terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Um amor aprisionado

Os espectros da noite não me amedrontam.
A temerosa dilaceração do coração também já não importa.
Os uivos, latidos e balidos de meus colegas de cela são uma sinfonia para minha surdez.
E, aqui, tudo que se vê é a podridão de meus olhos castanhos.

Deitado em meus trapos e lixo, somente vejo aquelas pudicas putinhas de treze ou quatorze anos
devaneando seus primeiros e precoces desejos sexuais.
Vejo os santos cafajestes, todos iguais, à espera de sua primeira boa foda...

Nenhum deles escapa de meus olhos pérfidos de poeta maldito.

E me rio. Chego a me mijar de tanto rir!

Os uivos ficam mais altos,
Os latidos se tornam insuportáveis
Os balidos se impulsionam contra mim.

Mas nada é capaz de me atingir.
   
                                                        Não ainda.

Vejo, daqui da cama, pela merda daquela fresta, que jorra claridade em minha entrevada e oculta face, a podridão de meus olhos castanhos refletida em espelhos encardidos, embaçados, empoeirados.
As crianças de outrora se fodem sem escrúpulos.
O tino se foi faz tempo. A jovialidade imergiu em perdição.
E eu, anacrônico, somente quedo observando o que sempre previ.

Deitado nos meus trapos e lixo, vejo meus colegas de cela dormirem.
Ainda não os sufoquei em seus sonos pesados, pois preciso de suas companhias.
Preciso me sentir elevado, egocêntrico, melhorado... e somente filhos da puta como esses podem me proporcionar tamanha característica de meu eu.

Se fosse rico não estaria aqui. Estaria fodendo como aquela pirralhada, fora deste muquifo.
Estaria dormindo numa cama, com uma puta ou duas. Estaria escrevendo poemas para alguma mulher de algum lugar qualquer.
Mas, enquanto a grana não chega e somente tenho esta maldita fresta para olhá-los, posso imaginar como seria sufocar pelo menos uma daquelas crianças metidinhas.

E, para mim, essa seria a forma mais sincera de um amor aprisionado.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Poética - Paulo Mielmiczuk






Pessoal, meu primeiro livro já está à venda!

"Obra de estreia do poeta Paulo da Costa Mielmiczuk, Poética é o conjunto de poemas concretos, nostálgicos, idílicos e melancólicos do autor. Influenciada por Arthur Rimbaud, Lord Byron e Pablo Neruda, principalmente, a poesia contida neste livro é marcada por verossimilhança e traços do “teen spirit”. São 61 poemas diversos, uma peça e um conto que reproduzem a leveza, o amor, as angústias e as intrigas de nossas vidas."

Vocês podem comprá-lo no site da editora Multifoco ou no da Livraria Cultura:

http://editoramultifoco.com.br/loja/produto/poatica/ (Multifoco)

http://www.livrariacultura.com.br/p/poetica-15063584 (Livraria Cultura)

domingo, 28 de dezembro de 2014

Minha miséria

Minha miséria, a própria poesia, é a forma que encontrei para expor o que vejo. Meus olhos de poeta
já se encontram gastos, porém novos, ainda mal usados. Contorcida, a poesia das coisas
caminha para alcançar a luz. Mas minha luz já se encontra entrevada.

O armário semiaberto, as gavetas destrancadas, os umbrais... todos corroídos por traças. 
A tristeza, o silêncio, o ócio e o tédio, todos unidos na maior festança. E o dia lindo lá fora, com poucas nuvens, um véu anilado, os prédios, ainda estáticos, e o gorjear dos pássaros e garotos cantando músicas de Natal.

Aqui, sou docemente infeliz. As lutuosas flores de sonho, que também pensavam ao sol, que também viviam contorcidas, distorcidas e desbotadas... todas se foram. Só me restam restos e a solidão.

Como trazer as palavras de volta?

                                                                     Como trazer vida para esta casa de Usher?

Meus olhos, embaçados e sem perspectiva, só vêem a desgraça da vida. Somente escrevem, descrevem e codificam meu desejo de não existir. Quase extasiado, só quero existir no meio de minhas flores mortas. Só quero ouvir músicas tristes e quedar sozinho em meio a elas... 

Acho que é o que me preenche de vida: 

minhas flores, 
minha poesia, 
minha tristeza, 
                        meus amores.

