleo. Seu céu é cerúleo. E lá pousam e repousam aves migratórias. Talvez esperando a morte, ou a vida passar... assim como eu, você... A rapsódia que mais me encanta é seu coro desafinado, como minhas melodias, como meu amor, como minha vida. E ainda continuo. Com este coração acamado e partido, continuo. Lutando por mais dias, lutando por amores, lutando contra mim mesmo - até que a morte dê um fora na vida... até que a morte caminhe sozinha por esta carcaça pálida e azeda. Até lá, um poema ou dois serão feitos; com um verso ou dois, imerso em quietude; com um livro ou outro, publicado; por uma paixão ou outra, frustrado e atento às questões do mundo - dos sofrimentos do mundo... aqui mesmo, no poeta que lhe escreve.

domingo, 22 de junho de 2014

Com tudo em seu devido lugar,
movimento-me estaticamente
como o coração que costumava amar
um outro, eloquente.

A escuridão de minh'alma deslumbrante
peca por tomar parte da luz
para ser si própria, nevoada, estonteante,
cheia de vazios e ausente, flux.

Começo a detestar os dias;
o sepulcro já se ilumina em minha mente,
e as doces melodias que cantei melancolicamente
se tornaram velhas, doentes e frias.

E por que devo sangrar minha vida
aos que nunca fizeram algo por alguém?
Por que devo ser parte querida
nos corações partidos de outrem?

Com tudo em seu devido lugar,
movimento-me estaticamente
como o coração que costumava amar
um outro, eloquente.

A noite perdura sobre os dias tristes
que, longevos, permanecem distantes
- como os eus de mim mesmo. Existes
ainda em mim como antes, gritante?

Nunca conversamos muito;
nunca paramos para mirar nossos olhos;
nunca amamos tanto;
nunca fomos reais.

E, então, por que deveria sangrar minha vida
aos que nunca amaram outro sequer,
ou alguém específico...
um outro qualquer?

sábado, 21 de junho de 2014

-

revoltos em falsos e adimensionais amores,
o casal paira em sua própria magnitude;
infindáveis e efêmeras cores
desbotando em solidão e quietude.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Adeus, mundo cruel

dois dias mais cedo e o frio
consumia meu corpo morto.
dois dias após e o vazio
toma conta de mim, absorto
em pensamentos e tormentos
como o mais tenro e sombrio
momento de melancolia.

dois dias mais cedo e a morte
encerrou a mim mesmo
como se fizesse cortes
em meu corpo a esmo...
pensando em tempo passados,
na miséria presente
e no vazio futurado.

ela esteve aqui. trouxe flores.
mas elas também já se foram.
e, agora, estou só. novamente só.
como nunca pensei que estaria.

ela esteve aqui. deu-me um beijo
e se foi.
e, agora, já vou-me embora.
vou-me embora deste mundo cruel.

Suicídio

A vida, 

                     coisa banal, 

efêmera, 

                                          para mim 

já parece ser algo sem valor. 

                                                                                              Morrer seria uma tragédia 

                                                    
                                                aliviada pelo remédio tempo.

A morte seria, 

                                            para mim, 

                      a fonte de cura 

de todos os males 
   
                                                          e tormentos aos quais estou exposto,

 e, digo mais, 
                                          seria, ainda, 
                        
                                                                             a melhor escolha que poderia fazer agora. 

Os remédios não adiantaram. 
  
                                                                                   A terapia fracassou.
  
 As recaídas me entregam ao fim 

                                                                                                        e eu me abstenho da vida 


                                                  como num passe de mágica.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Suburbs

I

a sovereign time have I seen
kissing her golden face and eyes
with red lips and dead blood of green
though the green was blue and the blues were you,
I have not been
the man I should.

II 

With my ugly face o'er hers,
I could relax and see myself reflected in my love.
I could see unseen worlds and visages hiding alone,
in her dead dwelling place, but I wasn't scared.
I was in love.

terça-feira, 17 de junho de 2014

The love I love for thee

The love I love for thee
is in the light of thought.
As my eyes fall for thee,
- our love is wrought.

The love I love for thee,
out of space and out of time,
makes sweet dreams for me
- most of them with you, divine.

The love I love for thee
is in the light of thought.
As your lips fall for me,
- my world is wrought.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Que esperam ainda de mim

I

Em vidas e mortes lúcidas e súbitas
meu coração desbota em sangue.
Esvaem-se meus sonhos e ilusões,
já não sinto o amor e não tenho paixões,
meu coração, insensível, morre sem sangue.

E que esperam ainda de mim?
Que esperam desta carcaça que escreve seus lamentos?
Quais serão meus graves e letais e nobres e mais
sutis tormentos?
Que esperam ainda de mim?

