quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Laura

Outono. A dúvida implacável que me cerca se faz evasiva e lôbrega. Sento-me para escrever um poema, um soneto, talvez, mas nada parece surtir de minha mente deveras cansada, deveras atrelada e revolta em sórdidos e saudosos pensamentos. Enquanto minha mão vaga pelo papel em branco, vago, escrevo torpes e turvas palavras com a face nua. Sim, escrevo sem escrever, apenas com o olhar. E o olhar se faz distraído. Presto atenção à música que toca. Nada me toca, todavia. Meu escritório, repleto de livros e jornais velhos, que nunca foram lidos, minha poltrona azul, a luminária antiga e a escrivaninha bem iluminada se escondem nas sombras altas e claras de meu corpo, das melenas que batem, negras, no chão do aposento. Mas nunca vou a meu cômodo favorito para que não deixe de ser meu cômodo favorito: o quarto.
As árvores, pobres, desfalecem gota a gota, e suas folhas caem em meu quintal. Os poemas de outrora ainda estão lá, grafados nos resquícios, na ruína, na podridão da casa do vizinho. A música ainda soa, porque sempre fomos amantes do jazz apático e melancólico. "Laura" toca no rádio, na voz de Sinatra, numa estação - há muito - conhecida, que repete sua lista de músicas a cada três dias, aproximadamente. E os dias, por vezes nublados, por vezes abertos, se distanciam de minha noção de tempo, de meu ego latejante, de minha solidão sufocante.
Tive uma companheira chamada Laura. Tive dias de pura alegria e inspiração... O epitáfio se ergueu anos mais tarde, abaixo das folhas de relva e carvalhos que caíam desordenadamente em meu quintal. Foi um impacto imenso em minha carreira de poeta e em minha vida pessoal, mas a perda só existiu, pois houve apropriação. E eu jamais quis tê-la como minha. Não era minha.
Disse que meus escritos estavam prolixos e que a alma da poesia era cortar palavras sem alma. Ela sorriu e me chamou para deitar. Logo adormeci. As horas de sono nunca foram algo a se apreciar. Queria estar ativo a todo custo. O ócio me fazia mal. Acordamos e ela preparou o café enquanto eu lia as novidades poéticas para ela. Por vezes trocávamos as funções. Normalmente eu não tinha função alguma. Fui escrever um pouco e ela foi plantar flores no quintal. Ela lá embaixo, eu em cima. Então, nascia a primeira poesia da manhã. E eu, aos berros, declamava tudo para ela!
Ainda não consigo escrever. As palavras me são escassas. Deveria começar com algo simples, como o retrato de Laura pela janela. Mas as imagens já não me vêm tão facilmente. Deveria seguir com os simples lirismos de minha época de escritor apaixonado... mas ela se foi.
Laura me acordava com um beijo e palavras carinhosas. Sinto sua falta, onde quer que esteja agora.
Sinto falta de nossas brincadeiras e de rir de nós mesmos e dos outros com pura inocência. Sinto falta do sexo, do tino, dos vinhos que bebíamos juntos e das palavras, mais do que tudo, que, enfim, conseguiram exprimir nosso sentimento um para o outro. "But she's only a dream", cantava Sinatra.
E ainda é. Um sonho pelo qual eu dormiria o Sono Eterno.

Nenhum comentário:

Postar um comentário