quinta-feira, 30 de julho de 2015

Macário

meu mundo se assemelha
ao reflexo de teus olhos:

tão perto minhas mãos o envolvem,
tão longe de ti meu destino se traça.

olhos estes que permeiam o desespero,
a poesia e tristeza das coisas,
a dúvida e insegurança...

olhos que se ausentam e me olham pelos cantos,
olhos que debruçam nas noites tristes
um amor que jamais será amor.

meu mundo se assemelha
ao reflexo de teus olhos:

tão perto - que a solidão se faz obtusa,
tão longe de ti - que ainda me desfaço.

meu único recurso para suportar a monotonia
da realidade, do tédio e do convívio é o amor.

mas como estar sozinho em meio à companhia,
como estar acompanhado em minha solidão?

não é angustiante não poder ter alegrias que penetram
e corroem a mente com ardor e futilidade?

não é o mesmo, aqui, sem teus olhos motivacionais.
não é o mesmo amar sem ter um amor.

mas não morrerei nesta noite fria dos suspiros de julho,
não morrerei por tua ausência.

impossível, Macário, morrer por alguém.
ninguém vale tanto.




sexta-feira, 24 de julho de 2015

Spleen

O espírito ébrio! febril! doente!
de desânimo me invade,
a desolação me corrói
e a ira se concretiza
no spleen, que tanto sinto.

Por que as pessoas não suportam
a melancolia expressa em minha
face; o falso sorriso amarelo e
torto que tanto visto; a ausência
de completude em tudo que faço;
o fim do desejo e início da introspecção?

O espasmo de felicidade já me é escasso!
Deito-me só e infeliz à cama mortuária
sem fome, afago, fé... meus amores lançados
a mim como rajada de ventos sulistas.
Por que, então, sou tão triste?

O infortúnio de estar vivo
é comemorado pela gente,
que não se dá conta que a vida
é comum e corriqueira.
Não há motivo para comemorá-la.
Viver ainda é superestimado.

Quem foge da realidade pelo fumo,
pelo amor, perturbadores e entorpecentes?
Vale a pena? Creio que não.
A dor no peito sempre volta,
a saudade da existência sempre nos escapa.

E tu? Morrerias comigo?
Morrerias abraçada ao poeta entrevado,
amaldiçoado e depressivo?
Também creio que não... sou um eu corrompido.
Os amigos se foram, os amores se foram.
E agora também me vou... como se nunca tivesse existido.



domingo, 19 de julho de 2015

Motivação

Vaguei
por entre a multidão,
distante e indeciso,
enquanto sentimentos de retidão
e de Narciso
atravessavam a cabeça explodida
em amargura,
o peito ressentido
e de todo esquecido
de sua
paixão,
desolação
e fragilizada armadura,
carcaça esta que tanto guerreou,
tanto resistiu aos ataques da mente,
ao soar dos acordes em sétima,
ao iminente espanto
e espasmo de melancolia
que temos ao nos deparar
com o horror
da nada honrosa
morte.

Vaguei por aí,
e os rastros de sol se extinguiram
de meu ébrio
corpo
desapaixonado e desfalecido.
Injuriado,
abandonado e
lamacento, meu coração,
petrificado senão por
suas batidas,
abrigava-se na ruína
de seus blasfemos instantes de raiva.

Porém,
voei, enfim,
pelas aleias e vielas
de minhas soturnas carreiras
desencontradas.
Mas voei baixo e logo afundei
nas mágoas e tristezas
de minha mente deveras
desestabilizada.
Iminente o naufrágio,
arremeti aos infortúnios
e descaminhos
de teu corpo, querida,
mas morreste e me abandonaste
também.

Agora,
após tanto sofrer, solitário,
já não penso em nada
- exceto no ímpeto,
na vontade e nos impulsos
que hão de me encontrar contigo novamente.

sábado, 18 de julho de 2015

Miserável

com o grito mudo dos desesperados,
estanquei a alegria de minhas entranhas.
estive só - através das formas a mim estranhas,
em meio à cegueira dos apaixonados.

exultando no meu profundo abismo 
corroí minhas afinidades, minhas amizades
e todo o imundo e precário lirismo
que cantei no tempo da mediocridade.

e ele perdura! tarda-me o sentimento!
surdo, meu desespero desorienta
o corpo que vive do tormento!

cego, o ignóbil som oco me assenta na depressão de 
um triste coração lamacento,
que, mudo, amaldiçoa minha vida com seu miserável acalento.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Enforcamento do adormecido

sou um garoto infernal,
capitão!
sou metade homem, 
metade erro.

sou a passagem da noite
ao frio de teu ébrio e desmedido
e doído e intumescido lábio
à face desprendida de mistérios.

