sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Burro

é possível ver
meus olhos carrancudos,
estampados à
face triste
de uma poesia idiota
e corriqueira,
exibindo sua inteligência
neandertal 
em seus olhares incertos,
na melodia que toca 
ao tocar tua pele áspera,
nos timbres e texturas
de tuas retardadas, infantes
e desrespeitosas 
brincadeiras lastimáveis.

enquanto cruzas meu caminho,
sequer existo, sequer me vês, 
como pensei que verias,
como pensei que te importarias
quando estás, de fato, sozinho...
pois quando estás acompanhado,
tudo que chega a mim não é o olhar,
mas a troça, a ignóbil mensagem 
de um anencéfalo que preferiu
o falar inútil ao calar preferível.

é preferível, digo,
ver meus olhos
abertos enaltecendo
meu próprio espírito déspota,
maquiado, inseguro, exangue
do que me submeter a ti
ao concordar.

coitadas elas, abusadas pelo corpo,
pelo desejo e pela palavra.
coitados eles, não orientados
pela mesma circunstância.
coitados eles, ainda escravizados
pelo gozo alheio.
coitados eles, maiores ou menores,
amorfos ou disformes.
coitados eles, injustiçados já na 
concepção - e pela concepção de outrem.

mas, na verdade, não há coitadismo.
há injustiça e burrice.

burros são os asnos, idiotas, indolentes,
pois não enxergam nem o que está na 
superfície. 

e enquanto o meu redor
poetizar meus olhos
para criar, sentir, ouvir
e dizer,

coitados os burros!

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