sexta-feira, 1 de abril de 2016

se não tenho medo, por que tens medo

se não tenho medo, por que tens medo
de que teus dias desfaleçam à luz da ira?
vês teus olhos entreabertos no espelho 
do Nada, na tragédia do encerrar-se...

se não tenho ira, por que estás irada?
aproveita a morte e a vida!
pois eu, que tanto e sempre vaguei 
pela penumbra do inconsciente,

que tanto sonhei - e sonhei somente,
não tenho tempo para realidades disfóricas.
quando penso que tão pouco vivi,
tão logo me entrego ao devaneio.

pés no chão? só se for para amar-te
sem orgulho ou fantasia, sem ideal 
ou poeira de versos que desejei cantar,
mas não cantei, porque imergi,

sumi e, enfim, voei! para me cansar
e me entregar aos trabalhos da surpresa,
da expectativa frustrada, muito mais morta
e viva do que imaginamos. 

e o amor, que nada tem a ver com o percurso
que trilhei sozinho; que nada tem a dizer
em um poema alegremente triste,
solitário, emana de minhas entranhas.

se não tenho medo, por que tens medo
da escuridão dos olhos vendados pela paixão?
receias, confundes e não concatenas
a melodia que soa - sem que escutes ou identifiques.

não nos matemos esta noite, porquanto a angústia
e o pavor do desconhecido ainda nos afligirá, 
e nos guiará rumo ao coração das estrelas 
pintadas por mãos nuas e findas.

e quando sinto que hei de te perder
para um esquecimento insalubre e consciente,
a mágoa se instaura no peito, que se enche de lágrimas
da cor do desejo da névoa que habita seres desencontrados.

portanto, não nos dispersemos. se não me dispersar, prometes
que não irás embora? preciso de tua companhia de escuta.
preciso dizer que preciso dizer que te amo,
- mas não amo, porque não sei amar ainda um amor de partida.

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