terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Lembranças

esvazio garrafas
enquanto penso
num amor
despropositado.

vejo a mesa repleta
de um vazio absorto
em meu próprio vazio.

livros já não são
suficientes para
narrar a existência.

porém, ainda amo,
rijo e violento.
numa intensidade
anacrônica
e prazerosa.

mais garrafas esvaziadas.
silêncio.
o fumo parece ser
solução para a ansiedade.

o coração, sôfrego,
a mente insana.
a mão, morta e lôbrega
é a fuga vil e humana.

ela se deitava
na própria mesa,
aquela, do pleno vazio,
e ia tirando
a roupa enquanto
nossas vergonhas se tocavam.

agora,
somente livros
me acompanham,

e meu anjo caído
se contenta em enrijecer
com fotos e fatos...
que só servem para preliminares.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Órbita

Traçando suas 
órbitas de fuga
alimentando noites 
desumanizadas
simultaneamente 
errôneas
as flores e pétalas 
abandonadas
caem.
E o repouso
literário
nem excitado
nem lânguido
sobre mim
cala a estadia
no inferno
que tanto 
acompanha
poetas despreparados.
A iluminação 
tece irrelevantes
ilusões.
A iluminação
é a própria ilusão.
Não estamos prontos.
Não sabemos viver.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Fenecer

feneço nos doces ramos claros de teus cabelos dourados.
a face, oculta, expõe suas singelezas e aflições,
e mergulho no marulhar castanho de teus olhos desatentos.

o sangue gargalha em nossas veias.
harmoniosos e melancólicos, o céu e sol se expandem sobre o mar esmeraldino.
a face, oculta, se assombra no hoje e sempre de antanho.

contra o ódio: paciência. 
as estações me esganam e me encontro num inverno desolado.

medíocre e só, vou caminhando apaixonado,
e as dores, antes tão doídas, se consolidam em minha abstinência.

que seja eterno meu infortúnio! 
que permaneça rindo o sangue e a ociosidade.

que sejam meramente passageiras as alegrias rasas!
que se obscureça a vasta, comum e miserável realidade.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Poema à garota morta

Pouco a pouco, em versos intercalados,
revelo minha face e tua própria imensidão.
Mas não sou deveras tonto ou apaixonado:
já sei que o mundo é uma completa ilusão.

A escassez de palavras, o excesso de sentimentos,
os cabelos, em desalinho, irrigados pelos olhos meus,
a esquecida solidão, a perda de memória e momentos,
a harmonia na saudade precoce de um sutil adeus.

Todos partem e tornam-se interpretações.
Escondem-se na sombra esvaecida
de meus sonhos obsoletos e devoradas iluminações.

Mas não posso reclamar da vida já decidida,
porquanto a realidade não conforta e só surte efeito em ilusões.
O presente te traz a mim, apaixonada, morta, estarrecida!

E o ocioso poeta morre de amores por tuas podridões.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Um invisível que optou por emudecer seus lábios e ativar sua escrita

Herdei de meus colegas ignóbeis o desprezo,
e, através de meus olhos singulares,
pude me enxergar com total repúdio.

Os colegas, até certo ponto, iguais,
levam consigo o direito de serem tão pérfidos nos trejeitos
quanto minha língua profana é em suas condo e indolências.

E seus hábitos, anacrônicos, rústicos e ridículos,
se fazem assim, pois meus talentos e habilidades se ocultam
em meio à podridão alheia a meus demônios.

Se ao menos me visse com menos egocentrismo,
poderia cogitar enxergá-los como enxergo a mim,
e, talvez, se pudesse, de fato, viver sozinho, deixaria de me sentir solitário.

Vi-me inválido, melancólico, e inibido:
um frívolo inferior - com olhares vis e superiores e
sentimento de mendicância e miséria.

Tudo em mim foi visto e revisto por velhos e revelhos olhos distraídos.
É a visão de um invisível que optou por emudecer seus lábios e ativar sua escrita.
É o ódio por ter que lutar contra o mundo e mim mesmo todos os dias.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Solidão

A partir dos momentos ou constância da solidão,
temos noção do que realmente somos.
E é aí, nos devaneios de uma existência solitária,
que menos extasiamos a realidade,
que menos apaixonamos nosso olhar pela vida em si.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Saraueiro

Saltei sobre minhas alegrias e as esfaqueei.
Minhas vozes se fundiram, se dissiparam e se uniram novamente
enquanto ecos de um modernismo fajuto tocavam meus ouvidos arrependidos:

Antanho, acordei em meio às tribos de poetas ambulantes,
com os quais vi a poesia trazer à face o riso do idiota.
Não que fossem menores, mas eu não pertencia a eles.

Sufoquei minha reclusão para tal,
o que não foi agradável ou gratificante.
Apenas misturei talento à pieguice de colegas de arte.

Provei demais! E aquele foi meu primeiro e último engasgo!
Agonizei minhas lembranças atordoadas,
atenuei minha própria culpa e o mérito que deram a eles
para, ao término daqueles poemas circenses,
poder gargalhar para dentro num ato de repulsa e desligamento.

Merda de poema

O riso de uma vida pautada em claridade,
os mares abertos à sensibilidade.
Todos hão de convir que sonhei!
E sonhei para dizer que viverei
mais uma vez a dura realidade disjunta,
a miséria e toda a merda da poesia conjunta,
a labuta, o enfado, a caneta e o paraíso.
Sou eu quem escarneia, é meu o sorriso
de poeta pouco, que conjura melancolia
para sanar sua dor, sua seu amor e poesia.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Todos se foram

Todos os julgamentos de meu coração dilacerado,
sendo, para mim, a mais tênue e mentirosa obra de minha mente:
um poeta fingidor que ama e escreve apaixonadamente...
- São pensamentos que criei por meus olhos estarem deveras paralisados:

Estive genuinamente feliz, pode-se dizer,
e não posso reclamar - não agora - de qualquer trabalho depressivo.
Embora não tenha família, nem sequer um amigo,
tenho o amor e sentimentos para dar a você.

