sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Misantropia II

É tarde... e já estamos distantes.
Os pássaros cantam a poesia,
mas não cantam como antes.
O céu é o véu que a ti entrelaça
e te leva de mim em doce ameaça.
Sou eu quem foge à melancolia.
Não controlo sentimentos...
Tudo ainda são tormentos...
Tudo é misantropia.




quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Dévotion II

Meu coração se alimenta de tuas sombras errantes, de um amor em luto, de pérfidos sentimentos que senti, outrora, partindo das falsas impressões que, por meu próprio descontentamento, mais uma vez, me tornaram docemente infeliz. A triste sedução que vem de ti, meu amor, já nada me traz. A simplória emoção de estar a teu lado, meu amor, já não me satisfaz... Erga a cabeça, meneie os braços, mostre teus sentimentos, tuas quimeras, teu tão partido coração! Estradas bordejadas por ódio e corrupção sustentam teus membros descaídos em tentação, senão divina; iluminação e perdição, senão as minhas. E, ainda, meu coração se esgueira procurando teus lábios verdes, teus raios, perfumes e púrpuras... Ainda sei onde encontrar-te, meu amor. Ainda sei. E é por isso que, todas as noites, antes de dormir sonos eternos, deito contigo na alcova onde repousa tua carcaça, sabendo que tua alma permanece a meu lado.

O Misantropo

Humano, demasiado humano,
não sou eu quem segue o plano
preparado para aliciar e acalentar
a paixão e amor do são insano.

Não és tu que vê a vida
sobre o orgulho e a ferida
de homens tolos, de tempos idos...
homens frívolos, corrompidos.

Humano, demasiado humano,
onde se escondem seus tesouros de Guano?
Onde estão a podridão inefável
e a paixão e amor do são insano?

Não és tu que segue a luz
da doce miséria flux
- sobre a névoa e o orvalho,
sobre os bosques de pinheiro e carvalho.

Dirás que sou o misantropo, em sua defesa,
e que, a ti, tenho aversão como proeza.
Mas só não tenho habilidade ou destreza
para lidar com o que, a mim, considero pobreza:

O humano, demasiado humano, dos tempos de agora.
Que venham os imponentes casarões de outrora,
que deixem os bobos, tolos e levianos para fora
enquanto escrevo meus versos de misantropia, por ora.

Humano, demasiado humano,
não és tu que segue o plano,
não és tu que vê a vida
sob o orgulho e a ferida

de homens verdadeiros, de tempos idos,
mas de homens frívolos, corrompidos.

domingo, 24 de agosto de 2014

Goethe

Escrevo versos em sépia
para as sombras da noite
enquanto os garotos nas
bicicletas cantam e fogem
dos homens de outrora.

Abria Goethe sobre a mesa,
copiava versos de antanho
e me sentia voraz, astuto,
mais eloquente do que o poeta
velho e estranho.

Mas tudo era um sonho
de menino, um sonho de poeta,
a vontade de ser quem não se é.
Tudo era Fantasia, Fausto, poesia...
a vontade de deixar de ser o que se é.

sábado, 23 de agosto de 2014

Olhos Teus

Ame a mim com olhos teus,
e amarei a ti com a reflexão dos meus.
Através das retinas, entre a mente
e o coração, amarei a ti somente
e tudo que vier de tua amplidão.

Ame a mim com olhos teus,
e amarei a ti com a reflexão dos meus.
Por trás dos versos, do poeta através,
por onde andarão, ao perigo, ao viés,
tudo que vem a mim é tua imensidão.

Todos os sutis e temerosos pensamentos
são a respeito de tua perda. Não
deixo de lado a confiança, mas o medo
de perder-te é tremendamente imensurável.
E o poema que me deste... inefável.

Todos os sutis e proveitosos momentos
são a respeito de nosso amor. Não
somos como a chuva, não nos molhamos
em meio à felicidade. Não somos parte da realidade.
Não somos parte um do outro.