Nota

Atormentado, solitário, apático e maldito,
meu pétreo coração, incapaz, vil e restrito,
se espelha no poeta para que sua existência
seja destinada aos sofrimentos, às memórias,
aos tormentos, que já se laboram nas trevas,
sombras e lúgubres e tenros e tênues momentos
de tristeza, escuridão e isolamento.

Eu te amei, querida, apesar de ti mesma

À noite, quantas vezes tenho eu sentido tua presença,
mesmo que os trabalhos da morte tenham renascido em ti?

Quantas vezes pensei, sonhei, sofri... à espera de teus sóis
de almas inquietas, teus ares mudos de desconfiança,
teus lutuosos sabores e perfumes?

De falta em falta, morreste sem eco, eco de meu coração.

De gota em gota, adormeceste em teu leito.

E eu te amei, querida, apesar de ti mesma; apesar de minha doce solidão.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Versos a L. e S.

Como estive só, L. e S.,
pensando em todos os raros divertimentos,
os densos, tênues e temerosos tormentos,
que invadiram a cabeça dos versos, nus,
jogados ao Letes sem piedade - para uma morte faminta,
descontrolada e incitada pela poesia morta do poeta
agoniado e igualmente desfalecido.

Como estive pensando em vocês, L. e S.,
enquanto ouvia um blues surdo,
um jazz apático e melancólico,
uma canção desesperada deste poeta.

Entre passos solitários, passei pelas trincheiras de seus corações sem ser visto ou descrito.
Perambulei por aí afora, vi luzes subtraindo-se às sombras,
mas não os encontrei.

Onde estão?

                                               O que fazem?

                                                                                            Quem são, afinal?

Como sofri, L. e S.,
perdido na discórdia, esquecido no esquecimento.
Beberam de meu sangue. Ocultaram-se em minha memória
e, miseráveis, minhas estrofes desbotaram-se em sua própria tinta.
A barca de Caronte faz seu último trajeto esta noite...
o nevoeiro encena sua última tragédia...
É preciso partir, é preciso deixar a margem nebulosa e caminhar até o infinito.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Poema de Natal

Contemporâneos anacrônicos, desumanos,
massacrados em arrastadas gargalhadas,
nus, sombrios, lúgubres e dopados de liturgia cristã.

O último dínamo acelerado pela melancolia e ansiedade da noite contrastam com o amor,
que morreu tentando alertá-los de que o poço ainda se aproxima,
ainda flutua sobre suas cabeças enquanto uma mente pensa em se opor e impor a outra.

Sozinhos. Estamos sozinhos, de fato. Porém, à tarde, que se encerra pelos trabalhos do tempo,
atraímos uns aos outros... esperando, somente, sós, o fatídico despertar da noite em nós.

Contemporâneos, anacrônicos, escutam o grito abafado em travesseiros, o choro quieto e soluçado
das crianças na guerra. Elas se escondiam aqui.
E ainda penso, ainda, em suas vozes esganiçadas, distorcidas, degoladas...
e essas lembranças corroem meu próprio dínamo acelerado, que, pela primeira vez, agora,
desacelera acerca de todos os mistérios lenitivos da psicologia humana.

Enquanto poetas resplendem versos de agonia, miseráveis, cercados de adornos e alegorias,
o restante é consumido pela cegueira.
Poetas têm olhos universais, "olhos de anjo". São "malditos mas não são cegos".
E insistem em calá-los, pois a graça da vida vem de Cima - dos Grandes.

                                                                                                   Não pertenço a essa estirpe.

Não sou filho da mesma raiz. Sou entrevado, oculto, contido... mínimo em palavras transmitidas
pela fala, porém perspicaz e astuto no olhar.

E as pessoas, ao invés de se oporem às outras - quando devem -, se negam a levantar um músculo, a acelerar seus dínamos, a erguer palavras agressivas aos que merecem.
Preferem o ócio, preferem adorar a si mesmas,
como fossem de Cima, como fossem parte de suas crenças;
- esquecem-se, todavia, que suas crenças não têm crenças, e que, se querem se libertar, precisam parar de crer no vazio, no nulo, no infinito.
Enquanto adoram a Deus (por desejo ou imposição da "Verdade"?),
enquanto veneram antigas esculturas talhadas à mão, enquanto deixam de questionar a existência de tudo a nossa volta, esquecem-se de que tudo é humano.