condena-me!
a noite inteira me foi
repleta de desventuras:
the sleepers ainda dormem, nus;
ainda fluem, de mãos dadas,
minhas angústias e descontentamentos.

o naufrágio se estende ao céu
e beija o desespero enquanto
sou apunhalado pelas costas
por minha própria gente.

sou um garoto infernal,
capitão!
e agora deixamos de ser um só.

estive de passagem nesta vida,
assim como deves estar de passagem
por meu corpo estendido.
não sei, realmente.

agora que não há retorno, 
agora que não tenho meu próprio Fuchur,
agora que estamos unidos,

meus descaminhos me guiam
pela estrada mortuária.

desfaleço, 
capitão!
minhas forças não escaparam 
do desastre, da perdição, de meus próprios
enigmas e segredos.

enfim... me esqueço.
assim como deves me esquecer
com o tempo...
ou então, "ah, aquele garoto...
era um bom marinheiro, pobre coitado".

jamais arrependido,
minha eterna saudade de ti, capitão.
a canção de mim mesmo se encerra
em uma triste e doída poesia
sem a face da glória ou do meu próprio... 

perdão.




quarta-feira, 15 de julho de 2015

A outro

Não quero estar só
somente para estar contigo
nem mesmo estar comigo
e estar sozinho pelos cantos

Dizia o de outrora
que estaria por aqui
para sempre...
mas para sempre passou
e não o vejo a meu lado

Cansado de tudo
planejo a inércia
na vida planejada
pela morte

Não quero estar só
somente para estar contigo
quando minha presença convier
à tua tão invejada indiferença

Não celebrarei teu descaso
não estarei aqui quando precisar
não serei um bom amigo
pois estou cansado disso tudo

Dizia outro de outrora
que o amor tem sempre a porta aberta
talvez nunca tenhamos nos encontrado, então
talvez nunca tenhamos de fato nos amado

Cansado de tudo
minha misantropia se aguça
e me retiro para mim - onde permaneço
enquanto de ti - pouco a pouco - me esqueço.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Poema da observação

Cartas brancas e invernos azuis,
logos e números,
nomes e cores e linhas,
lindas memórias infinitas
da chuva de outono, que
abre passagem para o frio
chegar...

Ínfimas pessoas, estancadas em detalhes,
flutuam ao longe com seus guarda-chuvas
e terninhos, e toda a ilusão se esvai
até que saio, enfim, cambaleando
minha sóbria embriaguez...

E os emergentes! Ah, os emergentes!
Entediados, famintos,
desgraçados, levianos, corrompidos...
ecos de uma face de promessas
e dos erros dos novos ricos,
seus próprios ventríloquos,
que se esquecem que se deixam manipular...

São barquinhos flutuantes,
arrastando, pela proa,
estratos de solidão,
lacunas preenchidas por medo,
carência e todo o desatino
de um ego despedaçado e ausente...

Avisto dois borrões foscos, entrevados:
metamorfoses de minha mente,
dois paralelos se encontrando,
dois corações perfurados,
criações de um outro distraído
por um eu apaixonado.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Minha mente é limpa como um ânus

Minha mente é limpa como um ânus,
e a fábrica de caralhos ainda resulta
na suposta fraqueza feminina.

Não! Não devo aceitar mais sua submissão.
Minha mulher e filhas, e filhos e namoradas,
e conhecidas e amigas, e suas respectivas
queridas e senhoritas desencontradas
não devem mais aceitar o poderio masculino
como núcleo vigente em uma sociedade
que se diz, há séculos, igualitária e livre.

Minha mente ainda é limpa como um ânus
e meu caralho ainda se ergue para as mulheres,
que vêm e vão em cima deste anjo erguido
- assim como eu venho e me esvaio delas,
assim como elas gozam e se aprazem
com o recíproco marulhar de nossos corpos unidos.

Não! Não devemos mais aceitar a submissão.
Não devemos mais aceitar o poderio masculino
como núcleo vigente em uma sociedade
que se diz, há séculos, igualitária e livre.


O eu profano

O eu profundo, um outro eu
não sossega, não se cala,
ao navegar ao lado teu.
Ah... saudade que se fala!

