sábado, 4 de julho de 2015

O Misógino



O Misógino


(Peça em um ato)




Cena:





(Fade in na casa de Agnieszka e Kowalski Czaplicki. Pouca mobília, livros de teatro e poesia espalhados pelo chão e um cigarro aceso como marca-páginas quase na metade de Fausto. Agnieszka, estudiosa do Romantismo, filha de poloneses, bem como seu marido, está sentada no sofá empoeirado e assiste à TV desligada. Kowalski, homem inteligente e sombrio, lacônico e solitário, observa sua mulher enquanto escreve pequenos versos esparsos sobre sua condição de marido fracassado. Paira no ar o sentimento patético de terem vivido a mesma cena milhares de vezes - tornando-a enfadonha e pouco expressiva.)


Agnieszka - Você viu algum livro do Byron por aí, meu bem?



Kowalski - Não vi.



Agnieszka - Pode procurar, por favor? Estou ocupada assistindo ao meu programa...



Kowalski - Só há vazio. Veja, a tela está preta.



Agnieszka - Você tem sempre que complicar as coisas, não é?



Kowalski - "Sempre complico as coisas: inútil, inóspito, irreverente,/ sou pouco ser, pouco atento, vil e inconstante meramente".



Agnieszka - Começou a choradeira. Já disse mil vezes que não adianta por para fora seus desgraçados sentimentos. Tudo arde por dentro. Se você exterioriza aquilo, somente deixa que a dor o consuma. Só deixa os sentimentos o entrevarem.



Kowalski - Discordo. E só estou escrevendo meus versinhos... (Rindo.) Como psicóloga você é uma completa ignorante! Vai logo pegar meu copo de uísque. Com gelo! E cala essa sua boca - que eu não te dei esse direito!



Agnieszka – Chega, Kowa! Somos casados! Deveríamos compartilhar amor e carinho!



Kowalski - (Cochichando.) Deveria é ter escolhido outra...



Agnieszka - O quê? Fale mais alto!



Kowalski - Deixe pra lá... Não era nada importante. Agora, vou continuar a escrever. Assista ao Vazio enquanto meus dons artísticos transcendem meu corpo e se materializam no papel.



Agnieszka - Idiota! (sai.)





Kowalski - (grita, mas não é ouvido.) Puta!



(Travelling para o monólogo da madura e doída mente de Kowalski.)



Kowalski - Sinto-me só na maioria das vezes. O amor de outrora, que me consumia e suportava, se esvai e me deixa triste e incompleto. Amei plenamente a mulher errada e agora sofro por minha má escolha. Sou como um novato em uma sala de veteranos; o novo garoto retardado do Primário. Nunca conquistarei nada senão a amargura e frustração de estar vivo. Hoje em dia, estou cagando e andando para minha mulher... Hoje em dia, quero mais é que ela se foda! Agora quero mesmo. Já comi pessoas melhores. Tenho pena dela: tão burra e paranoica, tão preocupada, porém desinteressante... cadela sifilítica! Talvez, na verdade, nunca tenha a amado. Sinto tanta repulsa que penso não ser possível ter amado tempos atrás.



(Agnieszka volta)



Agnieszka - Desculpe-me.



Kowalski - (Lacônico.) Não.



Agnieszka - Não deveria ter te chamado de idiota.



Kowalski - Quero ir embora. Sozinho!



Agnieszka - Por que, querido?



Kowalski - Porque você me abandona quando estamos juntos. Você desdenha da minha escrita, vadia!



Agnieszka - (Soluçando.) Misógino imprestável! Não faço mais do que exprimir com minha voz a realidade! Você é só mais um vagabundo que fica bebendo até tarde, escrevendo poeminhas de merda e fodendo outras por aí. Sei o que você faz às escuras...



Kowalski - (Debochando.) Claro, vive assistindo à tela preta...



Agnieszka - (Furiosa.) Vá se foder!



(Retira-se novamente. Monólogo.)



Kowalski - Odeio estar nessa condição: se eu sair, para onde vou? Além do senhor mau gosto de Aga - por ter se casado comigo, pelas roupas que ela veste, pelos livros que ela lê e o programa a que assiste, ela tem um odor... estranho. Do tipo que me dá náuseas ao jantarmos juntos; do tipo que me faz vomitar após o sexo. Já não sinto saudade, não me faz falta. O desgosto conjugal se consolida... o amor tem, sim, um esgotamento...



(Apesar de seu sentimento, Kowalski, espera, angustiado, o retorno de sua esposa - que não volta. Silêncio. Fuma o marcador de Fausto até que...)


Kowalski - Merda, os Czaplicki ruíram. Já não tenho quem cozinhe e limpe a casa; não tenho quem me abrace quando estou carente... não tenho nem com quem falar... Ao que parece, foi só um momento, um instante de raiva. Merda, Aga ainda se dá valor. Mesmo depois de tudo o que disse e fiz. Acho que a voz feminina não deveria ser subestimada. Recordo-me de quando a vi pela primeira vez. Ela estava linda no negror de seu vestido, na palidez de sua face, no marulhar de seus cabelos... Lembro-me de pegar o telefone e ligar para meu amigo, do outro lado do salão. Não lembro se ele me disse seu nome, mas acabei indo falar com ela. E cá estamos, agora, arruinados. Eu estou arruinado.



(Silêncio. Suspiro. Kowalski senta-se no sofá com uma expressão perdida, em frente à TV desligada. Um minuto se vai enquanto ele assiste ao Vazio e...)




Cai o pano

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