sexta-feira, 8 de abril de 2016

O duplo

Logo, despetalarei. É outono.
Eu sou o duplo, mas não tenho crédito.
E, por ser ambíguo, vou criando versinhos
aqui, isolado na eloquente calmaria
de minhas quatro paredes brancas
e no desconforto de minha cama esverdeada
- repleta de um silêncio doentio,
que transcende a escuta e traz paz e caos
ao interior do solitário quarto em que estou.

Apenas uma almofada velha e um pequeno lençol de solteiro
me acompanham nesta noite fria,
após um dia calorento e estressante.
Não há porta neste pequeno quarto arranjado.
Uma cortina me separa do mundo, mas ainda ouço
os passos dos enfermeiros indo para lá e para cá
e seus cochichos ilegíveis a invadir a essência
de minha dedução.

Um deles me furou, e os potinhos logo
se preencheram com meu sangue roto.
Retirado, feita uma lavagem.
O carvão ativado começa a surtir efeito.
Sinto a sucção extrair os comprimidos
que, momentos antes, engolira num impulso.

É outono, e as folhas rejeitam os galhos;
as pétalas se desfazem das sépalas e receptáculo.
Um enfermeiro está aqui, de costas.
Ele me pergunta coisas sobre a vida,
como se houvesse vida em mim.
E eu respondo, preguiçoso, com um breve "hum".
Pois minha ferida é incompreensível ao seu entendimento.
Meu vazio é demasiado vazio para alguém repleto
e são.

A brancura das paredes desbota em meu próprio âmago.
Estou desfalecido, incurável, fraco, adoecido.

Até então, não havia percebido a presença de uma moça
à minha esquerda, chorando.
Não sei quem é.
Permanece calada em suas lágrimas, com o rosto apoiado nas mãos.
Não consigo conversar com ela,
não tenho palavras suficientes para tal.
Não tenho eloquência, tudo parece derradeiro.

As pétalas se desprendem aos poucos, porém se desprendem.
É outono, e não conheço quem chora por mim,
assim como não me conhecem, pois me oculto e me ocultei,
cultuo e cultuei a introspecção.
Pétalas que outrora resplandeciam o viver,
a felicidade e, quiçá, o amor,
agora se sujeitam ao finalizar-se.

A cortina se abre, e lá está minha família.
Todos chorando, com pesar e angústia em seus olhos
lacrimosos, como os meus - a essa altura.
Num abraço coletivo, cogito: eles me amam?
Eles me amam.
Apesar de ser quem sou, apesar de ser uma mente doente
numa carcaça fétida, eles me amam!

Meu coração despedaçado pulsa,
meus dedos tremem e os olhos se encerram.
Não há alegria ainda, porém, talvez, um novo começo.
Não sei o que se sucederá daqui.
O que tenho é uma certeza:
Não tenho crédito, portanto não tenho vontade de viver.
O que me move é o mundo, pois não posso me mover sozinho.
Ainda estou na cama esverdeada e, provavelmente, ficarei aqui por um tempo.
Quero dizer que, apesar de tudo, ainda sou.
Eu sou o duplo.

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