domingo, 27 de julho de 2014

Minha Boêmia

Caminhava com as mãos soltas tateando bolsos rasgados,
e igualmente meu casaco se tornara virtual.
Oh! Como amara meu sonho ideal;
Oh! Como sonhara com a época em que não havia estado.

Em minhas calças encontrei um enorme buraco,
pelo qual avistava minha ébria perna desajeitada
cantar os passos de minha face trejeitada
e do imenso odor, do intenso frescor, das pernas tortas do tabaco.

Ficava a ouvir as rimas que eu mesmo recitava
para o amor que, até então, minha secreta e simples sedução
mentia que vivia; mentia que sorria; mentia que sonhava.

E as sombras fantásticas que rimavam decassílabos com oração
se dissolviam à medida que minha poesia se desintegrava
- enquanto badaladas surtiam efeito em meu triste coração.

sábado, 26 de julho de 2014

Silencioso

Mulheres cantam canções desesperadas,
crianças e a frescura nos olhos da manhã,
eu... eu escrevo a melancolia que arde em seus peitos.

Por estradas de sangue e o frescor do crepúsculo,
caminho, triste, impetuoso, violento,
em meio ao silêncio que me veio e vem:

Um silêncio que se perde na treva,
no entanto, parece ser o que,
por enquanto, chamo de solidão.


quinta-feira, 24 de julho de 2014

A arte da conversação

Minha existência não se resume mais em busca pela sabedoria da vida, dos livros, das conversas e dos amores. Agora, todavia, se resume ao ócio, ao tédio, ao silêncio, à sincronia com as diacronias de meus versos, à melancolia, à dramaticidade, à morte e à própria vida. Tenho um corpo que não comporta todos meus sonhos, e, por ser inválido, deixo de realizar todo o onirismo que me cerca. Tenho uma mente que não comporta toda a minha imaginação, e, por ser deveras imaginativo e reflexivo, não penso, não imagino, deixo de refletir. E por que faço isso comigo mesmo? Por qual motivo me cerco de impedimentos, de barreiras, de desculpas e preguiça? Talvez seja apenas uma longa fase. Um processo sobre o qual evito comentar, escrever, relatar. Minha existência se resume à poesia, à música, às artes em geral, além do que já foi citado. Mas a histeria que se desempenha de minhas obrigações já se torna estridente, contundente, radiante, dissidente... e minha. E o amor se esvai. Foge de minhas mãos e não tenho interesse em correr para alcançá-lo. Não tenho vontade de correr atrás de alguém. É preciso ter alguém? A solidão me parece tão atraente vista frente a frente. Autoestima se eleva de outras formas. E a minha... Bom, a morte também me parece atraente. Viver é superestimado. Ninguém sabe como é morrer para que haja tantos pontos negativos a acrescentar em sua vida. Acho o silêncio a arte da conversação e a maior forma de aprendizado que se tem numa relação. Aprende-se a ouvir, a falar, a se conter, a sentir e refletir. A morte é repleta de silêncio.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

-

amo-te, meu amor:
o amor que já desfalece,
o amor que se esvai,
o amor que já decresce
o amor que já se vai.

-

Um dos logros de amar, sem dúvida é ter-se refletido
nas características de quem se ama. 
Mas a ausência... ah, sua ausência... vivo escondido
pensando em versos para descrever tamanho sofrimento.
E sofro, ainda, por não tê-la por perto.
Porém, sofro por não saber amar, visto que amor é liberdade.
Longe de mim sua ausência se torna iminente.
Mas ainda ajo como se respirasse a meu lado,
a cada instante, eternamente, colorindo minhas 
entranhas desbotadas, desassombrando minha
calada mente, que aqui escreve um poema falho,
entregando palavras de amor à monarca de meu 
eu, ao amor que já parece distante, às pessoas que
habitam minha dúbia e doente imaginação.



terça-feira, 22 de julho de 2014

-

"Eles não existem", ele diz,
enquanto cria paraísos irreais
- e, o que foi que fiz?
foi me livrar dos materiais.

ensombraremos a agonia
quando o homem renascer da cegueira.
e o corpo que, aqui, antes morria,
agora cria dos Céus uma fogueira.



segunda-feira, 21 de julho de 2014

-

Teu coração já pulsava cintilante, e, em si mesmo, verde e rosa, radiante, por ter encontrado a Beleza em sua forma mais tenra e livre: a ocular. Teus olhos resplendiam cerúleos e esmeráldicos universos de radiações. Espantavam os males; refletiam as sombras; desejavam - e desejavam em demasia - ser um breve canarinho que pousa em seus dedos contente, incisiva e apaixonadamente, mas que retém toda a felicidade em um vôo melancólico, triste, histérico, e nos deixa apenas saudade. Saudade.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