Portanto, ame a mim com olhos teus,
e amarei a ti com a reflexão dos meus.
Através das retinas, entre a mente
e toda amplidão, amarei a ti somente
e tudo que vier de teu coração.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Determinante

H O M E M

L
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Q U E   E S T A V A   R E E S C R E V E N D O

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QUE   E S T A V A   D E S C R E V E N D O

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SSIM ACHO QUE O MUNDO
COMEÇA AGORA AQUI NA POE
SIA DO HOMEM
NOS CONTOS Q
UE ESCREVERA
M PARA FUGIR 
EM DA REALIDA
DE EM QUE SE E
NCONTRAVAM

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

-

Ao fechar as portas de minha mente,
não quero que se perca em solitude,
em pesadelos obscuros, em meu sangue
desbotado como a bandeira desta pátria.

Quero que entre com seu céu em meus olhos,
negros como o próprio céu noturno.
Quero que revogue as sombras, que afaste de si
o mundo cruel através do que te caracteriza: o amor.

G.

Talvez teus olhos regressem a sua
quietude enquanto eu, calmo e distraído,
persigo a palpitação de teu coração amarelo,
o doce soar de teus lábios, o riso que me contagia.

Assim, tu e eu procuramos em todas as coisas,
o que amamos, mas ainda amamos pouco.
Não temos um ao outro, não temos a esperança
dum mar esverdeado, do céu infinito, de um amor inefável.

Estamos cegos: ainda buscamos na estirpe,
um simples amor prestante, baseado na saudade;
ainda temos vontade, porém calada, porém triste,

desanimada e resistente. Resistentes estamos.
E já não sabemos se um dia nossos olhares se encontrarão,
dizendo um ao outro um sutil e característico "eu te amo".


quarta-feira, 20 de agosto de 2014

-

Amor, não é amor se escrevi
vagos poemas de profundo sentimento,
para te mostrar a ti
por um caloroso e breve momento?

Não é amor se me fiz ausente para estar presente
em teus sonhos, desejos e vontades?
Por meio de palavras errantes e eloquentes
te proporcionei instantes de doída saudade.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Narciso

                     Cruzadas, tuas pernas.

                                                                Embaraçados, teus braços.

                                   Um jogo de perguntas sem respostas.

                                                                          Beijos, carinho e abraços.

               Delator, teu coração.

                                                                    Perdido, em tua amplidão.

                          Simples, a poesia.

                                                                    O fim, o começo e o desvario.

                                         Solitude e melancolia.

                                                                                  Corpos destinados ao vazio.

                     Delator, teu coração.

                                                                                        Perdido, em tua amplidão.

                                  O que o homem faz,

                                                                          senão encontrar em ti

                                      conforto, amor e paz?


                Lábios tocando a face.
                   
                                                                           A trama, o som, o desenlace.

                        Acariciando a própria tez, Narciso.


                                                                Um poeta indeciso...

                                                                                        amando sempre como na primeira vez.

domingo, 17 de agosto de 2014

O Cavalheiro dos Sonhos Delirantes

Vestido de negro, caminha só por licencioso festim:
os lábios mudos, os pés, opacos, marchando lentamente,
os olhos desatentos, as melenas esvoaçantes e a mente
triste. O cavalheiro dos sonhos delirantes vem a mim.

Pálido, arrogante e deveras refratante, espelha, dormente,
o que se foi antanho. Vive do passado, e passa, assim,
por todos: de soslaio, ególatra, soberbo. Eu, a mim,
somente digo que jamais serei o cavalheiro irreverente.

Porém, antes de ser quem sou, fui um tanto parecido
com o que se propõe a ser quem não se quer
ter por perto - um adversário, um desafeto, um inimigo descosido.

Mas, ainda que tenha a oportunidade de mudança,
nem todos estão preparados para tal, por tudo que isso requer.
Somos escravos da rotina, de nós mesmos e da matança

que vem de dentro para dentro.



