sexta-feira, 25 de março de 2016

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Ele soava invisível
aos que transitavam sem passar
pelo irresistível resistível,
que entendia sem entender

o prazer na angústia,
recuo inesperado,
porém seco,
em uma plenitude 
vazia
de uma existência inexistente.

segunda-feira, 21 de março de 2016

Aplauso

Pelo véu das retinas cansadas,
por toda alegria expressa 
na face que canta, que traduz e ilumina...

me quer? Não me quer, 
pois a felicidade, que se esgota
em seus súbitos espasmos,
é mentirosa.

Conheço a entranha das palavras.
Não as que se aplaudem - dos saraus
aos maiores espetáculos.

O grande espetáculo
é, igualmente, uma farsa;
indubitavelmente mentiroso
e formador de passividade.

Conheço a profundeza do que surge
assim, de repente, das pequenas coisas
codificadas pelo marulhar excessivo da mente...

E o aplauso, simplesmente aplauso, 
faz com que me entristeça,
com que rechace minha própria criação.
"Viva a vaia!" Viva!

sexta-feira, 18 de março de 2016

Verso intransitivo

Solidão, poema solitário.
Verso intransitivo, verso adagiário.
Lúgubre e tediosa, despeja mágoas
sobre quem ama,
e triste, triste como uma paixão que inflama,
o universo marulha em suas águas.

Solilóquios inertes e atordoantes.
Palavra ascendente, não como antes.
Histeria dolorosa, sincera e invejável,
ócio sobre quem canta,
despeja tua miséria, tristeza e ódio na garganta!...

despeja a dor da necessidade lastimável.

terça-feira, 15 de março de 2016

poema

o abismo nos olhos de escuridão,
a fome e miséria no ardor do azar
(de ter nascido - e não existido, senão
no seio da histeria, da dor e do pesar).

seres, monstros, ogros... e o homem-mau
cantam a agonia da pureza impura
(que se estende sobre os versos da nau,
que naufraga e ainda se vai... sem cura).

e a luz que busca em seu rosto,
o que já se foi, o que foi deposto
há de extrair a ínfima parte dela.

e a melancolia da qual bebem os esquecidos
é a fonte de despedida dos adoecidos,
que também se vão, no aceno da última triste parcela.

sábado, 12 de março de 2016

Une saison en enfer

tilintam os ossos em meio à penumbra.
risos cessam, a noite retumba!
horror expresso nas faces cemiteriais
dos burlescos! loucos e bobos... arlequinais!

oh! là là!

como eu versasse a um miserável a obra rimbaudiana,
versos rotos comentaria, e se perderia na tormenta diluviana.
o não-vivo permanece por detrás das agonias.
são os burlescos! loucos e bobos... atrás de um messias.

avant-garde!

"crê, crê, crê", urram os esqueletos!
em nome de um folhetim, de um livreto!
que ocultam em infames e Medianos pensamentos
para não terem que lidar com a mudança, o momento.

injustice!

os bons serão abençoados com a coroa de rosas.
"coroai-me de rosas!" - breves, salvas e charmosas.
o restante é aberração: tediosa, pecaminosa: solidão,
que corrói! "corroei-me de esterco, vermes, putrefação!"

prosélitisme! 

como versassem aos burlescos, loucos e bobos,
os cretinos se dizem superiores! filhos do Globo!
mas bem sabem que, no fundo, tudo é uma esperança
de ascender, se imortalizar... um sonho de criança!

silence!

psiu! não falemos sobre o abuso e o retrogradismo artesianos!
afinal, a morte é divina! - mas nós, apenas humanos!
e se empurram, correm e fogem como animais de rebanho
que se reduzem, se espremem e diminuem de tamanho!

voilà

já chegaram ao pé da cova, e o dia raia sem cessar.
por hoje, chega desta festança que insiste em maltratar
quem não tem a ver com a crendice dessas almas em desertos,
tão tristes, tão desiludidos... que precisam de crendeireces - ou dejetos!

domingo, 6 de março de 2016

Erlkönig

O pai caminha lento, cismando,
enquanto o filho, admirado,
caminha pesaroso, cantando
para ele, triste e descuidado.

A neblina se estende pela relva à frente;
e o filho aperta o passo num regresso ao lar,
pois percebe o pai triste, quase doente:
"a escuridão e o pesar ainda vão te matar."

"Deixa disso, dileto, vem comigo!
À capela estamos quase chegando."
"Iria, mas sou mais que um filho, sou amigo,
e não deixaria tu aí: o sofrimento esperando.

Ouviste?! O que foi esse estalido?"
"Deve ter sido um animalzinho qualquer."
"Pai, precisamos ir! Sinto próximo o perigo!
Não quero estar aqui quando o Erlkönig vier!

"Não existe tal criatura! E não preciso de tua companhia
se não quiser ser companheiro."
Então, o menino corre à penumbra, sem tristeza ou alegria,
rumo aos braços do salgueiro. 

E as flores e folhas na relva satirizam
o vazio que encontra em seu abraço,
e chora o salgueiro, os braços se eclipsam,
pois o garoto já está morto em seu regaço.


quinta-feira, 3 de março de 2016

Inexistência

Meu amor minha cólera apagava,
pois tudo que amei, amei no escuro.
E na eterna mágoa eu gritava:
"vivi um amor atrás de um muro!"

As flores que depositarei no jazigo...
dos dias cansados, nunca minhas serão.
E na eterna mágoa, elas gritavam comigo:
"viveste sequer um momento - és uma decepção!"

Todavia, afogar-se jamais será bem visto.
E eu me afoguei em mim mesmo, no momento,
na palavra, enquanto gritava: "não existo!"

E porquanto cismava, em meio ao sentimento,
depois das flores e do jazigo quente e misto,
todos comigo gritavam: "morre, inútil! e leva contigo o tormento!