E o próprio homem é descrente em si!
Não ama, não cria laços afetivos e carinhosos...
deixa o interesse consumi-lo, deixa as supostas provas do que acredita guiar o que acredita.

                                                                                                    Mas deixemos crenças de lado.

A educação desfalece em ensinos impositivos. Não se ensina um ser a pensar sem que haja questionamentos, perguntas, dúvidas.
Meus melhores professores foram os piores, pois podíamos conversar à vontade com eles sobre assuntos variados e receber, em troca, uma parcela de culpa por não estarmos nos esforçando na matéria dos camaradas.

Agora, com gritos dos mendigos à porta, não percebemos o sol, que brilha uma vez a cada dia. Não percebemos que nossa realidade é, muitas vezes, mais confortável do que as outras, - a não ser que se trate de um dos Grandes -, não estamos preparados para o tempo.

Morrer ainda é difícil para os contemporâneos anacrônicos.
Não para nós, epicuristas.
Não para nós, poetas malditos.
Não para nós,
                           pérfidos em nossas mãos,

                                                            com as quais escrevemos as palavras
que dizem ser miseráveis.

sábado, 20 de dezembro de 2014

-

era a fissura celestial em meu coração.
não precisava de muito.
a timidez não permitia sussurros descompromissados.

havia certa conexão entre o dínamo acelerado
e as lôbregas melenas deste e desta poetisa.

seus braços, curtos, escalavam os meus sem me tocarem.
e eu subia em seus olhos para ver até onde se estendiam seus horizontes.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Paradoxos: uma mente do inferno