To Laura

Laura is in the light of thought.
Though I smile my love to her,
and though the smiles that tints
the words I write, the eye that
blinks the verse I might
call a poet in love,
she's only a dream I dare to dream.


quinta-feira, 17 de julho de 2014

Os anos passam feito vento

os anos passam feito vento,
a vida confunde-se em garoa,
uma mancha de tinta chora 
em minhas roupas surradas:

meu coração acamado respinga
lágrimas de solidão e devaneios
enquanto os versos que escrevo
tornam-se minha dura realidade.

a morte, que desce às sombras
de minha leviana e vã existência
acossando e cercando os meus
singelos e imutáveis sentimentos,

está cada vez mais próxima, amor,
está cada vez mais próxima.
está cada vez mais
mais próxima.

os anos passam feito chuva,
a vida confunde-se em garoa,
uma mancha de tinta chora
em minhas roupas surradas:

poemas declaram meu amor
por ti e por teus sentimentos,
somos iguais e, por isso, nos 
amamos como ninguém.

o narcisismo peca por ser
perfeito para nossos espelhos;
o siso, o tino, a reverência...
todos são produtos da perfeição...

os anos passam feito vento,
a vida confunde-se em garoa,
uma mancha de tinta chora
em minhas roupas surradas:

só há teu amor para calar a solitude
que resvala em meu ego ardente;
só há teus olhos para cegar as sombras
e vazios que encontro em minha mente.

poemas declaram meu amor
por ti e por teus sentimentos;
mas já estou envelhecido...
a morte a mim aguarda.

porém, quero que sigas amando
a poesia que amamos, o silêncio
que desfrutamos e a beleza que 
tanto admiramos juntos.

quero que vivas enquanto eu a espero,
enquanto teu amor floresce, enquanto
teus olhos vêem e descobrem o mundo
que há além de nosso imaginário.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

-

Tanto tempo se passou sem que
qualquer palavra fosse dita.
Tanto tempo me levou para que
qualquer coisinha fosse escrita.

terça-feira, 15 de julho de 2014

-

Você faz, apenas vivendo, com que eu viva,
sem desejos, sem lamentações, sem expectativa
de um cenário confortante ou deveras inundado
de serra, de talho... pelo amor adornado.
E, você mesmo, olhe meus pulsos chorando lágrimas
repletas de hemácias, amargura e melancolia.
Não é comum cantar a simples, tenra e pura poesia
com tanta dor e sentimento expostos. Não dá mercado.
São apenas memórias de um poeta em crise... angustiado.
Em apatia, em amor, na derrota e na glória,
escrevo meus poemas de miséria e vitória,
mas ninguém lê. Afinal não interessa.
E, se leem, no final, demonstram pressa
e a mensagem que quis passar passa a ser perdida.


sábado, 12 de julho de 2014

-

E se o amor que aqui escreve
se tornasse pálido, amargo e seco
por conta de toda a melancolia
e desatino que jaz em viver?

E se o amor que aqui escreve
fosse encerrado, e, consigo, sutilmente
resvalado por toda a agonia
que reside em viver?


sexta-feira, 11 de julho de 2014

Saudade

Quero que saibas que jamais desistirei
de contar, fio a fio, gota a gota,
as ondas de teus alourados cabelos,
que já me trazem memórias e saudade.

Teu

Quando, dos mais tenros e doídos sentimentos,
meu amor se erguer, lembra-te que te amo
e que teu coração permanece guardado
em meu próprio e sentido peito.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

To Laura

Leaves of grass sweep my revoked and lonely heart
And the stainless feeling I get is everybody is alone.
Under and beyond my ego, trauma is enhanced;
Reckless torments and all my misery invoke
A love that starts to grow.


