domingo, 1 de fevereiro de 2015

Uivo

Quantas madrugadas, ainda, teremos que deixar
sonolentas, impassíveis, ébrias, violentas?
O piano já está trancado, as violas, guardadas
e os musicistas já se retiraram para seus úmidos aposentos.

                                            São lágrimas nas paredes. Lágrimas e gritos, disseram eles.

Desfilamos pelos corredores como nobres embriagados,
Em direção ao nosso quarto, marchamos cambaleando
e desfalecendo nossas roupas, seguindo o véu invisível
de nossas realidades conjuntas.

                                                                                                         [Uivos pelas janelas. 

Exploremos.
A chuva que não molha realmente,
Juntos, ajoelhando na escuridão.
Corações mutilados sob as sotainas.

A música volta a tocar enquanto todos estão dormindo.
Estamos nus, abraçados, nos fodendo e sorrindo
ao som de um nirvana umedecido.

                                                                              É só suor, eles disseram. Continuem.

E os anjos sexuais permaneceram ao nosso lado,
escrevendo, descrevendo e sugerindo novos prazeres litúrgicos e carnais.

Rasgaram a Palavra.
Cuspiram na cruz.
Nós ali, nos fodendo, sob os uivos cada vez mais estridentes.

Quantas noites, ainda, passaremos acordados,
bebendo e fingindo fugir da realidade?

A música parou novamente.

As paredes secaram e se silenciaram.
Os mortos soergueram.
Todos caímos, todos caem.

E por você, minha amada, não me faltará amor, sonho ou ebriedade.

Mas, amanhã pela manhã
voltarei a ser o poeta das esquinas,
dos versos soltos, como nós,
dos poemas retos e apoéticos...

um ser limitado e obtuso como qualquer outro.

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