Gosto de falar sobre minhas mágoas, porque ninguém as compreenderá. Tudo começou, no império catastrófico e nebuloso de minha mente sombria, quando resolvi bancar o herói de mim mesmo. Nesse tempo, ainda não havia saído de casa. Não havia fugido – devo ressaltar – de meus familiares e suas respectivas loucuras e manias. Aquilo tudo me deixava doido: não pertencia àquele lugar. Não era parte da mesma estirpe, e minhas raízes se faziam ocultas, a meu ver - coberto pelo véu da depressão. A partir de meu enlouquecimento, passei a tratar os outros mais rispidamente, numa secura infernal, que despertava os desertos mais áridos e desumanizados, em minha língua pérfida e esgotada. Mas, é claro, falei mais do que devia muitas vezes. E isso impediu que ficasse quieto – mesmo sendo fundamento da conversação saber calar-se – nos momentos de maior tensão e caos, em minha cabeça. Nunca fui muito de conversas... passei minha infância isolado, em meio a livros e brinquedos, que adotei como melhores amigos. Os livros, quase sempre considerados muito densos para minha idade, me fizeram envelhecer mais depressa, e isso fez com que minha mente sentisse as dores de uma infância triste e solitária.
Gosto de destacar que fui triste, mas talvez isso seja mera ilusão. O presente nunca foi difícil de lidar. O passado e as dúvidas e incertezas sobre o futuro é que formaram um longo tormento, que, depois de algum tempo, esvaiu-se de meu controle.  Quero dizer, é possível sofrer e arrancar tristeza de memórias e lembranças. Meu caso é diferente, todavia. Minha mente criou armadilhas e sentinelas para deturpar o que vivi, o que interpretei, o que pensei e, por fim, como agi. Por que gosto de destacar, então, que fui triste? Pergunte a um psicanalista.
Por um breve momento, pensei estar em declínio, porque os que, supostamente, enlouquecem são vistos com maus olhos pela sociedade. Porém, algumas pessoas ao meu redor me disseram que aquilo era uma fase, apenas. Uma fase... que merda é uma fase? Aquilo estava me consumindo, tomando controle de mim e eu não precisava de alguém para dizer que aquilo passaria. Na verdade, eu não queria que passasse. Não queria que minha liberdade fosse posta em jogo ou que meus sentimentos fossem castrados por coloridos comprimidos. Quando estava começando a ficar “curado”, eu regredia propositalmente – sempre com um impacto cada vez maior. Na primeira vez em que isso aconteceu, fui encontrado bebendo uísque com o maldito Luvox. Lá se foi uma caixa inteirinha... e eu fui levado ao hospital para fazer uma maldita lavagem estomacal. Na segunda... ah, não quero falar sobre isso. É um tanto quanto chato contar intimidades.
Houve um período em que tive amigos. Todos eles já se foram, infelizmente. Mas, nessa época, lembro-me de andar cercado – coisa que sempre detestei, porque é como estar sozinho numa multidão – e sempre no meio, como se fosse o líder do grupo. Contudo, não havia líderes, porque o grupo se diluía à medida que nos aproximávamos de outras pessoas. Ninguém queria ser visto a meu lado. Ninguém queria me ter como amigo depressivo, pois a carga negativa que eu depositava nos outros era excessiva.  A culpa nunca foi minha, a causa de todo meu sofrimento era a porra da sociedade e seus paradigmas ultrapassados. O povo saudava minhas mágoas com a mesma frequência que a merda saia de sua boca.
As digressões não atraem olhares alheios a mim, e as contradições são frutos de meus poemas mentais. Não consigo falar sem mudar de assunto. Não posso deixar de mudar de assunto... caso contrário, tudo fica muito chato, muito falso e diluído. As conversas mais ricas que tive foram quando o sujeito falava e, de repente, não estava mais falando: estava me contando uma história, uma crônica, uma narrativa qualquer com assuntos variados sobre um tema central. Não entendo o motivo pelo qual as pessoas se fascinam pela objetividade. O subjetivo é muito rico. É através dele que entramos na mente delas, entendemos os caminhos que elas fazem para chegar a uma interpretação e, a partir daí, entendemos o modo como elas agem.
Gosto de ficar sozinho. Por isso, fugi de minha realidade, adentrei os pensamentos e à insanidade imergi como afronta à sociedade concomitante aos meus defeitos. Sim, sou imperfeito. Mas a perfeição se estende sobre mim numa súplica agoniante, pedindo que eu atenda suas preces, suas malícias e impossibilidades. Portanto, cobro de mim mesmo o que não alcançarei. Ou me esforço ao máximo... até que meus limites dizem “basta”. Gosto de ficar sozinho, e, por isso, me encontro nesta casa abandonada (que é minha cabeça). O que atravessa o pântano deste cemitério de sonhos, sombrio, escuro e nebuloso é digno de pena. Para que chegar tão longe? Para que invadir meu espaço? As pessoas são muito espaçosas. Querem se expandir a todo custo. Eu não. Chego a me considerar desumano, porque só preciso de espaço dentro de mim. O resto vem com o tempo, com as conquistas e delírios.
Gosto de pensar melancolicamente. O negativismo é mera consequência. E, se afasto as pessoas por ser assim, acabo percebendo que não eram para mim. Acredito que devemos gostar dos outros pelo que eles são. Não pelo preconceito que a sociedade incute em nossas entranhas, mas pelo caráter, ações e exemplos que o indivíduo dá.  Aprecio quem se entrega aos outros, quem vive humildemente, nos confins e buracos mais escondidos do universo, porque não sei ser assim. Não sei ser caridoso, generoso ou, até mesmo, bondoso, simplesmente. Não está no meu espírito. Por aqui, o ego fala mais alto; a maldade e instabilidade impedem que eu me torne uma pessoa boa.
Gosto de imaginar o final. Não o após, pois quero somente o durante – sempre. Quero aqueles minutos silenciosos e perspicazes entre a vida e a morte... pelo menos sinto alguma coisa, mesmo que seja sofrimento. Gosto disso. Somente com causa, entretanto. Assim como o amor, que me parece deveras interessante, o sofrimento me é agradável. Vejo com bons olhos. Vejo com um sorriso estampado no rosto. Portanto, quando estou bem, estou mal e vice-versa. Como já disse, não sofro pelo presente. Não crio outra dor e não sofro novamente o que já foi sofrido.  Fato é que quase nada me atrai. Por isso, listo o que me agrada. E, neste rol de alegrias, preciso ressaltar que a tristeza faz parte do que chamo de “essencial”. Afinal, como ser alegre sem tristeza? Acho até que os mais tristes são os mais felizes, porque, quando têm um momento de felicidade, sabem mesmo que estão felizes. E eu gosto de gente feliz, mas moderadamente. Acho que só ao lado de gente assim é que completo meu complexo paradoxo. Quanto à gente negativa – é outra história – não tenho opinião, pois ainda não desconstruí isso em mim.
            Em suma, gosto das pessoas. Elas acabam me irritando, todavia. Preciso de espaço para me expandir em mim mesmo – e elas, para os seus arredores. Preciso de espaço para me compreender e para compreender os outros. Minha mente infernal, lúgubre e lôbrega, porém, já não se desenvolve, não pensa como antes. Ainda vejo o véu da depressão, ainda me entrego aos trabalhos da quietude... e ainda me vejo isolado e diferente dos demais. O que fazer? O que fazer? Acho que só me resta sentar para escrever mais um poema destinado a mim mesmo, em minha mente.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Uma mente do inferno