Inerência

Não procuro as palavras
que escrevo para ti
em tua própria existência.
Procuro em tua amplidão,
em teus anseios e vontades,
em teus beijos e alardes,
em tua despedida e acuidade.

Não procuro versos em teu corpo.
Não procuro estrofes em tua mente.
Se estou ausente, estou, somente, um pouco.
E, pouco a pouco, sou parte tua inerente.


sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Enfim

Andaste pelas sombras das vielas
de meu coração amiúde, e nele
viste homens ocos e solitários
desprendendo-se de minha visão
turva, oca, diminuta em sua plenitude.

Caminhaste por meu vasto império,
minha pequena monarca,
onde tudo era cinza, perdido,
silenciado, mas jamais decaído,
alheio, indiferente, abandonado.

Vacilaste, meu amor, pela penumbra de meu ego
altruísta e ególatra. Todavia, nada era meu,
senão as perguntas que fazia a mim
mesmo para permanecer são.

Aqui, onde os olhos desbotam em lágrimas,
vejo a ti qual um vulto resvalado,
mas estou ofuscado por teu brilho,
ensimesmado, lento, apaixonado...

Porém, neste vale de dimensões
e depressões infindas e infinitas,
só eu sei que és a cura para a morte iminente.

Só eu sei que és o segredo
e o enigma, o vulto e a luz,
o amor e a paz de minha doída mente.

Perdoe-me por amar-te
e por te mostrar o que se esconde em mim.

Mas, para amar e receber amor,
deve-se conhecer a profundeza daqui...

onde os olhos começam a brilhar por ti.

Piano Concerto No. 1.

Tchaikovsky tocava em meio à penumbra
das vielas errantes de tua mente,
satisfazendo um gênio sibilante, maldoso e indomável,
que se tornava uma leve criatura dócil.


terça-feira, 12 de agosto de 2014

Estirpe

Lâminas de sol se dispersam
em sombras ineloquentes,
frouxas, arrochadas,
sombras coléricas de olhos
melancólicos, tomados pela
lágrima, angústia e agonia.
Homens vazios, repletos
de insatisfação estrondam
o frêmito entre as mãos
e o pulsar do sentimento.
Mas não o alcançam.
Estão distantes, ocos,
perdidos em pensamento,
em suas mentes frias e
igualmente trêmulas.

Nem mais um passo!
O reino da morte se dispersa
em solidão e quietude.
Os olhos ainda escorrem
pouco a pouco, gota a gota,
os sentimentos alheios, sem brilhar,
sem sofrer (agora que quase todos
se foram), sem ser digno de pena,
honra, ou qualquer outra coisa.
Todos, juntos, tateamos o solo
à procura da sede e fome.
Contentamo-nos com o pouco,
com o mistério da ilusão
e também do espírito oco,
sem alusão à mais alta estirpe
da imaginação.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

-

espelhos iluminados
transparecendo o lado de fora
sorrateiro
eloquente
resplendendo o que se vê agora
as luzes da cidade
desbotando em agonia
uma acende
outra apaga
assim a vida
assim a morte

domingo, 10 de agosto de 2014

Farto

Teus beijos insípidos, doídos
e, ainda, inefáveis,
resultam na ânsia de quem vive,
na angústia dos suicidas
e na superestimada trajetória.

Tal o destino imerso
em profundidade, e perdido em versos
da mais tenra e obscura soledade.

Imensas são minhas palavras
- pequeno, meu talento.
Não sou eu a quem escrevo,
- não me hei de esquecer;
não sou eu a quem descrevo,
- ainda hei de renascer.

Tal o destino imerso
em sede e fome - não há tempo, em versos,
para beijos, redes e renome.

Somos apenas um:
Uma máquina capaz de conectar-se a outras
para, juntas (e somente juntas), moverem a indústria.

