sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Pelo medo do invisível

teu amor parece ausência.
ocultas tua voz em breves
silêncios que são preenchidos
pela vastidão de tua mente:

perdendo-se em pensamentos,
encontrando-se na arte,
esquecendo, aos poucos, tormentos,
amando o amor que sente.

teu amor parece ausência,
parece que, gota a gota, desfalece.
"está vivo, todavia, está sorrindo", é o que dizem...
mas, também aos poucos, adoece:

sei que não terei teu coração.
serei apenas mais um em tua vida.
um alguém especial, mas substituível.

sei que não compartilharei tua emoção.
não encontrarei teus lábios, solitários;
não amarei outrem por medo do invisível.

-

teu choro e o rio de lágrimas que se forma...
tua face e o amor, que ainda me transforma...
à estirpe dos Usher, as sombras de teus olhos, lascivos,
a mim são o véu que cobre teu rosto, nocivo.

teus braços choram o riso de escárnio em meu semblante,
e não penso em exultar de felicidade por perder-te, amante,
mas já não posso deixar um sorriso escapar 
se já não te encontras em ti mesma por não saber amar.

Vida

a vida, que conheço e detesto,
é uma viagem incógnita
aos vizinhos, solitários,
aos mortos em batalhas

contra si mesmos
e aos que escreveram
poesias para mim
sem mesmo me conhecer.

a vida, que conheço e detesto,
é uma forma de aversão
a uma forma de protesto
- seguida de um punhado de retidão.

é o todo do pouco, um pouco de nada.
e vou escrevendo palavras jogadas ao vento
enquanto sigo em frente na árdua escalada
dos versos sem métrica ou rimas que ainda invento.

a vida, que conheço e detesto,
em contrapartida, trouxe a mim
aquela garota que colhia flores
num jardim desbotado em amarelo.

ela dizia que me amava...
e eu a amava também...

mas a própria vida a levou
e sua morte me transformou num poeta maldito.

Estava onde estava e cá estou,
e, então, percebi que estava aflito

sem o amor que me amava,
sem o amor que me curava
à medida que ia vivendo.

a vida, que conheço e detesto,
só podia ser obscura e solitária.
assim como os vizinhos,
como as formas disformes pelas quais tanto lutei,..

pelos mortos em batalhas contra si mesmos... assim como eu.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Rancor

Desbota-te por teus versos
de puro egoísmo e obsessão.
Temos problemas: somos emoção
e, na imensa imensidão, estamos imersos.

Os momentos de prazer e agonia
foram diluídos em sangue e vinho.
Somos fruto da miséria, do ardor, do linho,
porém, antes, na densa e tenra melancolia,

fomos amantes. Fomos um para o outro
o que um não pode ser sozinho.
E esqueceste que fui importante, que te dei um caminho...
uma razão para estar viva... um pouco do meu pouco.

E, agora, no ápice das angústias e depressão,
estás internamente morta. Estás decididamente pronta para morrer.
Eu, como bom orgulhoso, apenas olharei teu ser
dissolver-se em poeira, em poesia, em rejeição.

Alegria

teu rosto reduzido
a pó e sofreguidão
já são fragmentos
de meu próprio sonho,
que se torna realidade
à medida que teus
destroços vão caindo
no solo, fertilizando
meu ego e contentamento.

o mar de teus olhos
permanece esquecido,
permanece frágil,
uníssono, sensível...

torna-se areia aos poucos,
e, da poeira, somente
extraio laços,
lembranças, poesia,

sorrisos.

domingo, 23 de novembro de 2014

Dois sonetos imperfeitos

Um dia, longe do presente que se estende
pela carcaça dos que projetam o futuro,
estarei certo de minha imaturidade ao ficar maduro,
estarei esquerdo, pensando no que minha poesia defende.

percepções sobem-me à loucura,
projetam-se pelo corpo inteiro,
assemelham-me à morte do coveiro
que ascende à solidão e perpetua a armadura.

Os versos, imersos em saudade,
os sonhos, o simples e sutil,
o homem oco e viril,

a boca entreaberta beijando
e seu nome chamando...
mas ainda você não me viu.

Um dia, longe do presente que se enrola
pelos detritos de minha personalidade,
serei eu, serei você e toda a sociedade
para dizer que um dia "cantei a bola":

um homem grande, cheio de malícia
e sentimentos corporais será visto.
então, meu ego estará listo
para subir as paredes e encontrar-se em delícia.

Os versos, ainda imersos e caducos,
estarão podres, envelhecidos e sem poesia,
mas intacta permanecerá a melancolia

em que se encontra meu eu.
pela qual digo que já deu...
pela qual grito em uma  tenra e dolorosa agonia.

Ou o desespero, ou a fantasia?

olhos tortos
a
boca suja
invadem
a mulher que passa.

não são os meus ou seus,
mas os do cara
que caminha
no
sentido oposto

que idealiza
que sonha
que espera
que sorri

pensando em ter uma grande bunda para si.