Herdei de meus antepassados poetas a aura do profano: a mentira, a cólera, luxúria, preguiça e, como não poderia deixar de ser, a instabilidade e revolta. O que vem de Cima jamais me atingiu, mesmo quando estava no auge de minha ignorância nefasta e pérfida. Abaixo, somente amigos e companheiras de inferno menearam seus corpos, numa provocação angustiante... até que os coloquei sob meu próprio e pétreo coração amarelo.
Nunca tive problemas em arranjar pessoas que estariam de acordo com minhas propostas. Todavia, foi difícil me livrar dos ignóbeis e inúteis mal intencionados e deveras atraídos pelo poder. Nunca quis isso. O que me atrai é liderar minha tropa contra a estirpe dos que creem no além e aquém-terra. Quero ser reconhecido como líder, mesmo que, para isso, precise deixar de ser protagonista de minha própria história.
O profano me atraiu quando era apenas um menino de coração aberto ao mundo e suas complicações e belezas. Tudo parece ter sumido, entretanto. Meus olhos são máquinas de destruição. Destruo e desconstruo tudo que crio ou criei para, depois de muito, perceber o que é arrependimento.
Herdei de meus antepassados poetas a arte de mentir em palavras. Seus olhos, esmeraldinos e profundos me conquistaram e, a partir daí, passei a escrever mentiras sobre quem eu era, sobre o que sentia, sobre quem amava.
E os amores, tão poucos, mas tão intensos, esvaíram-se e perderam-se em si mesmos. A solidão me encurralou em seus braços e, por conta disso, me ative aos prazeres carnais, porém raros. A garota a quem eu amava teve uma dura morte, e, desde então, não sei o que é amar realmente. Somente tenho algumas diversões esparsas, com algumas atrevidas. E eu as injurio toda vez.
Não é que elas gostem, mas não se importam. E eu também não.
Na mente, guardo paisagens – de todo evidentes – de glebas e outros terrenos onde meus antepassados, subservientes e servis, passavam suas noites, bebendo, fumando e escrevendo suas realidades afora. Mas nenhuma delas me serve. Nenhuma delas é a minha realidade. Por isso, construo e desconstruo imagens – em poemas: para ter uma própria e não-ilusória realidade.
Contudo, existe uma imagem que faz parte do que sou: a velha casa no campo – ou à montanha –, repleta de livros e sem ninguém por perto. Às vezes me canso de conversar, de falar, retrucar, discutir, e isso me deixa irritado, desconjuntado e sensível. “Por ser deveras sensível, desperdicei minha vida”, já dizia Rimbaud. Portanto, preciso de espaço para não ter espaço; preciso apenas de um local agradável para ler e escrever o que vier até mim.
O Céu que me perdoe (se é que Ele existe), mas não irei para lá. Meus amigos e companheiras me esperam na porta do inferno para beber um pouco de uísque e fumar uns cigarros baratos. E preciso encontrá-los, pois já não pertenço a lugar algum acerca de meus horizontes.
Pensei em me mudar. Pensei em levar uma nova vida. Mas nada disso se fez presente. O passado passou a me consumir e o futuro ainda não se sabe. Não sou visionário. Não sou, entre a bruma que oculta a visão brasileira, um maldito visionário. Sou apenas um garoto depressivo, que escreve seus poemas em folhas de papel quaisquer.
O que vem de Cima jamais me atingiu, por isso virei... e me fui embora. Compreendo o que dizem por Lá. Porém, por ser ateu, prefiro emudecer minhas ideias, sentar e escrever um poema nobre e repleto de mim. 

