sábado, 28 de março de 2015

Fragmento de um diário não ortodoxo

28/03/2015


Paulo Mielmiczuk, 19. Este único fragmento de diário não convencional ou ortodoxo é, para mim, uma exorcização dos demônios que tanto me assombraram nesses anos passados. Se não estive em mim presente ou se estive deveras ensimesmado, não saberia definir. Tudo que sei é não pretendo descobrir a fundo o que se passou, pois a terapia, os malditos e benéficos comprimidos (engolidos em suas centenas) e a reflexão individual, doída e quieta já exerceram seus trabalhos e enganos. Aqui, despejo um relato com certo distanciamento. Aqui, despejo parte de mim: aquela mesma fração que fugiu de casa desesperadamente... mas que voltou aos prantos, pedindo desculpas por ser um erro; aquele mesmo pedaço que tentou se matar tantas vezes, na surdina, se arrependendo – não por vir a enxergar o lado belo da vida, mas por ter aprendido a morrer na felicidade e ter a felicidade de morrer. Tantos impulsos só poderiam resultar em uma obra impulsiva e irregular, com espasmos de genialidade e momentos de bestialidades infantes. Ser absorvido pela própria poesia poderia ser considerado viver de sua arte. No meu caso, saborear uma doce maldição mental. Estive só em mim mesmo, vagando pelos labirintos, trocadilhos e brincadeiras de minha mente. Não acho que deva ser simplista ao dizer que não sabia que eram jogos mentais. Sabia. E queria jogá-los. Queria cicatrizes mais fundas. Queria uma morte honrosa e trágica. Eu era desse tipo. Sempre fui escandaloso – ensimesmado. Mas quem nunca pensou em se matar? Quem nunca quis ser eternizado na finda memória alheia? Afinal, o mundo é lindo! Vejo a natureza com olhos encantados, com alma serena e pueril, com extasiantes sensações que me deixam absorto em algo além de mim. O que me importuna são as pessoas. Mesquinhas! Arrogantes! Perdidas em sua própria ignorância, crenças e comodismo!

Desse estado em que em encontrava, extraí palavras, significados, alegorias, e me introduzi aos delírios de uma insanidade importante e intrínseca à minha poesia. Escuridão. Textos obscuros e pessimistas sobre suicídio e medicamentos, sobre morte, amor e religião. Nada que atraísse de verdade. Nem a mim, pode-se dizer. No entanto, aquele núcleo melancólico, que tanto foi comentado em sessões psiquiátricas, me parecia uma luz no fim do túnel: um trem vindo em minha direção. Mas o que virá a ser a solução para isso? Publiquei “Poética” num total impulso e desgosto. Não a revisei por não ter interesse ou vontade. Ao contrário, quis livrar-me daquilo e arrecadar algum dinheiro com o pior de mim. Sim, todos temos interesses. E que forma extraordinária é fazer seu nome em seu grupo de conhecidos e amigos ao estrear no mercado literário – mesmo com a merda toda em mãos. “Poética” foi meu primeiro fracasso como escritor. E que peça patética e vergonhosa foi aquela? Porém, foi também um começo, um exemplo e referência pessoais. É incrível como as pessoas admiram quem publica um livro. Não há nada demais nisso. Se você tem o mínimo de competência, consegue o que lhe convém e interessa. 

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