Deixe ser

Descobri o preconceito
através de meus olhos
quando me deparei com uma
pessoa negra pela primeira vez.

Logo, aboli a consciência
preconceituosa e passei a tratar
pessoas como, simplesmente, pessoas.

Não há beleza ou feiura,
não existem raças ou etnias,
não distingo gordos de magros,
e não sei o motivo desse caos sexual
em que vivemos.

Deixe-os ser...
Deixe que sejam humanos...

Amo-te

Amo-te com a esperança de minha juventude.
Amo-te sem fim, sozinho, amiúde.
Amo-te por diversas razões:
uma delas é poder te mostrar minhas tão restritas emoções.

Amo-te, enfim, pelo vento leve e breve
que traz teu amor a mim numa calmaria,
num silêncio, num instante de melancolia,
como a respiração de Deus dizendo:
"sejam um para o outro o que um não pode ser sozinho".

Estilhaços

Nos estilhaços do espelho,
refletem-se o sangue, a nuvem,
a face resumida em fragmentos,
vislumbrando meus mais tênues desejos
de ganância e vastidão.

Sou o plano do plano da solidão;
sou a instabilidade egocêntrica da retidão.

Sou o fogo que consome a esperança.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

-

Um simples verso
                         de
uma
poesia cansativa

para olhos que refletem
                               a
janela vazia
                      a
janela
               e
a melancolia

do poeta maldito.


Um simples verso
                       e
meus
olhos tornam-se outras
janelas para um mundo
vazio, entrevado, sombrio.



Um

                      simples
 
                                                   verso

                                                                   d i v i d i d o

                                em

                                                 fragmentos

                                                                                  de
solidão.



Um simples verso amarelo, contido,
ilusório, pragmático e divertido,
rimado, adjetivado, ametrificado,
mas cheio de um sujeito descontraído.


Um

simples

verso

pra ir pra



puta que pariu!

Resumido

Estive esperando a hora certa
para dizer palavras inexatas,
para derramar lágrimas discretas,
para recriar a morte a mim inata.

"O sepulcro te aguarda", diziam os coveiros...
e iam-se reduzindo a carne a números.
"A morte se aproxima", jaziam nos lodeiros,
"e vem para levar teu sangue e úmeros".

Estive pensando na carne fragilizada,
nos demasiados poetas malditos,
na mente que procura ser silenciada,
nos filhos da poesia e nos proscritos.

"Sou mais forte que todos vocês",
eu dizia pensando ser superior à treva que me consumia.
"Serei gigante, imbatível, irascível - como era antes de vocês...
 mas permanecia resumindo meus pensamentos à solidão e melancolia.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

o triste fim da lacuna preenchida

um espaço
que
se encerra
ao
ser preenchido
pelas
palavras
do poeta tedioso

uma lacuna
que se
transforma
ao escrever
qualquer coisinha

uma letra
outra
estrofe
minha

versos sem
sentido
para um
leitor
desgostoso

Reflexão do mesmo quarto

sentado
no
mesmo quarto
a mesma vida
vivo

estou pronto
a ponto
de
encerrar
as
angústias
de
quem vive

nada
irá
me deter

nem mesmo
o amor
a
melancolia
o sentimento
a
poesia

sentado
no
mesmo quarto
a mesma vida
vivo

sem poemas
versos
tortos
imersos
em
saudade

somos todos
sabedoria
inata
e
behaviorista

somos todos
superestimados
por
nós mesmos

o ego
é
nosso inimigo

mas
ainda somos
seres
do eu

venha fugir comigo

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Naufrágios

Seus olhos, amor, sua angustiante felicidade
abandonarei. Retirarei-me para abrigos do ser
na concretude de sua expansão inata,
e farei de mim lorde do mundo que surge aqui.

As estrofes que escreverei, ingratas,
serão apenas um adorno à melancolia,
que se expressa de forma contagiante
no odioso poeta que aqui escreve.

Meu mundo será composto, será oculto.
E ninguém, ninguém, exultará a alegria...
talvez, assim, ela se condense e se espalhe
ao redor dos naufrágios do ser.

Sua alegria, seu amor e sutil desentendimento
serão, para mim, como um coração lamacento
que pulsa, que brilha e que envolve... mas envolve
o lixo, apenas, e, do pouco, se faz um vadio sentimento.

sábado, 1 de novembro de 2014

Dos espasmos e melancolia

Não estou acostumado com espasmos de alegria.
O que canta em mim, o que ama, o que perdura
é a nefasta e angélica sensação da sutil estrutura
que se faz da dor, do sentimento, da melancolia.

aqui - ou em outro plano,
meu coração, demasiadamente humano,
respirará sofregamente o mundano
ego que a mim proporciono.

e este corpo, insuficiente em sua fala,
cantará somente a canção do amor
enquanto perdurar sua essência
de ser.