Todavia os neófitos de plantão irão abraçar-se para desconstruir,
e, em seguida, destruir toda a constituição de uma ideia,
a qual parte do princípio de que eu sentei aqui, onde estou,
e tu aí, onde estás, e ambos - nós dois - estamos lendo
e escrevendo, em nossas cabeças, a história de um poema.

Eles dirão... não... não dirão.

Nem quero saber se dirão...

Estou farto (novamente)!





Desenlace

Assim que se encerra a cuspida beleza,
a maciez retorna à terra molhada; destreza
morre nos braços de eternidade,
alheios e amiúdes, enquanto Fantasia manipula e ilude
os que vivem da realidade.

Passar em meio ao feno,
deglutir e digerir o prado e o veneno,
engolir e vomitar, beber sangue
dos riachos e fontes de seu coração pequeno,

reconhecer as folhagens, dos campos e aves,
plumagens optam por seguir meu caminho, ave!,
uivar aos passos desgastados e mutilados
de meus pés soltos e doídos.

Não como, senão quando nasce,
levo comigo sua alma, seu amor,
seu perdão, sua classe.

Não como, senão sua face,
três milhões de sorrisos tortos
e ainda a trama e o desenlace.

Estou farto!

Assim que se encerra a cuspida beleza,
a maciez retorna à terra molhada; destreza
morre nos braços de eternidade,
alheios e amiúdes, enquanto Fantasia manipula e ilude
os que vivem da realidade.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

-

Agrada-me contemplar teu sorriso resplendendo a alegria de, talvez, um dia me ver a teu lado. Ainda não a conheço. Não sei teu nome. Não sei de onde vens ou até onde desejas chegar. Contudo, gosto de imaginar nosso mínimo império construído ao longo de diminutas cidades, repletas de vielas, inundadas de amor e curiosidade. Gosto de circular pelas ruas de nossos corações entrelaçados para conhecê-la melhor... e, na brancura de meu olhar, gosto de refletir minha imagem no amarelo de tuas melenas, sonhando estar a teu lado também.

Amo-te

Amo-te: é minha canção.
Não como Neruda,
pelo direito e o avesso,
sem tom nem tino,
pelo esquerdo e o travesso
som do desatino.

Amo-te como o mar
de teus olhos, 
que inundam com beleza 
meu coração claro e escuro;
repleto em toda sua profundeza,
meu coração aberto... e obscuro.

Amo-te no vazio
e na plenitude,
no silêncio e na saudade,
no vozerio e na eternidade
de um calmo amor amiúde.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

A última flor do jardim dos poetas

Flores de amor se foram para nunca mais.
Deixaram rastros e maus agouros,
foram-se os lírios, botões e louros,
deixaram o que se espera de um "nunca mais".

Entretanto, todas as memórias serão minhas, somente,
pois apenas eu as vivi e revivi
como se ainda me visse ao perceber que morri
- nas palavras que nunca disse (a minha querida e solene mente)

E a tocha que crepita nas sombras de alguém
ou qualquer coisa - sem conhecimento,
suspira e transpira um último alento
na memória de outrem.

Não devo apressar-me a entender
que o que se foi se foi e nunca irá voltar,
mas posso, ainda, em minha mente recrutar
pensamentos de outros tempos... para relembrar ou reviver.

Saudade.


segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Egoísmo

Ao reviver peças de minha própria existência,
quantifico o que foi de suma importância
e o que deixou de ser para mim.

Ao reviver peças de minha própria existência,
quantifico o que se esvai em palavras
e o que deixou de ser, assim:

O que se foi, permanece em mim
como se fosse presente de alguém
ou por alguém - que não eu.

O que permanece é a mesma coisa,
porém inefável, portanto qualquer coisa
que eu julgue inerente a mim.

E, o que se vai, se foi o que era,
se vai, e jamais será seu,
quero que se expluda!, que se foda, o que não é meu, ou para mim.