II

Empilhei meus livros sobre a bancada,
não li um sequer.
Estive sozinho nesta vida atormentada,
e morri sem amores quaisquer.

III

O diabo já vem buscar seu melhor cliente.

domingo, 15 de junho de 2014

To John Tischer

I am a poet lost in loneliness of verse and thought.
Singing poetry and hymns to girls unbidden,
I am a poet whose love is loving not
the words that hide myself - yes, I have been hidden.

I am a poet drowned in deflowered elegies from the time
I used to kill myself in nightmares and dreams;
that time is gone, as the lonely and evil skies
of my lost and lovely eyes, which seem

to be soothing the agony I used to feel.


algo aí

amor, em uma vírgula
nos separamos como retas
paralelas, que nunca se chocam,
e sempre se determinam.

em uma vírgula nos separamos,
e a austera e próspera eternidade
que a nós nos propiciamos
é a mais sincera e entrelaçada
forma de demonstrar amor.

Vingança

Passei o dia inquieto, em mim mesmo imerso,
como quem busca vida em matéria morta,
como quem bate, esperançoso, à sua porta,
como quem se refugia na poesia sem versos.

E o passei sozinho, indignado e agonizante,
sujo, melancólico, mal-amado e agoniante,
e o passei em mim mesmo, imerso e aflito
com as peripécias e mendicâncias de meu triste grito.

Mas tu não vieste ver minha desgraça!
Não vieste ver como eu estava.
Apenas saíste, retiraste-te de minha carcaça.

E agora perambulo sem juízo e esperança,
pois me chamaste de "morto-que-andava"...
- não reclames, pois, de minha ardente e sangrenta vingança.





sexta-feira, 13 de junho de 2014

Flux

Das minhas particularidades consumidas,
a maior delas é a expressão da melancolia
em todo e qualquer verso de minha densa agonia,
em todas as urbes e orbes de minha tão sofrida vida.

Morram, as adversidades! Cessem a luz!
Já não vêem que meu sofrimento condensa
a tão inesperada e violenta e imensa
turbulência em minha mente, flux?

Ainda assim, a animar as alheias vidas:
desperdiçando cada gota de minha alegria
com todas essas outras, vencidas.

E, se estou morto ou não,
que me enterrem em meio a minha poesia vendida
- para que possa perceber o quão merda fui até então.




Triste

Triste, ao sutil passar dos segundos,
perpetuo a agonia de meus eus unidos,
e, se sou poeta - a torpeza da terra,
é para ser tachado de louco e insensível.

Sinto saudades. Sinto falta de meu amor a meu lado
de forma imprecisa e também indecisa.
Mas ainda a sinto. E sinto muito por vê-la partir
com um sorriso no rosto e toda a dor em seu peito.

Meu amor já se esvai, desfalece
e se desencarcera de minhas entranhas
sangrentas e melancólicas.

Meu amor já se vai, adoece
e se encerra em minhas estranhas
e sarnentas mente neurótica.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Veneno

Beba por mim somente com teus olhos cautelosos,
e eu, aqui, sozinho, beberei por ti e por teus, misteriosos.
Beba por mim nesta noite cálida e fria,
e os meus, gloriosos, darão a ti parte de minha gentil poesia.

Beba, pois a sede que sinto já se torna descomunal.
E eu, aqui, solitário, sentirei teu amor- a mim: banal.
Beba por mim e deixarei um beijo ou dois a ti.
E, só então, perceberás que jazo morto, sozinho, aqui.

O coração inventado

Um triste coração, solitário e desapegado ao mundo,
fabrico com meus recursos rarefeitos.
Um tanto de melancolia para estrear os vagos
e vazios discursos de minha mente - oculta em sua
profundeza mentirosa; gotas de madeira para este coração
acamado, e deveras profundo, e calado, e imundo, e inundado
de amor; um pouco de ilusões e fracassos e toda a desconfiança
do mundo e, do mundo, todo seu ardor.
Um triste coração invento para amar, e só amar,
e sofrer de tanto amar,
amar e esquecer,
amar e bendizer
o amor que já não há.
Um triste coração, adornado, e inventado, reduz a poesia
à matéria de puro divertimento, puro hobbie, puro contentamento.
Amar já se faz imprescindível. Amar já se faz banal.
Mas ainda amo, com um coração irrevogável
Mas ainda amo, com um amor carnal.
Um triste coração, solitário e desapegado ao mundo,
fabrico com meus recursos rarefeitos.
Meu amor morre, todavia. E renasce, e morre novamente,
fazendo decadente meu coração.
Fazendo com que todo sentimento seja uma simples e bela e nobre ilusão.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