Todos se foram, e, para meus olhos, é verdade,
somente nós existimos - em nosso mundo, repleto de rosas,
com as quais desabrochamos e morremos em nossa conjunta realidade.

Mas todos estão ali, em sonhos de poemas e memórias de prosa.
Dizem que às vezes aparecem, que vêm visitar nossa singularidade.
Porém, não há sensação solitária, estranha ou diferente. Apenas onerosa.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Degraus de ouro

À mística e imprescindível metáfora dos degraus de ouro - entre um mar de rosas, irrigado por amenos e breves raios de sol, por sua vez banhados pelo nevoeiro arroxeado e perfumes e fragrâncias de todos os tipos, - vejo o reino celeste pedindo que eu suba.
Peças de meu rosto desfalecem e caem durante o percurso, mas permaneço no trajeto. Adornada de rubis, espalhados por toda parte, uma esmeraldina cúpula sustentada por pilares de ágata e ametista, e finos e curtos bastões em cada uma das pontas - de partida e chegada - a escadaria aos céus de grafite desmorona enquanto eu dou o último passo nos degraus de ouro. Então, como se um deus de forma desconhecida, olhos enormes e braços amorosos ouvisse os sussurros de meus medos, minhas asas desabrocham, se abrem e partem... partem comigo para o infinito.

Há pouco

Amor, que será, amor, sem amor?
Viver deliberadamente, caminhar pelas lâminas de névoa que sobrevoam minha mente,
sonhar um sonho infante, sentir-se pleno no vazio?

Não se lamente, não sinta-se sozinho,
pois a vida é lamentação e a solidão bate à porta.
Há pouco tempo para viver.
Há pouco, vivi.
E o que há para ver
é a tragédia de existir.

Amor, que será, amor, sem amor?
A canção de mim mesmo grita nos vergéis indomáveis, impassíveis.
Sou parte daquilo, estou ali, de fato.

Atenciosa, amorosa e gentilmente,
tornamo-nos seres sociais.
Reduzidos a algarismos, resumidos em poesia,
nem mesmo lemos nossos poemas,
nem mesmo estamos presentes.

Amor, que será, amor, sem amor?
O tempo passa e a vida se extingue,
não me ensinaram a escrever um poema, não me ensinaram a viver plenamente.

Nem mesmo sei quem sou.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Palas

Corpos, tumultuosamente unidos,
em laços de miséria e acordos sombrios,
em umbrosas e noturnas plagas
- por onde se estendem os domínios das negras asas
de anjos nefastos e caídos.

O amor desfalece sobre as costas dos transeuntes.
Fico atônito, angustiado, frio e acústico.
Seus ecos ocos me invadem e já não me possuo.

Meus sonhos, por sua vez, dissonantes,
contemplam a continuidade do cerco
das tais lôbregas asas infantes.
É certo que voam acima de minhas cabeças
e que minhas mentes são deveras profundas e rasas,
mas elas crescem e transformam os meus em pesadelos.

Corpos, tumultuosamente unidos,
somam-se gota a gota, carne a carne, reduzindo-se a algarismos.
Estaremos todos imundos, pérfidos, feridos
ao somarmo-nos ao monte de merda amorfista... aos angelismos.

Corpos, tumultuosamente unidos,
em laços de miséria e acordos sombrios,
em umbrosas e noturnas cidadelas de Palas
- pela qual lutam e honram os domínios das entrevadas asas
de anjos nefastos, caídos.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Uivo

Quantas madrugadas, ainda, teremos que deixar
sonolentas, impassíveis, ébrias, violentas?
O piano já está trancado, as violas, guardadas
e os musicistas já se retiraram para seus úmidos aposentos.

                                            São lágrimas nas paredes. Lágrimas e gritos, disseram eles.

Desfilamos pelos corredores como nobres embriagados,
Em direção ao nosso quarto, marchamos cambaleando
e desfalecendo nossas roupas, seguindo o véu invisível
de nossas realidades conjuntas.

                                                                                                         [Uivos pelas janelas. 

Exploremos.
A chuva que não molha realmente,
Juntos, ajoelhando na escuridão.
Corações mutilados sob as sotainas.

A música volta a tocar enquanto todos estão dormindo.
Estamos nus, abraçados, nos fodendo e sorrindo
ao som de um nirvana umedecido.

                                                                              É só suor, eles disseram. Continuem.

E os anjos sexuais permaneceram ao nosso lado,
escrevendo, descrevendo e sugerindo novos prazeres litúrgicos e carnais.

Rasgaram a Palavra.
Cuspiram na cruz.
Nós ali, nos fodendo, sob os uivos cada vez mais estridentes.

Quantas noites, ainda, passaremos acordados,
bebendo e fingindo fugir da realidade?

A música parou novamente.

As paredes secaram e se silenciaram.
Os mortos soergueram.
Todos caímos, todos caem.

E por você, minha amada, não me faltará amor, sonho ou ebriedade.

Mas, amanhã pela manhã
voltarei a ser o poeta das esquinas,
dos versos soltos, como nós,
dos poemas retos e apoéticos...

um ser limitado e obtuso como qualquer outro.