Eco

ainda não ecoei nas mentes brilhantes
que nem mesmo vieram.
e não ecoei, porque não tenho, eu mesmo,
uma mente deveras brilhante e aprofundada.

sou raso, sou tênue,
como todos os que me leem
e apreciam, e até mesmo os que 
não o fazem são rasos também.

ainda não dei meu grito solitário
às brumas brasileiras.
sou apenas eu mesmo,
não sou um visionário.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Paradoxos

gosto de dormir tarde
e de escrever um bom poema
antes de me deitar.

parece que a cabeça suaviza
e a leveza e brevidade
estendem seus domínios sobre mim.

então, durmo, sonho
e acordo no meio de um novo paradoxo:

minha mente, escampa,
consumida pela depressão.

gosto de pensar melancolicamente.
o negativismo é consequência.

e, se afasto as pessoas por causa disso,
acabo percebendo que não eram para mim.

a gente tem que gostar das pessoas pelo que elas são, sabe?

gosto, também, de imaginar o final.
mas não o após - quero o durante sempre:
aqueles minutos silenciosos e perspicazes
entre a vida e a morte.

pelo menos sinto alguma coisa, mesmo que seja sofrimento.

gosto de imaginar o sofrimento,
somente com causa, entretanto.

o amor, todavia, me parece interessante também.

                                             redundância? talvez...

fato é que quase nada me atrai.
por isso, listo o que me agrada.

e, neste rol de alegrias, preciso ressaltar que a tristeza
faz parte do que chamo de "essencial".

afinal, como ser alegre sem tristeza?

acho até que os mais tristes são os mais felizes,
porque, quando têm um momento de felicidade,
sabem MESMO que estão felizes.

gosto de gente feliz, mas moderadamente.
acho que só ao lado de gente assim é que completo meu paradoxo...

quanto à gente negativa - é outra história - não tenho opinião.
ainda não desconstruí isso em mim.

gosto das pessoas, mas elas me irritam.
preciso de espaço próprio e elas, se expandir.

ainda gosto de dormir tarde
e de escrever um bom poema
antes de me deitar.

parece que a cabeça suaviza
e a leveza e brevidade
estendem seus domínios sobre mim...

hoje dormirei tranquilo...
até a porra da melancolia
me acordar novamente.

domingo, 14 de dezembro de 2014

à garota que jamais conheci

                                              partiste sem persistir na vida.

               passaste
                               desta para outra,
                                                           como dizem,

 e meus olhos lacrimejaram

                                               a
   
                                                    essência de tua morte sem fundo.

vazio me senti.

                                          vazio estive.

                                                                                e, só, sofri

 a angústia de viver

                                            à espera de um amor
                       
                       impossível.                        

                                                                              solidão.

                                                                                                  maldito estado de espírito,

                                               maldito sentimento

             incógnito
                             
                                                    e pensativo.

                                                                             partiste sem perceber

                       que eu a amei


                                                                           por uma tarde inteira

                         e um ínterim de alguns versos:


                                                                                      pouco o suficiente para bastar a meu amor;

                         o bastante para ser suficiente a teu fulgor;
             
                                                          e o triste fim de um poeta em ti imerso.

difícil saber se estas rimas gastas,

                                                            excogitam e ponderam meu próprio enigma.

                  inútil refletir acerca dos sofrimentos do jovem poeta.

                                                                                                             

                                                                   perplexidade.


                               a honra imposta aos transeuntes só é dada após a morte,

seja de qualquer natureza.

                                                                 assobios estridentes,

vozes roucas, soluçadas,

                                                           escândalos, treva e... silêncio!

  a mente farta jamais descansa,

                                                                    mas o restante permanece na quietude

                                         dos acontecimentos cotidianos.

                                                                                             meu tempo é escasso, todavia.

quero saber se voltarás.


                                                                                         escreva-me enquanto ainda tenho saudade.

Sussurro

Até logo, num assobio,
ao companheiro a quem asseguro:
todos os medos provém do futuro,
a dúvida da morte e do vazio.
Adeus, sem versos ou olhos,
amigo meu, calmo e pensativo.
Agora que estou pronto para morrer,
que há em estar sóbrio ou vivo?