-

por todo meu amor serei atento
aos sonhos, ambições e medos,
e às ilusões, enigmas e segredos
que constroem meu amor e, em ti, meu pensamento.

por todo meu amor serei eterno, a cada momento,
e, em todo, em tudo, com meu coração calado,
singelamente nobre, sutil e delicado,
serei o motivo de teu próprio contentamento.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Proletcult

mergulhamos de soslaio
e olhamos de través
através
de seu raio
de eloquência visual.

renomados sejam
os nomes das coisas
lúgubres e mórbidas
que ardem em sua
vívida e trabalhadora
Proletcult:
quietude, nós.
quietude, nossos filhos.

mergulhamos, ainda,
de soslaio através
dos travéres travados,
e, fingidos, olhamos
de longe,
mas muito perto,
a chuva que cai
sobre nossas cabeças
pensantes - varrendo
ideias e pensamentos
para fora do alcance de
nossos olhares desatentos.

cospem palavras em nós,
"somem ou sumam!", dizem-nos
e vamos nos sumindo para eles
à medida que somam os lucros
de nossa existência.

ouvimos o gemido e agonia
de nossos filhos.
mas nada a fazer.
somente proletariar nossas vidas
miseráveis e descabidas
enquanto trabalhamos
para ver os frutos nas mãos de outro.

A G. S. P. e L.

Quando, das trepadeiras e pinheiros
nos distanciamos, começamos uma
tenra e nobre amizade, que, pouco a pouco,
gota a gota, foi se instaurando em nossos
corações amarelados e esverdeados.

Era um intruso amigo, por não fazer parte
e por me sentir parte daquilo.
Era um pobre poeta, perdido em pensamentos,
querendo falar o mundo, mas calado
pelas conversas que ali se encontravam.

Porém, falei. Falei mais do que pude,
em sentimentos, em fatos e dizeres
amiúdes, que não tinham tanto valor,
pois o que valia se encontrava ali também.

Com loureiros orientais, gregos e sudestinos,
agradeço-te, pequena monarca de meu coração
solitário. Agradeço-te por fazer de mim um ser social
e por estar presente apesar de todas as adversidades.

Quando, das trepadeiras e pinheiros
nos distanciamos, começamos uma
tenra e nobre amizade, que, pouco a pouco,
gota a gota, foi se instaurando em nossos
corações amarelos e esverdeados.


sexta-feira, 6 de junho de 2014

O Coração Amarelo

Enquanto do verde do mar teus olhos nascem,
o céu azul no marulhar das ondas te banham.
O sol, amarelo como teus cabelos e coração,
contemplam teu movimento e espontaneidade
e teus lábios, uns nos outros, se beijam e arranham.

Vens caminhando, num singelo e passivo voo
sem asas, calmamente, até que chegas a mim.
Vens e vais como o próprio marulhar das ondas
que banham a ti e a mim... aqui, sozinhos,
espraiando e esvaindo sonhos em um mar qualquer.

Enquanto do verde do mar teus olhos nascem,
o céu azul reflete tua alma, que voa... e desaparece,
num baile quase imperceptível e deveras fugaz.

E o sol de teu coração amarelo contempla
teus olhos de oceano, brilhantes, enquanto sais do mar,
e então regressa... como um sonho - ao acordar pela manhã.

Desafinados

teus olhos, desafinados, gritam aos poucos,
imersos, dispersos e petrificados, amores
que, de repente, gota a gota, vão sendo
mais e mais esquecidos e desatinados.

de teus olhos, meu amor, surge o desatino,
a ineloquência de meus versos e estrofes,
a perda de meu cognitivo e a confusão
e escuridão da alma que aqui desfalece.

teus olhos, desafinados, cantam canções
de exílio e distância; cantam a perda,
cantam a desgraça, meu amor.

de teus olhos tenho medo, por pensar
que, a qualquer momento, em alguma
parte alguma... serei aprisionado em um mausoléu de olhares.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Haicais

Espraiava-se em detalhes,
e, enquanto as minúcias lhe saiam,
injetava-lhe uma dose de amor.

Espraiava-se em detalhes,
e, enquanto os pesadelos lhe subiam,
eu injetava-lhe uma dose de amor.

Enquanto isso, a mente que a si consumia,
espraiava-se em detalhes e minúcias.
E rejeitava todo meu amor.

Em paz

Estendia-me, alargava-me
e amava. Mas aquilo não
era algo. Jamais senti.

Jamais me ocupei em sentir,
é verdade, pois a vida a mim
fora dura e invejosamente maléfica.

Nunca, repito, nunca
meu movimento tendeu
ao simples e diverso finito.