O eu imundo, um mesmo eu
se contorce, se estala
ao ignorar um outro eu,
que, imóvel, vai à vala

da memória enaltecida,
de meu denso coração,
pedra, assim, doída,

um momento! sem noção.
Aos que aqui esperaram algo,
sobretudo: meu perdão.


terça-feira, 7 de julho de 2015

Uma porta que se abre

uma porta que se abre
outra que se vai

jurava ter encontrado
um novo começo
para minhas novas angústias
para meu novo amar
minhas novas alegrias

entretanto
pisei num telhado de vidro
e caí em areias movediças.

vivo no espaço de minha cadeira
e da tela do computador desligado

o vazio se instala
a névoa me ilumina

estou amando novamente.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Pois só tu

preciso
contar
como eu te
ouço

preciso contar
os segundos
que já não
me apressam

a pouca luz
da escuridão
não me apressa

e eu mesmo
me encerro
sem me apressar

preciso
contar
como eu te
ouço

e como
te amo
sem te
conhecer

deixa-me ir
com os homens
entrevados

deixa-me ir
em tuas garras
anestesiantes

aqui, as mulheres
vêm e vão

por ora
só tu ficaste
em minha erma
solidão

só tu ousaste
te aproximar
de meu âmago
perigoso e
carente

por isso
te amo
sem te
conhecer

pois só
tu me ouves
e
conheces.

sábado, 4 de julho de 2015

O Misógino



O Misógino


(Peça em um ato)




Cena:





(Fade in na casa de Agnieszka e Kowalski Czaplicki. Pouca mobília, livros de teatro e poesia espalhados pelo chão e um cigarro aceso como marca-páginas quase na metade de Fausto. Agnieszka, estudiosa do Romantismo, filha de poloneses, bem como seu marido, está sentada no sofá empoeirado e assiste à TV desligada. Kowalski, homem inteligente e sombrio, lacônico e solitário, observa sua mulher enquanto escreve pequenos versos esparsos sobre sua condição de marido fracassado. Paira no ar o sentimento patético de terem vivido a mesma cena milhares de vezes - tornando-a enfadonha e pouco expressiva.)


Agnieszka - Você viu algum livro do Byron por aí, meu bem?



Kowalski - Não vi.



Agnieszka - Pode procurar, por favor? Estou ocupada assistindo ao meu programa...



Kowalski - Só há vazio. Veja, a tela está preta.



Agnieszka - Você tem sempre que complicar as coisas, não é?



Kowalski - "Sempre complico as coisas: inútil, inóspito, irreverente,/ sou pouco ser, pouco atento, vil e inconstante meramente".



Agnieszka - Começou a choradeira. Já disse mil vezes que não adianta por para fora seus desgraçados sentimentos. Tudo arde por dentro. Se você exterioriza aquilo, somente deixa que a dor o consuma. Só deixa os sentimentos o entrevarem.



Kowalski - Discordo. E só estou escrevendo meus versinhos... (Rindo.) Como psicóloga você é uma completa ignorante! Vai logo pegar meu copo de uísque. Com gelo! E cala essa sua boca - que eu não te dei esse direito!



Agnieszka – Chega, Kowa! Somos casados! Deveríamos compartilhar amor e carinho!



Kowalski - (Cochichando.) Deveria é ter escolhido outra...



Agnieszka - O quê? Fale mais alto!



Kowalski - Deixe pra lá... Não era nada importante. Agora, vou continuar a escrever. Assista ao Vazio enquanto meus dons artísticos transcendem meu corpo e se materializam no papel.



Agnieszka - Idiota! (sai.)





Kowalski - (grita, mas não é ouvido.) Puta!



(Travelling para o monólogo da madura e doída mente de Kowalski.)



Kowalski - Sinto-me só na maioria das vezes. O amor de outrora, que me consumia e suportava, se esvai e me deixa triste e incompleto. Amei plenamente a mulher errada e agora sofro por minha má escolha. Sou como um novato em uma sala de veteranos; o novo garoto retardado do Primário. Nunca conquistarei nada senão a amargura e frustração de estar vivo. Hoje em dia, estou cagando e andando para minha mulher... Hoje em dia, quero mais é que ela se foda! Agora quero mesmo. Já comi pessoas melhores. Tenho pena dela: tão burra e paranoica, tão preocupada, porém desinteressante... cadela sifilítica! Talvez, na verdade, nunca tenha a amado. Sinto tanta repulsa que penso não ser possível ter amado tempos atrás.



(Agnieszka volta)



Agnieszka - Desculpe-me.



Kowalski - (Lacônico.) Não.



Agnieszka - Não deveria ter te chamado de idiota.



Kowalski - Quero ir embora. Sozinho!



Agnieszka - Por que, querido?



Kowalski - Porque você me abandona quando estamos juntos. Você desdenha da minha escrita, vadia!



Agnieszka - (Soluçando.) Misógino imprestável! Não faço mais do que exprimir com minha voz a realidade! Você é só mais um vagabundo que fica bebendo até tarde, escrevendo poeminhas de merda e fodendo outras por aí. Sei o que você faz às escuras...