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

-

Perdido numa realidade que eu mesmo criei,
imergi nos ciprestes da vida, num sono profundo.
Alimentado pela agonia de viver, só eu, só, imundo,
preferi ceder aos sofrimentos que eu mesmo inventei.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

G.

não devo celebrar mais teu físico,
pois percebo muito além das aparências:
teus olhos, que brilham um espírito puro e sinuoso,
teus cabelos, que saúdam a elegância de uma personalidade estridente.

não devo celebrá-los.
devo dizer que percebo teu choro quieto nas noites de frio
e que teu coração pulsa às batidas de meu ardor.
estamos unidos. não pelo amor, infelizmente.

não devo celebrar tua inteligência, pois outros o fazem.
não devo celebrar tuas habilidades para arte, porque todos a conhecem.
devo apenas dizer que estás radiante esta noite,
e que tua companhia acalenta minha pulsão de vida.

não devo celebrá-la, afinal, querida,
pois somente tens razão para achar algo de ti.
e tudo está em tua mente, meu amor.
tudo está de acordo com o que eu sempre quis:

teu sorriso resplendendo a alegria que sente
mesmo não tendo sido causada por mim.
amando a ti sem preconceito ou vaidade,
sem orgulho, sem problema ou caridade.

não devo celebrar mais teu físico em poemas e versos imersos em saudade.
saudade de teus braços e lábios. saudade de te chamar de minha.
mas quem ama não se apropria. quem ama liberta e deixa viver.
sou eu teu libertador, portanto, meu amor. sou eu quem mais quer teu bem.

não devo celebrá-la e não tenho muito mais o que dizer.
se tudo que quero é que ame e seja amada.
se tudo que tenho é um lápis e uma alma poetizada.
se tudo que posso é amar a ti e a ti escrever.



-

minha partida para toda parte - parte.
se esconde, de perto, de longe
o que parte à parte de mim.

Releitura

Com certeza é o mesmo lugar. As fotografias em sépia, os retratos de minha infância desbotando em um amarelo encardido. Os umbrais... todos decorados com róseas rosáceas que minha mãe mesma bordava. As maçanetas de prata líquida e evasiva. A grande sala, nem tão grande assim, trabalhada em madeira e tinta branca, branda e espumosa. E o meu quarto... ah, quartinho desagradável. Nessa época ainda dividia com meu irmão quase todas as coisas. Das roupas que não serviam mais em nós aos raros espaços em que podíamos desfrutar de algum lazer. Havia uma televisão velha que, depois de anos em péssimo funcionamento, foi substituída por outra, mais nova, que, raramente, era ligada. As peças de roupa se amontoavam em cima do rádio e escrivaninha... os livros tomavam conta dos armários e de minha mente.
E lá estava eu, solitário, apático e franzino, pensando em minha vida e na falsa ilusão de estar sozinho. É que me sentia um tanto abandonado, pois passava a maior parte do meu tempo isolado em meu quarto, na infinda escuridão que assolava aquele aposento. Meus amigos eram os livros e músicas que tocavam em meu computador. Eram palavras e letras travessas, todavia, por serem o motivo maior de minha depressão.
Com certeza é o mesmo lugar, mas acho que eu acabei cedendo aos trabalhos do tempo. Agora vejo com clareza que nem tudo que vejo é real. E nem tudo que sinto é real. Porém, sinto muito... sinto tanto e com tanta intensidade que um fio caindo de minha cabeça torna-se a maior e mais dolorida tortura para mim. Aprendi que o que codificamos e interpretamos é mero serviço do inconsciente misturado com o consciente e um pouco de realidade. Mas, se há toda essa “lenga-lenga”, como confiar no que interpretamos?
Até então, a saudade de algo que não havia vivido ou pensado e a falsa solidão que tanto sentia eram materializadas no plano real pela falta de pessoas a meu lado. Mas ainda tinha a mim mesmo... e, depois de alguns meses, em elevada discordância comigo mesmo, tinha Alice também.
Não era nova, devia ter lá pelos seus quarenta anos... também não era a mais bonita. Tinha os olhos meio juntos, melenas alisadas e douradas; e os olhos mais cerúleos que vira até então. Porém, tudo de que me lembro eram seus passos vindo até meu quarto durante noites de ócio, noites em que estava, de fato, sozinho em casa. Eram sutis, porém estridentes. Eram passos que me davam angústia... talvez por estar me apaixonando e me entregando cada vez mais, fatigado por todo o jogo do amor e suas terríveis consequências.

 Sem proferir uma palavra sequer, apagava as luzes, abraçava-a e derrubava-a em minha cama. Logo, estava de frente com sua calcinha de babados negros... para me perder, finalmente, nas sombras e colinas de seu corpo; na amantíssima tristeza da noite.

domingo, 7 de dezembro de 2014

às vezes olho para ti

às
              vezes olho para ti

                                                               com olhos que riem.



