quarta-feira, 10 de junho de 2015

Visões



I





para poder exprimir o inexprimível,


preciso retornar ao presente.


deixarei a forma


de


lado;


a metrificação


passa longe;






a palavra,


antes


intrínseca ao poeta,


faz-se independente


e luta por espaço


num mundo repleto


de imagens e ilusões.






para poder exprimir o inefável,


preciso deixar os monomorfos aforismos:






com minhas visões,


subi ao


inferno


desci ao


paraíso.






encontrei polimorfismos,


abandonei a crítica e elevei


alucinações à alquimia da escrita.






escreve outra língua.


não nos entrelacemos.


sejamos diferentes,


procura outra harmonia.






para poder exprimir o inenarrável,


preciso deixar de narrar.


não sou prosaísta, não faço epopeias.






não sou elitista,


tampouco popular.


escrevo para os que não me compreendem


- e, arrisco dizer,


para os que não sabem compreender.






almas embriagadas me cercam,


almas pesadas, atordoadas me elevam.


não.


sejamos iguais.


sejamos únicos e execráveis.






II






Tornar-me-ia execrável se não fosse vidente.
Tornar-me-ia supérfluo de meus pensamentos
se não resgatasse a poesia que ecoa no EU oco,
a prosa de velharias - tão significantes
que as considero visionárias,
o lamento por existir e não viver em todo
meu potencial, desatino e plenitude.

Tornar-me-ia execrável, já o disse, se não fosse vidente.
Tornar-me-ia insustentável se deixasse as palavras
e partisse para um mundo onde reinassem novas formas
como as que tenho: disformes e, por vezes, amorfas.

O EU permanece rebelde no sentido de ir contra os padrões
de sentimento que aqui enaltecem,
e, portanto, já não posso negar a alma que tenho.
(Aqui não digo que ela é digna de honra ou cordialidades,
mas de críticas e novas visões).

É disso que se faz a arte.

Então, nascidos do súbito marulhar de minha escrita,
surgirão novos videntes, novos poetas, novos prosistas.

Tornar-me-ia comum se mantivesse minha poesia voltada
para os lamentos do EU.
Por isso, tomo emprestada a expressão usada na França oitocentista,
"o EU é um outro".

Não posso permitir que minha escrita seja interna.
Não posso permitir-me ser um (dito) autor.
Não devo ser mais um - ao contrário do que pensam
as instituições de nosso tempo.

Somos únicos, não execráveis, porém execráveis.






Olhe ao seu redor.
A esmagadora maioria entrega sua vida
para uma pia e pífia existência, apenas.

E, com este pacto com o Diabo,
encerro de forma estrondosa meu poema
corriqueiro e desnecessário.






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