Sempre fui eterno em tudo que fiz,
mesmo estando morto em minha
nobre e gentil carcaça.

E isso fez com que fosse mais forte
que os outros, que os poucos,
que os muitos que por mim passaram.

Os comprimidos comprimidos
que tomo para que a felicidade
se instaure em meu corpo,

a ração diária que a mim dão,
o pão e circo do qual faço parte,
Tisch, o eremita que me auxilia,

são parte do amor que tenho por mim mesmo.
São parte que foge aparte do todo,
que aqui jaz, eternamente, assim como eu.

Sempre serei eterno nas mentes insalubres
e morbidamente doentes - invariadas
e devidamente supridas por minha eloquência.

Sempre reinarei em meu palácio mental,
seja com meus súditos eus, ou sem a ajuda
infantil e desprovida de eficácia deles.

Sim, sempre fui só. E sempre tive medo da solidão,
porque tudo a mim parece um grande vazio
sem razão ou consequência.

Sim, sempre tive medo do final,
por ser ele um completo vazio,
assim como minha própria vida.

E, é claro, sempre tive medo dos medos,
por eles serem parte do mundo dos sonhos
- o único que habito em paz.

terça-feira, 3 de junho de 2014

Morto

Quando, da torpeza da terra, a lua surgiu,
minh'alma, que encerra a si própria, ruiu.
O garoto que fui, aquele dos passos sutis,
caminha só, buscando diversos e mórbidos perfis.

Quando, da torpeza da terra, a noite calou
os beijos que dávamos uns nos outros
em meio a tanto ódio, em meio a tantos poucos,
minha morte o Céu negou.

Já havia caminhado. Já havia mergulhado
nas árvores que sustentavam meu corpo
morto, noturno e cansado,

mas o garoto que antes sonhava,
que antes imaginava um futuro diferente,
se entregou à morte que o rondava

desde seu fúnebre nascimento ineloquente.

Solidão

Estou sozinho! O caminhar já me é distante!
Amiúde e descontente, a ti minh'alma ofereço,
e em altos e baixos tortuosos desfaleço
perdendo-me em mim mesmo, num destino desolante.

A agonia do sol lua refratante
implora por deuses a quem eu não obedeço,
e, se estou só, é por não ter tido começo,
nem final contente e constante.

E o ocaso que a mim refrata
e reflete em espelhos de minha mente,
que já não é precisa e exata,
perpetua a morte em mim sempre presente.

Reflexão

Ninguém se vê em meio à torrente
de sentimentos inválidos e indevidos
que nos fazem sentir indecentes,
idiotas, tolos e doídos.

Ninguém se vê em meio à multidão
de culpa e atraso, e pesar
que se instaura amiúde num coração
despedaçado e consumido.

O amor e amizade que existiam
se foram, nus, por aí. Esvaíram-se
e tornaram cinza o sentimento de outrora.

E, agora, gélidas palavras
e secos momentos imperam em meio
ao sofrimento que ele lhe causou.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

-

Nunca demonstrei profundidade. Tampouco disse que era raso ou breve, que era atraso ou leve. Nunca demonstrei minha lealdade. Nunca, de fato, morrerei. Serei eterno, jamais recluso. Nunca, de verdade, obtuso... nunca, de fato, a amei. Nunca proferi palavras benignas, nunca fiz o bem. Nunca medi as consequências de minha mente maligna, ocultada por máscaras e gestos, também. Nunca esvai meus sonhos e medos, mas os ocultei em enigmas e segredos que só eu poderia entender. E, se sou eu mesmo, sou quem sou: difícil, mas não impossível de se compreender. Nunca demonstrei profundidade, nunca me livrei de minha nefasta imaginação. Nunca concretizei minhas vaidades, nunca parti do princípio de Criação. Nunca senti falta de mim mesmo, mas caminhei sozinho, a esmo, buscando os fundamentos e orientação. Nunca fui quem aparento ser... e muitos dirão que sou o que desejo, mas que não poderia - eu - não ser. Nunca me conheci. Muito menos os outros. Poucos os que sabem algo sobre mim. Poucos sabem o que me divertiu e porque sofri. Muitos deduzem que seja um mar de rosas... um tremendo jardim. Mas nunca disse quem era. Sempre preferi o silêncio. Se sou quem sou, não sou por mim. E, se sou quem sou, não sou porque quis.

domingo, 1 de junho de 2014

Memórias

se me lembro bem,
todos os corações se abriam
para as angústias e lamentações
de meu próprio,
enquanto a Beleza de minha vida
sentava-se em meu colo, amarga,
estupefata e doída enquanto bebíamos
coquetéis antidepressivos
à mesa redonda da casa do imperador.