terça-feira, 22 de setembro de 2015

Com unhas roídas

As unhas roídas
que dedilhavam muros e grades,
celas e portões
agora escrevem nas paredes
do indizível.
Poesia dependente?
Oras, não somos sustentados
pelo medo do sofrer e pela procura
do tão louvado espasmo de felicidade?
Isso já é ser dependente.
O mesmo ocorre com a poesia,
que inverte sentimentos,
palavras, momentos...
Aproveite o instante e feche o livro, o site;
rasgue o papel, avulso como o poeta num mundo de multidões.
Não vale a pena desperdiçá-lo comigo.
Não vale a pena perder-se em palavras amargas que nada acrescentam.
Falhamos, é claro. Mas recomeçamos...
E quero recomeçar contigo.
Quero um novo tempo, sem expansões,
exaltações e maldizeres.
Quero teu amor e um tanto de teu tino ajuizado,
um tanto de teus lábios
e um pouco de teus silêncios.
Basta! Não escreverei sobre ti,
porquanto os fatos são intangíveis.
Qualquer aproximação inexata da realidade nos remete à frustração...
e não precisamos disto para provar
o quanto gostamos um do outro.
Nenhuma existência se faz ínfima.
Nenhuma eloquência cala os calados.
Daqui, só me restam versos escritos em rancor, corridamente, somente escritos para mim.
Passas longe, portanto, da poesia voltada para o EU.
Porém, ainda és poesia para o coração
que pulsa um outro, permanente.

Vida ingrata

Vida ingrata! Não vivo um segundo
sem exteriorizar a dor e o pranto.
Jazem os que tiveram-me em seus braços,
E agora, triste e depressivo, à morte canto.
Vida maldita! Enterraram-me no inferno da existência.
Ninguém visitou o sepulcro,
ninguém deixou flores e revisitou minha carência.
Ninguém foi leal a meus demônios...
Acostumado com o esquecimento,
foram em mim depositados um pouco de ódio, de solidão,
de languidez e de tormento.
Às lágrimas, ínfima parte do sofrimento
pedem que se calem. Pedem que se comportem.
Mas como sempre fui meio rebelde, choro pelos cantos - em total escuridão.