Kowalski - (Debochando.) Claro, vive assistindo à tela preta...



Agnieszka - (Furiosa.) Vá se foder!



(Retira-se novamente. Monólogo.)



Kowalski - Odeio estar nessa condição: se eu sair, para onde vou? Além do senhor mau gosto de Aga - por ter se casado comigo, pelas roupas que ela veste, pelos livros que ela lê e o programa a que assiste, ela tem um odor... estranho. Do tipo que me dá náuseas ao jantarmos juntos; do tipo que me faz vomitar após o sexo. Já não sinto saudade, não me faz falta. O desgosto conjugal se consolida... o amor tem, sim, um esgotamento...



(Apesar de seu sentimento, Kowalski, espera, angustiado, o retorno de sua esposa - que não volta. Silêncio. Fuma o marcador de Fausto até que...)


Kowalski - Merda, os Czaplicki ruíram. Já não tenho quem cozinhe e limpe a casa; não tenho quem me abrace quando estou carente... não tenho nem com quem falar... Ao que parece, foi só um momento, um instante de raiva. Merda, Aga ainda se dá valor. Mesmo depois de tudo o que disse e fiz. Acho que a voz feminina não deveria ser subestimada. Recordo-me de quando a vi pela primeira vez. Ela estava linda no negror de seu vestido, na palidez de sua face, no marulhar de seus cabelos... Lembro-me de pegar o telefone e ligar para meu amigo, do outro lado do salão. Não lembro se ele me disse seu nome, mas acabei indo falar com ela. E cá estamos, agora, arruinados. Eu estou arruinado.



(Silêncio. Suspiro. Kowalski senta-se no sofá com uma expressão perdida, em frente à TV desligada. Um minuto se vai enquanto ele assiste ao Vazio e...)




Cai o pano

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Cri$to é a $alvação

memórias
da gente remoendo
a loucura,
morrendo os
esfarrapados
e nos fodendo
sob a sotaina
retornam ao
crânio entreaberto,
às janelas da mente,
devo dizer,
pois não há muito
- não há muito agora,
porque ainda cremos
que nosso dinheiro
será a salvação
quando, na verdade,
são queimados em
cestinhas metaforizadas.

acho que não sei muito,
e talvez nunca venha a saber
muito sobre algo.
mas estou certo
de minha pequenez.
estou certo de que há algo
maior,
algo em que devemos acreditar
e entregar nossa pífia
existência.

as sombras ao redor dos olhos
não são de todo intencionais.
noites eternas passo acordado
pensando em ti.
penso naquele instante de gozo
e gozação.
porém, não.
devo parar aqui.

o silêncio contempla teu corpo
nu e cheio de cicatrizes.
são marcas de guerra.
são feridas da batalha contra ti mesma,
contra ti, minha amada,
quem irá se salvar?
o monocromo de uma vida
(sem vida) pautada na falta de ego.
falta de autoestima, declínio.
por isso cremos!

aqui fumamos, aqui estamos
sem nossos sonhos merecidos.
a terra prometida é a certeza
de uma vasta escuridão.
o nada nos consome.
o vazio nos petrifica.
a guerra nos apetece.

meu amor, isto é só sexo.
o amor que tanto pregaram
se foi faz tempo.
tudo é pseudo-amor.
tudo é repúdio discreto.
mas eu decreto:

o paraíso voltará a ser gratuito
após o vencimento do último boleto.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Falenas

Sem saber 
se devo insistir 
na inútil luta
por tua alma 
despedaçada e 
                       apunhalada
por lindas flores 
murchas e 
enamoradas,

querida, 
devo coroar-te 
minha absoluta
rainha de 
rosas e margaridas 
                              abençoadas.

Tens alguém 
que te cuidarás, 
                         por sorte.
Amor, 
meu amor 
eternamente amado
vai além de teu quieto 
túmulo fechado;
vai além da vida 
e da doce morte,
que já tem de todo 
se aproximado.

Fosse eu poeta 
da vida, 
separar-me-ia
desse teu estado 
sisudo e introspectivo,
do amor a que chamo 
defectivo.
Não seria eu que 
escrever-te-ia.
Não seira eu o amante 
intelectivo.

Sem saber 
se devo insistir 
na inútil luta
por tua alma 
desbotada e incrivelmente
atribulada, 
não duvidaria se,
de repente,
voltasse para mim
a coroa absoluta
e incrivelmente resoluta.

Não.
Não me coroaria 
sem tua 
presença.
Por isso deito em teu jazigo,
acima da porta para teu inferno,
minha rainha
das rosas e margaridas.
Por isso me aproximo
de teus invernos 
até que morro
em cima de ti, querida.