sábado, 24 de outubro de 2015

Canção de mim mesmo

Não celebro a mim mesmo,
e o que eu assumo ninguém assumirá,
pois cada átomo que me pertence
pertence só a mim.
Percorro meus sonhos e descaminhos
em busca de uma satisfação imperfeita,
de aspirações e inspirações inconstantes,
de uma alegria rasa, que seria o suficiente para me conter o sofrimento,
e que já não cabe em minhas entranhas:
poéticas demais para tanto sentimento.
Meus ecos transportam-me ao passado,
fruto do tempo e insegurança,
à angústia e incertezas de quem vive,
que somente o tempo pode transpassar.
Os beijos, as carícias, o afago:
intransponíveis e inefáveis lembranças, de fato,
mas quando as imagino, quando percebo
que estou me encontrando em alegres percursos de vozes dissonantes
que se completam e misturam,
minha própria voz, bafejada, ao léu, ao vento,
se perde nos limites do supérfluo,
nos diversos timbres das diversas folhas secas que preenchem o solo com cores e aromas...
que se matam à procura de um novo começo.
O tempo, criado, cria.
Porém, os sons e silêncios já não me atingem.
A escuta, da mesma forma, quase imperceptível aos sussurros e suspiros do relógio,
se faz ausente.
Perguntas, questionas, convidas...
mas estou muito velho para me lembrar de qualquer coisa.
Estou absorto numa solidão profunda e incurável.
Portanto, corto-te com um breve e falso sorriso reconfortante,
do tipo que olham e somente enxergam a voz:
há tanto perdida na superfície.
A voz, rouca e falha, a trepidez de cada nota...
o marulhar de teus olhos lacrimejantes
se estende aos meus anseios e impulsos...
A perdição está aqui.
Mas ainda espero tua mão estendida
para me socorrer da terrível canção de mim mesmo.

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