Iluminação

Por entre estas retinas cansadas, o mundo interior é visto e descrito. Elas, porém, não memorizam, não armazenam e não codificam a realidade vigente em seu próprio mundo. Apenas interpretam e resplendem o que desenvolve-se a partir de tal experiência: o olhar. Por entre as loiras e eslavas melenas deste ídolo, pelos olhos negros que aqui escrevem, por toda estirpe, cortejo e desatino, sou eu quem se retém; quem se entrega; quem se aproxima; a quem se atém quem desagrega o império nebuloso e catastrófico de minha mente. Por aqui, quem passa é docemente infeliz: somente com um ou outro espasmo de felicidade. E a chuva de cera permanece estática. Não molha entre minhas gotas cristalinas de lágrimas. Não cega em meio à escuridão que à luz revela. Não está presente em minhas lutuosas flores de sonho.

domingo, 6 de julho de 2014

A poesia não basta

Sem esperança humana, pus-me a caminhar solitariamente pela relva fechada e concreta que me convidava para um breve e doído passeio. Não vi árvores. Não havia pessoas. Nada encontrei, senão um jornal rasgado jogado pelo chão e uma pequena carta perdida e desencontrada pelo solo arenoso. Ambos convidativos, ambos concretos, e, ao mesmo tempo, desinteressantes. Caminhei por uma hora ou duas. Sentei-me. E a amarga Beleza sentou-se em meu colo. Depois de algumas carícias, a injuriei. Era apenas uma ilusão de minha mente.

sábado, 5 de julho de 2014

Poética aos inválidos

Condensa-se sua mente em sua multiplicidade
de devaneios, enquanto a minha sonha amiúde:
amar mais do que quis e mais do que pude
um amor de inverdades e receios.

E, em seus múltiplos delírios, obscenidades
e anseios, sonhamos juntos, aloucados,
entretidos, derretidos, apaixonados,
um amor de divindades e rateios.

Amamos um ao outro como se fôssemos um,
como se fôssemos pouco, como se fôssemos algum
dos que nos admiram pelos olhos, em quietude.

Amamos sem saber que não sabemos
que queremos ser o que não queremos
- juntos, aqui, sem nenhum desejo ou virtude.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Olhares

Um olhar suspeito se esvai, estranho,
enquanto sinto pena de mim mesmo
porquanto viajei décadas a esmo
procurando o que se foi antanho.

Desse olhar, de lânguidas retinas,
a sombra tua se distancia abruptamente,
conquanto teus olhos, sobretudo eloquentes...
- minh'alma a ti se inclina.

Esse olhar, desbotado em tuas cores,
se esgueira por meu triste passado.
E já não sei o que há de inusitado
em esconder antigos e doídos amores.

Um olhar suspeito se esvai, estranho,
enquanto sinto que já me fui,
pois minha esfera já se anui
procurando o que se foi antanho.

E... me fui sem ir, ao certo.
Já não me querem aqui,
mas não sabem o quanto sofri
por não me quererem perto.

E... repouso, ainda, lânguidas e fusileiras retinas
nos que se foram e me deixaram,
nos que se foram e se entregaram
aos malefícios e maldizeres ocultos por densa neblina.

Um olhar suspeito se esvai, estranho,
enquanto sinto pena de mim mesmo
porquanto viajei décadas a esmo
procurando o que se foi antanho.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Olvido

Condenado a olvido,
tamanha resiliência me foi proposta,
tamanha paciência me foi deposta,
e já me entrego ao desatino.

E o que seria esse desatino
que tanto me prolongo a escrever sobre?
E o que seria senão uma desculpa
para ser diferente dos demais?

Ainda, porém, sou condenado ao esquecimento.

Ainda, porém, enlouqueço por fazer parte da realidade.


terça-feira, 1 de julho de 2014

Dévotion

Por toda sua nobre carcaça, polida, progressiva e idílica,
cerúleos olhos repousam olhares e afetos;
nas escumilhas que nascem e renascem desnudas em seus campos
rochosos de lânguidas palavras e versos de amor,
enquanto os meus, inquietos, intranquilos e discretos,
reduzem-se à lírica que ecoa de minha voz.

É tarde nas vielas de minha cidade.
E não estou em qualquer cidade,
pois sonho um sonho num sonho,
(por imaginar, logo, distorcer,
logo, não me encontrar na realidade)
o qual se torna introspectivo
e se nega a expor seus próprios detalhes
ao simples e imaginativo sonhador.

Porém, por toda sua nobre carcaça, polida, cheia de adornos
e deveras idílica, ainda escumilhas de todas as cores
nascem e renascem desnudas em campos rochosos
que alvoroçam depreciativos e intranquilos momentos
de solidão.

Nas janelas, riso e vastos olhares esmeráldicos
- também esperançosos, também sonhadores.
Mas o que tanto sonhamos?
Nem mesmo nós sabemos o motivo de tanto desatino
gotejando em lágrimas e sorrisos;
nem mesmo nós sabemos o motivo de tanto amor
estratificado nas badaladas de um coração acamado e pensativo.