às
                             vezes faço

                                                                  com que os meus negociem




a felicidade

                                          que encontrei quando



                     certa vez



sorri.



às
                                    vezes meus versos

                                                                                não são suficientes



                                                             para dizer que te amo,
           
                                      mas eu amo



                                                                                 mesmo estando ausente.



às

                                              vezes amo    
           
                                                                                         sem conhecer


                                          e

                                                                quando conheço


                          deixo de amar.



meu amor


                                   é como ausência

meu amor.


                                                                   é como um rio sem delta

                                                                       
                                                                                                          que não encontra o mar.

Da essência humana

não quero falar dos acontecimentos,
não sou poeta para toda essa porcaria.
não me abstenho, todavia,
de meus mais tênues e sinceros sentimentos.

ecce homo, não sou cristo ou charlatão.
não tenho versos para mediocridade,
não sou mero filho da superficialidade;
não quero ouvir papo sobre merda e religião.

nos bordéis da crentaiada, quem te fode é deus.
não venho aqui para acabar com a fé no mundo,
mas venho difamar os que são teus.

das vielas, da boca, do escuro, surgem os ateus,
que viveram a vida se escondendo no imundo,
e agora vêm se opor ao universo de Deus.

terei feito um poema ignorante, um poema descartável?
não, não ouse falar, não ouse contestar...
serei, então, filho pródigo inafiançável,
meramente por querer me expressar.

não quero negligenciar a (suposta) divindade,
sou cheio de erros... um mero humano,
voltado aos prazeres, ao profano...
por não me entregar à incerteza e moralidade.

e, novamente, nos bordéis da crentaiada, quem te fode é deus.
se algo bom acontece, Ele trabalha para teu bem.
se algo ruim acontece, Ele trabalha também.

Aí fica fácil acreditar. Fica fácil ter em quem se apoiar.
Quero ver viver sozinho. Somos sozinhos...
Mas, como seres coletivos, insistimos em negar

a essência humana.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

da política

o Vermelho desbota por si mesmo.
e o Azul, que se opõe às cores mais vivas,
deveria parar de ser babaca e fazer alguma coisa.

Autoretrato

que será que és, alma querida,
sem o tino, o vinho, a uva e o amor?
és amarela, desbota-te em ti mesma
e és o canto mais doce do pobre sabiá,
que nada tem a ver com este poema.

que será que és, alma minha,
sem a melancolia, a miséria e a dúvida?
descendes da negritude das noites pintadas
em sonhos: como um Rimbaud potencializado;
um Neruda descaracterizado... uma Cecília pobre e nua.

que será que és, alma aflita,
sem as nuvens de pensamento que sobrevoam
tuas máscaras e personagens desalinhadas?
és, sem a poesia, como o rio que não toca o mar;
como o amor que não é amado...

que será que és, meu amor,
sem versos que a descrevam, sem a aparência e ilusão
criadas pelo poeta, sem, talvez, encontrar em teus desencontros
o que chamo de pulsão de vida?

fico aqui pensando...

e penso ainda...

e ainda...

e, ainda,

que será que és?

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Apesar de você

Apesar de não poder amar,
deixe que adorem.
Deixe que seus olhos ignorem
a arte de estar

sozinho numa vida conjunta.
Apesar de minha solidão,
não sei se estou só ou não...
não sei amar a face disjunta.

e o poder do Amor não sei vestir,
Mas suas algemas ainda me consomem.
Que será de mim? Que será do homem
se não vemos motivo para viver ou sorrir?

de momento a momento

de momento a momento,
tua face nua reveste meu ser
em profundo contentamento.

és meu instante de amor;
a rosa para o jardim;
a mulher para seu amante.

és meu maior sonho refratante,
que destoa do todo, consoa o restante...
e se faz ausente por pensar que não ama...

por pensar que não é o suficiente.

The greater land of Death

The greater land of Death
guesses why should we live
if there's nothing else but give
and take away our breath.

The fire, the hope and care,
the exact and exalted love we share,
a portion, a life of pain
nothing left... but wear the chain.

Sounds and echoes speak to me.
They talk about love and war
and I just want to know a little more
about the love I love for thee.

Yet I blame not Death
for taking away thy Breath.
I blame myself for letting you go
and for wasting away the love I was meant to show...

you.